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Retratos de uma São Paulo que não existe mais

por Ricardo Carvalho — publicado 14/06/2011 15h33, última modificação 19/06/2011 11h40
O levantamento histórico de prédios abandonados por um jornalista e uma historiadora revela os resquícios da cidade da época dos barões do café
Retratos de uma São Paulo que não existe mais

O levantamento histórico de prédios abandonados por um jornalista e uma historiadora revela os resquícios da cidade da época dos barões do café. Foto: Douglas Nascimento

Numa segunda-feira de maio, enquanto conversa com a reportagem, Douglas Nascimento recebe um e-mail. O autor da mensagem, que pede para ter seu nome mantido em sigilo, informa o fotógrafo e jornalista de 36 anos da existência de um sobrado na região da Pompéia vendido recentemente e que pode vir a ser demolido.

Aos domingos, como faz desde meados de 2008, Douglas acorda ainda de madrugada e escolhe entre suas anotações um bairro da cidade. Com a lista de e-mails similares recebidos durante a semana, que informam sobre palacetes abandonados, prédios do início do século invadidos e construções históricas sob risco de demolição, ele deixa sua casa em Guarulhos e percorre a capital registrando em imagens os traços arquitetônicos típicos da primeira metade do século XX.

O resultado desse trabalho de preservação histórica de uma metrópole em constante mutação, que Nascimento gosta de comparar ao empreendido pelo fotógrafo Militão Augusto na passagem do século XIX para o XX, está disponível no site São Paulo Antiga (saopauloantiga.com.br). Até agora, são mais de 350 imóveis registrados no portal, sendo que o fotógrafo garante ter mais 600 na fila para cadastro. As imagens vêm acompanhadas de um breve texto explicativo, que contextualiza a história do patrimônio. Essa parte do trabalho costuma ficar a cargo da historiadora Glaucia Garcia de Carvalho, de 30 anos.

A ideia do projeto nasceu há três anos quando os dois se conheceram numa palestra sobre preservação do patrimônio histórico, em Guarulhos. Na época, Nascimento já tinha o hábito de caçar imóveis antigos e abandonados por São Paulo. A atividade, conta, começou em 2005 como um hobby. “Eu comecei a comparar as primeiras fotos que fiz com outras, dos mesmos lugares, feitas dois ou três anos depois. E percebi que, mesmo em um curto espaço de tempo, muitas casas foram demolidas para dar lugar a prédios”.

Baseados em duas experiências internacionais semelhantes, o Lisboa Abandonada, em Portugal, e o Basta de Demoler, da capital argentina, eles decidiram lançar uma iniciativa paulistana. Ambos definem o projeto como uma tentativa de atentar tanto a população quanto as autoridades públicas para o descaso com o patrimônio histórico da metrópole.

Parte das construções selecionadas pela dupla está abandonada há tantos anos que é preciso buscar as informações sobre a história do imóvel, seus donos e as razões do descaso em cartórios e juntas comerciais. Glaucia, que trabalha no Arquivo Histórico de Guarulhos, faz grande parte dos levantamentos nos arquivos municipal e estadual. Não é raro quando, apenas munida do sobrenome do dono de uma casa, ela tem de buscar informações em livros de sepultamento nos cemitérios do Araçá e da Consolação. “Há cerca de um ano, eu tentei obter informações sobre uma fábrica de tecelagem abandonada na Mooca. Eu só tinha o sobrenome da família e o jeito foi fazer plantão no Dia de Finados no Cemitério da Consolação”. Na ocasião, Glaucia abordou uma senhora que visitava o jazigo da família e descobriu, entre outras coisas, que a fábrica fechou as portas no início do governo Fernando Collor de Mello, devido ao estímulo a importações, que acabou com a competitividade do negócio.

Dentre as inúmeras histórias recolhidas, Glaucia relembra duas em especial. A primeira, mais recente, é sobre o destino dado aos últimos resquícios da Mansão Matarazzo, na avenida Paulista. Demolida em 1996 para dar lugar a um estacionamento, por 12 anos permaneceram no local a sauna e o jardim de inverno da mais emblemática família de industriais do País. Após o cancelamento do pedido de tombamento pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, essas estruturas foram demolidas no dia 18 de maio, uma vez que o terreno abrigará uma torre comercial e um shopping center.

A segunda ocorreu em Guarulhos, história relatada no site com o título de Casarão Saraceni, um adeus. O imóvel, último resquício de art noveau da cidade, localizava-se no meio do estacionamento do Internacional Shopping Guarulhos. Datado do início do século XX, era na casa onde funcionava a primeira indústria de artefatos de couro da cidade. Em novembro do ano passado, o casarão foi demolido para dar lugar a 25 novas vagas para o estacionamento.

Após dois anos de projeto, o São Paulo Antiga extrapolou os limites da região. Chegam por e-mail a Douglas denúncias de descaso em cidades como Salto, Botucatu e Itapetininga. Nesses casos, ele pede que os próprios moradores façam as fotos e as enviem para o site.

O próprio portal serve como um meio para que a história dos imóveis seja mantida. Com uma foto de um palacete no Brás publicada no portal, por exemplo, surgiram comentários de pessoas que conhecem a família que ocupara o endereço até o início dos anos 1960. Assim, com base nas histórias que apareciam, descobriu-se que palacete foi construído por Carlos Rega, farmacêutico italiano naturalizado brasileiro que abriu seu comércio no andar térreo do prédio.

A São Paulo retratada por Douglas e Glaucia está escondida, de forma muitas vezes quase imperceptível, entre modernos prédios comerciais e empreendimentos residenciais. Uma cidade que já havia sido construída sobre as características coloniais, quando os barões do café moldaram uma metrópole de arquitetura eclética com base em construções europeias da metade do século XIX. “Depois veio a cidade modernista, marcada principalmente por Flávio de Carvalho, que começou a suplantar a anterior”, diz Douglas. “Desde os anos 1980, com a falta de espaço para o crescimento, essas duas cidades começaram a ser demolidas em nome do progresso. Agora, é uma cidade cada vez mais sem memória. Aqui não há aquela cultura de andar pelos bairros, ver um casarão e dizer: ‘aqui nasceu um escritor famoso do século passado, ou aqui houve um acontecimento importante para a história da cidade’. E é essa memória que queremos preservar”, afirma o jornalista.

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