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Fotografia

Retratos da Belle Époque Paulistana

por Paloma Rodrigues — publicado 29/11/2013 06h32, última modificação 29/11/2013 12h38
Registros feitos por funcionários da São Paulo Tramway Light mostram o período de glamour e efervescência cultural da cidade
Fundação Energia e Saneamento
Anhangabaú

Parque do Anhangabaú em 1938

"Em São Paulo as construções não duram mais do que a vida de um homem, porque não se deixa criar uma história contata pela arquitetura urbana. Vão demolindo e construindo em cima." A história dessa São Paulo enterrada, anterior aos metrôs, aos trens e aos mesmo bondes está contada no livro Belle Époque na garoa - São Paulo entre a tradição e a modernidade, da historiadora Márcia Camargo. A obra será lançada no sábado 30, no Museu o de Energia de São Paulo.

O material é base de um acervo de fotos tiradas pelos funcionários da empresa canadense distribuidora de energia São Paulo Tramway Light. O trabalho registrava como eram as obras de infraestrutura da empresa e o início da industrialização da cidade. Apesar do caráter técnico, as fotografias se tornaram, no conjunto, uma obra de resgate e de memória.

As grandes avenidas por onde se assentariam trilhos de bondes, um tipo de lampião antigo que seria substituído pela rede de energia elétrica ou mesmo pessoas mostrando os resultados de uma enchente em suas casas, que serviriam para justificar a canalização dos rios mais tarde eram registros comuns no cotidiano dos funcionários. “Não existia uma preocupação estética com as fotos, mas muitas são até artísticas”, conta a historiadora.

A Belle Époque paulistana sofreu profunda influência parisiense, considerada a capital cultural do século XIX. A cidade queria ser, também, uma referência no mapa artístico. Para se firmar neste posto dentro do País, as elites locais não pouparam esforços e investimentos nos aparelhos culturais, mostrando, segundo a pesquisadora, “o ideário do voluntarismo das elites, que está muito emblemático na bandeira do estado: ‘Não sou conduzido, conduzo’”.

Em 1905, o Liceu passa a abrigar a Pinacoteca e construído o Theatro Municipal é inaugurado em 1911, em uma arquitetura claramente inspirada na Ópera de Paris. Nesse processo, o arquiteto Ramos de Azevedo reina quase absoluto, com diversas obras espalhadas pela cidade. Uma delas, o casarão da família de Santos Dumont, erguido no bairro dos Campos Elíseos. Na foto,  tirada em 1990, Santos Dumont posa com sua família e seus carros recém adquiridos, um sinal de status dentro da cidade que tinha na época apenas 84 veículos motorizados.

Também ligados ao ideário positivista de origem francesa, que acreditava que o progresso era fruto da erradicação do analfabetismo, São Paulo investiu em instituições educacionais. Segundo o livro, foram mais de 200 prédios construídos ou recuperados.

“Sua localização estratégica em locais abertos como praças, esquinas, avenidas e ruas largas não disfarçava o intuito de divulgar as metas do governo. Eram projetados para causar impacto visual e funcionar como polo aglutinador, valorizando seu entorno”, escreveu Márcia na publicação. Mas uma educação que não era sentida por todas as camadas da sociedade, mas voltada para a parcela mais abastada.

A Belle Époque paulistana inclusive, ressalta a pesquisadora, tinha um caráter profundamente elitista. A evasão do campo para as grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, geraram um inchaço populacional nos centros urbanos, ignorado pelo poder público.

O fim do período na Europa veio com a brusca interrupção gerada pela Primeira Guerra Mundial, que mudou radicalmente a realidade dos cidadãos para um cenário de terror e medo. O distanciamento geográfico fez com que o Brasil não sofresse tão duramente as consequências da guerra, mas o País também sofreu com seus reflexos. “A falta de fornecimento de materiais fez com que os arquitetos tivessem que buscar outras soluções. Depois da Primeira Guerra, é possível ver o investimento em uma arquitetura mais nacional”, afirma.

No Brasil, a dura realidade, escancarada pela Guerra na Europa, foi sentida durante a Revolução de 1924, também conhecida como Revolução Paulista de 1924 ou Revolução Esquecida. Considerado um dos piores conflitos bélicos sofridos pela cidade, foi um movimento tenentista que buscava derrubar o sistema de oligarquias, que comandavam a cidade.

O início das quedas das oligarquias, aponta Márcia, também foi fundamental para que a cidade passasse a se voltar para sua própria população e não mais para o aparato cultural e arquitetônico que a cidade teria a oferecer para sua elite. “Toda mudança de mentalidade leva tempo, o que não nos permite cravar uma data para o início desse movimento. Podemos apontar 1924 como um ano para o fim da Belle Époque, mas é preciso lembrar que todos os processos são lentos e se sobrepõem”, afirma.

Os conflitos travados durante a Revolução também são responsáveis por alguns dos mais bonitos registros presentes no livro. Os grandes casarões caraterísticos do período anterior marcados pelas balas representam simbolicamente o fim de uma época de glamour e requinte experimentada por um seleto grupo de paulistanos.

Serviço
Quando: Sábado, dia 30 de novembro
Horário: das 10h30 às 14h30
Onde: na área externa do Museu da Energia de São Paulo
Endereço: Al. Cleveland, 601 – Campos Elíseos - São Paulo
Preço do livro: R$ 30,00

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