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Reforma bilionária e concessão põem em dúvida real legado do Maracanã

por Deutsche Welle publicado 11/04/2013 10h14, última modificação 11/04/2013 10h18
Após gastos públicos de 1,5 bilhão de reais em obras, Rio de Janeiro receberá apenas 4,5 milhões por ano do administrador privado do estádio
Maracanã

Cobertura do Maracanã foi terminada nesta semana. Foto: Erica Ramalho/Governo do Rio de Janeiro

Com a reforma do Maracanã quase concluída, o governo do Rio de Janeiro deve anunciar nesta quinta-feira 11 quem vai administrar um dos maiores templos do futebol mundial pelo próximos 35 anos. O vencedor da licitação vai receber um estádio pronto, no qual foi investido 1,5 bilhão de reais ao longo de três reformas levadas a cabo nos últimos 14 anos. A atual foi inicialmente orçada em 600 milhões, mas o valor já ultrapassou 900 milhões.

Tanto a concessão quanto a reforma são alvos de críticas, que miram a falta de transparência desses processos. Para os críticos, não é possível saber exatamente onde o dinheiro está sendo investido.

 

 

"Nós vemos o Maracanã como um exemplo muito claro de autoritarismo e arbitrariedade em projeto e obras que consomem grandes volumes de recursos públicos e que dizem respeito a espaços públicos de extremo interesse da população", afirma Gustavo Mehl, pesquisador do Observatório das Metrópoles da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O valor investido em reformas no Maracanã é bem superior ao que foi gasto, por exemplo, na Allianz Arena, em Munique. O estádio, um dos mais modernos da Europa, sediou a abertura da Copa de 2006 e custou 340 milhões de euros, aproximadamente 970 milhões de reais, para ser construído.

Para o jornalista esportivo Juca Kfouri, um dos maiores críticos dos gastos excessivos com a Copa, reformas como a do Maracanã são convenientes apenas para aqueles que ganham com elas, como as empreiteiras. "Exceção feita, é claro, ao contribuinte brasileiro", critica.

Segundo Mehl, o estádio carioca não precisava de mais uma reforma, e a atual é praticamente uma reconstrução. "Esse movimento de demolir para reconstruir é extremamente lucrativo para as empreiteiras, pois é um trabalho duplo. O custo alto da demolição encareceu as obras do Maracanã", avalia.

Opinião semelhante tem o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) do Rio de Janeiro, Agostinho Guerreiro. "O Maracanã estava num bom estado, talvez ele precisasse de uma pequena reforma. Mas uma reforma tão cara e gigantesca foi muito mais por exigência da Fifa."

Após investir no estádio, o governo fluminense cederá a administração do estádio à iniciativa privada. Em troca do direito de explorar economicamente o Complexo Maracanã – o estádio, o ginásio Gilberto Cardoso (Maracanãzinho), o estádio de Atletismo Célio de Barros e o parque aquático Júlio Delamare – a concessionária deverá repassar ao governo estadual 4,5 milhões de reais ao ano.

  

A concessionária também ficará responsável pelas obras no Complexo, entre elas a demolição e reconstrução do Célio de Barros e do Júlio Delamare. A licitação prevê ainda a demolição da Escola Municipal Friedenreich e do presídio Evaristo de Moraes, para a construção de estacionamentos e de uma área de lazer com bares, lojas e restaurantes. Além disso, o Museu do Maracanã deverá ser criado no local onde era o antigo Museu do Índio.

Segundo Mehl, as condições da concessão, bem como o valor do repasse ao governo, são questionáveis. "Ao final de 35 anos, ou seja, praticamente três gerações de torcedores, o valor repassado não retornaria nem 10% do que foi investido pelo Estado no Complexo do Maracanã e não paga nem os juros dos financiamentos feito para a reforma", afirma o ativista, que também faz parte do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Miguel Lago, diretor-presidente do movimento Meu Rio, que luta pela inclusão da população em políticas públicas, concorda. "A questão de demolir um equipamento público para colocar um equipamento privado é muito complicada e não se legitima", afirma. "Como não temos informação sobre o projeto, não dá para saber se era interessante fazer uma concessão – principalmente agora, com a obra quase concluída.".

Para Mehl seria importante que o governo justificasse a decisão de privatizar a administração, com a apresentação de um balanço financeiro dos custos de manutenção e receita do estádio. Ele diz que o Complexo Maracanã poderia ser lucrativo mesmo com uma gestão pública e que investimentos públicos nesse espaço é dinheiro gasto não só em esporte e lazer, mas também em saúde, educação e cultura.

Outras controvérsias sobre o processo de privatização e mudanças no Complexo Maracanã estão relacionadas às possíveis demolições feitas na região: a da Escola Municipal Friedenreich e dos centros de treinamentos de atletas na região. Segundo o edital de licitação, a escola só será demolida após a construção de um novo espaço para abrigar as crianças. Porém, essa determinação não existe com relação ao espaço dos atletas.

Segundo a assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), cuja sede fica no parque aquático Júlio Delamare, ainda não está formalizada a demolição do espaço, porém foi determinado que eles deixem o local até o dia 10 de maio. A assessoria informou que há uma manifestação dos atletas para a manutenção do parque. No momento, a CBDA procura um local adequado para o treinamento dos atletas de saltos ornamentais.

Identidade perdida

Um dos desafios da empresa vencedora da licitação será manter a identidade desse gigante construído para a Copa do Mundo de 1950. Com constantes reformas, aquele que já foi o maior estádio do mundo vem sendo descaracterizado e pouco resta do seu projeto original.

Em 1999 foram colocados assentos de plástico nas arquibancadas e construídos camarotes. Em 2005, a famosa "geral" foi extinta e o campo, rebaixado. Agora o estádio passará a ter capacidade para "apenas" 79 mil pessoas e receberá uma cobertura que possibilitará uma iluminação uniforme.

"O estádio vai ficar mais moderno, com a cara de um estádio europeu. Vai ser um estádio muito bom, muito bonito, mas que realmente vai perder um pouco do charme e do encanto da sua história", diz Guerreiro.
Na inauguração, o Maracanã era dividido em geral, arquibancada, cadeiras numeradas e tribuna de honra. "Se, por um lado, essa era uma divisão que refletia a nossa realidade social diversa e segregada, por outro lado garantia que todos estivessem no local do espetáculo", diz Mehl.
O pesquisador garante que, apesar das mudanças, ainda é possível impedir que o estádio perca totalmente a sua identidade. "Há uma mobilização crescente cobrando algumas iniciativas que garantam a recuperação desse caráter popular histórico, entre elas o preço do ingresso tabelado a partir do salário mínimo, algumas medidas que garantam que a população mais pobre participe do jogo de futebol, como a adoção de setores populares com preços baixos e cadeiras removíveis", explica Mehl.

Após três adiamentos, a entrega do Maracanã para a Fifa, inicialmente estipulada para dezembro de 2012, está prevista para o dia 24 de maio. No dia 27 de abril deve ser realizado o primeiro jogo-teste no gramado, com apenas 30% de sua capacidade liberada. A grande estreia do estádio está marcada para o dia 2 de junho, com um amistoso entre Brasil e Inglaterra.

Autoria: Clarissa Neher
Edição: Alexandre Schossler / Rafael Plaisant
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