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Trópico de Câncer

Reali, um romântico

por Gianni Carta publicado 19/04/2011 18h22, última modificação 25/10/2011 11h50
Repórter por excelência até o último dia de sua vida, recomendava aos colegas "tirar a bunda da cadeira" e ir à rua atrás das grandes histórias
Reali, um romântico

Repórter por excelência até o último dia de sua vida, recomendava aos colegas "tirar a bunda da cadeira" e ir à rua atrás das grandes histórias. Por Gianni Carta

Como sempre, Reali Jr. preferiu dar a notícia diante de um prato de comida num de seus restaurantes prediletos, um italiano em Saint-Germain-des-Près. Isso no fim de 2006. Havíamos acabado de editar Às Margens do Sena, o depoimento que ele me concedeu durante aquele ano. Foram horas e horas de entrevistas gravadas na sua casa, sempre com a presença de sua mulher, Amélia. Isso sem contar conversas em restaurantes e cafés, Paris afora.

“Estou doente”, disse-me naquele dia em que deveríamos celebrar a conclusão de seu livro de memórias. “Mas está tudo sob controle e vou sair dessa fria”, acrescentou meu amigo, otimista. Indaguei porque ele não tinha me dito nada antes. “Porque teria comprometido nosso projeto, visto que você teria me entrevistado com outros olhos.”

Reali Jr. foi repórter por excelência até seu último dia de vida. Ele se orgulhava do fato de o mítico Samuel Wainer tê-lo apresentado numa matéria de capa no semanário Aqui, São Paulo, como “Reali Jr., o repórter”. Trinta anos após a capa, em 2006, Reali me disse: “O Wainer foi o primeiro a definir-me como repórter, exatamente como eu me avalio ainda hoje. Nunca tive pretensões de ser um grande analista ou homem de redação, buscando construir uma carreira atrás de uma mesa”.

De repórter de cadeira, fenômeno cada vez mais frequente com o advento da internet, Reali não tinha nada. Para ele, os contatos na agenda do repórter eram primordiais. E além de cultivar as fontes, Reali repetia: “É preciso tirar a bunda da cadeira”.

Ele cobriu, entre uma miríade de eventos, o golpe de 1964 ao lado de Adhemar de Barros, no Palácio do Governo, a Revolução dos Cravos, a morte do caudilho Franco, a Guerra Irã-Iraque, as greves do movimento sindical Solidariedade, na Polônia. Entrevistou três presidentes franceses: Giscard, Mitterrand e Chirac. Na França e no Brasil, entrevistou desde Castello Branco até o presidente Lula.

Reali cobria qualquer assunto: além de política, reportava sobre futebol, Fórmula 1, guerras. Era um repórter polivalente. Isso se devia ao fato de ele ser dotado de curiosidade e faro para a reportagem. Além disso, o Repórter Canarinho, como era chamado o jovem e aloirado Reali adentrando campos de futebol com um enorme gravador, era carismático. Graças aos seus talentos, era capaz de obter confissões de todos os tipos. A caminho, num trem da Sorocabana, para a fazenda de Adhemar de Barros em São Manuel, Reali foi acordado pelo governador de São Paulo.

– Broto? Está acordado? (Reali: “Chamava-me de Broto porque eu era muito moço”.)

– O que é, governador?

– Vou te dizer uma coisa: a direita é pior que a esquerda. Pode dizer isso aos seus amigos de esquerda.

Reali não se levava a sério. Ele me disse que o correspondente “não deve crer que sabe tudo pelo simples fato de ser mais informado sobre o noticiário do que a média dos cidadãos”. Isso “é seu trabalho” e “sempre haverá alguém com alguma história que o correspondente desconhece, algo a acrescentar, e pessoas especializadas em diferentes áreas podem ajudar o correspondente a fazer análises mais aprofundadas”. Reali concluiu: “A profissão do jornalista é um aprendizado constante”.

Às vésperas do tour para promover no Brasil Às Margens do Sena, eu lhe disse que era melhor ele ir sozinho, pois, afinal, o herói era ele. Reali retrucou que não era herói, e, não tivesse eu lançado a ideia de fazermos Às Margens do Sena, o livro “talvez permanecesse um simples subproduto da minha imaginação, um objetivo não alcançado”.

Ao cabo das longas entrevistas para Às Margens, Reali ficava pálido, pedia mais um café para Amélia, mas nunca se queixava de cansaço, e jamais deixou de narrar, com a habilidade do radialista que empunhou um microfone por décadas, uma boa história. Inclusive aquelas de amor. O garoto da Vila Nova Conceição, de origem italiana e filho do delegado que pôs fim à rede nazista no Brasil, apaixonou-se por uma moça do Paraíso, a Amélia. Numa noite no Prainha, barzinho em Itanhaém, estava com amigos em uma festa ao som de vitrola quando um deles disse:

– Acho que vou namorar aquela de dentinho quebrado.

– Não, essa não. Você vai namorar outra – essa aí quem vai namorar sou eu!

Cinco décadas mais tarde, em Paris e diante de Amélia, Reali me disse: “E até hoje estamos namorando”.

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