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Transporte público

Rapidez… só no horário do rush

por Ricardo Carvalho e Tory Oliveira — publicado 16/09/2011 15h20, última modificação 16/09/2011 19h19
Repórteres de CartaCapital 'apostam corrida' até o trabalho: por ônibus e pela linha nova do metrô. Saiba quem chegou 1º ao destino

Mito detonado. Contrariando a expectativa inicial, o trajeto da estação Marechal Deodoro, da linha-3 (vermelha) do Metrô, até a redação de CartaCapital, na região da avenida Paulista, não ficou mais rápido com a ajuda das novas estações da linha-4 (amarela), a República e a Luz. O teste foi feito pelos repórteres Tory Oliveira e Ricardo Carvalho, ambos moradores de uma república na região da Barra Funda.

Com a saída marcada para as 10h10 e a chegada às 10h45, a viagem de metrô de Tory durou 35 minutos, contra os 25 minutos que Ricardo precisou para chegar de ônibus. O ponto de partida foi o cruzamento entre a rua Margarida e a avenida General Olimpío da Silveira. A diferença de tempo é pequena e é preciso lembrar que as estações República e Luz ainda estão funcionando em horário reduzido (das 10h às 15h), bem longe das carregadas horas do rush em São Paulo. Inauguradas na quinta-feira 15 com quatro anos de atraso, as estações República e Luz da linha-4 amarela do Metrô devem operar de maneira integral somente no início de outubro. A conclusão do primeiro trecho da obra no projeto inicial estava prevista para 2007, mas foi prorrogada por diversas vezes desde o acidente com a cratera na estação Pinheiros, naquele mesmo ano.

"Ih, começou..." Logo nas catracas da estação Marechal Deodoro, ainda na linha vermelha, cartazes informam sobre as novas ligações que unem a avenida Paulista e a zona oeste da cidade. Não há, porém, avisos sonoros dentro das composições. Ao longo de todo o caminho, os vagões vão livres, mas sem lugares sobrando para sentar.

O 19º novo trem em funcionamento na linha vermelha ficou pelo menos dois minutos parado Marechal Deodoro, com portas abertas e ar-condicionado desligado. A demora causou burburinho entre os passageiros. Um senhor, sentado no assento preferencial, deixou escapar "Ih, começou o problema". Felizmente, a composição logo começou a andar e Tory desembarcou às 10h28 na República.

Nesse horário, Ricardo já estava havia 10 minutos dentro de um dos ônibus da linha 875P-10, que liga o terminal Barra Funda à estação Ana Rosa do Metrô. Após as 10h, a situação dentro dos carros é quase idílica, com assentos de sobra para cerca de 30 passageiros. Da avenida Pacaembu ao Conjunto Nacional, já na Paulista, são cerca de 4,5 quilômetros, percurso que se torna um pouco maior devido ao itinerário, que passa por toda a rua Cardoso de Almeida.

Cobrador há 25 anos, o capixaba José Marcolino Ribeiro explica o pouco movimento da linha e a rapidez com que o carro chega à avenida Doutor Arnaldo: os usuários do serviço enfrentam superlotações às 6h e às 8 horas no sentido Ana Rosa e, às 19 horas, no regresso à Barra Funda. Nesses horários os carros sobem e descem com mais de 100 passageiros cada um, principalmente devido ao deslocamento dos estudantes da Pontifícia Universidade Católica, a PUC. Criado desde os dois anos no bairro de Pirituba, Ribeiro mostra alívio por sua jornada estar perto do fim... pelo menos por hoje: “Essa é minha quarta e última viagem. A primeira saiu às 5 horas da manhã”.

A ligação sobre trilhos desafogará um pouco a linha 875P-10, espera Ribeiro. E ele embasa seu prognóstico em exemplos. Na época da inauguração do traçado verde do metrô (a linha 2), que, antes de ser estendida, ligava o Paraíso à Vila Madalena, o cobrador trabalhava no ônibus Lapa-Praça Ramos, que percorria toda a avenida Heitor Penteado. “Quando começou a funcionar o metrô, a lotação diminuiu bastante”.

Mundo subterrâneo. Na baldeação entre as linhas vermelha e amarela na República, sente-se cheiro de tinta nova. Há orientações bilíngues por todo lado e tevês de plasma divulgam as mais diversas informações. Na plataforma, Tory foi recebida pelas portas de vidro que separam as pessoas dos trilhos e, em linha, cerca de 30 passageiros esperaram a chegada do trem com destino à estação Butantã. Desde a quinta-feira 15 a República já experimentou um aumento de 37 mil novos usuários. A esperança de uma viagem direta com mais conforto foi o que levou a administradora Marília Ramirez, 27 anos, a experimentar o novo caminho. Antes, a viagem da estação Artur Alvim até a Paulista levava cerca de 1h30. "Não sei ainda se vai ter vantagem, mas não custa tentar", conta ela, que trabalha na rua Haddock Lobo.

O trem da nova rota, como no restante da linha amarela, não possui divisões entre vagões e de fato esbanja um ar mais moderno. Telões de LCD fazem propaganda das novas inaugurações e a composição, mais silenciosa, vai cheia, mas sem desconforto. A viagem dura três minutos e meio. Posicionados no centro do vagão, um grupo comenta sobre a barra vertical instalada entre as portas. "É da hora segurar nisso", declara um deles, animado. O outro, mais cético, observa: "Mas imagina um negócio desses na Sé às seis da tarde. É para bater de cara e voltar".

Se o novo metrô atraiu curiosos no seu segundo dia de funcionamento, não são todos os paulistanos que sabem da inauguração. Perguntada por Ricardo, a jovem Tamires Cristina da Costa, 18 anos, exclama: “como assim tem uma nova linha do metrô?”. Seu interesse é justificável. Afinal, todos os dias ela pega um ônibus às 9 da manhã na Freguesia do Ó e desce no terminal da Barra Funda, onde troca de veículo para chegar no banco em que trabalha, na avenida Paulista. O percurso demora 1h30.

Quando chegou ao seu destino, Tory presenciou muito tumulto na interligação das estações Paulista e Consolação. O caminho é feito por meio de um grande túnel com esteiras rolantes; mesmo com poucas pessoas, o corredor fica cheio e os usuários apressados não resistem à tentação de correr, empurrando os demais. Quatro minutos depois, Tory deixa a entrada do metrô ao lado da rua Augusta com a sensação de que a viagem foi muito rápida.

Na hora ela talvez não tenha percebido, mas a espera pela chegada dos trens e as enormes distâncias que teve de percorrer para fazer a integração na República e na Consolação lhe roubaram uns bons minutos. Ao chegar no trabalho, soube que o colega de apartamento, mesmo de ônibus, chegou 10 minutos antes. Apesar de perder a aposta, feita um dia antes, a repórter lança um novo desafio: “revanche quando der para usar a linha amarela em horário de pico?”

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