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Racismo e punição a "pano, pão e pau"

por Rosana Pinheiro-Machado publicado 01/09/2014 18h47
Só exemplos e Estado reparador podem combater a violência que está entranhada na cultura do racismo
Ivan Storti / Divulgação Santos FC

Um jogador de futebol é chamado de macaco por uma multidão de torcedores.

Uma menina negra posta uma foto com seu namorado branco e é humilhada por uma multidão virtual.

Um morador de rua negro é o único condenado das manifestações de junho de 2013 por carregar Pinho Sol.

Tem algo errado no Brasil, ainda.

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A persistência do modelo escravagista brasileiro da Casa Grande e da Senzala no Brasil democrático do século XXI se dá em diversos níveis: na relação tão próxima quanto doentia entre patroas e suas empregadas domésticas, na segregação espacial e, principalmente, na lógica punitiva que insiste em manter o horror da política do “pano, pão e pau”.

O racismo institucional brasileiro – aquele que ninguém se acha racista, mas todo mundo conhece um racista - é uma continuidade histórica desse modelo de Gilberto Freyre acerca da ideologia da mistura (a qual se funda na troca de fluidos entre a dócil negra que amamenta a sinhazinha ou o sêmen do coronel que a estupra). Todavia, esse sistema, que foi tão intimamente germinado, apresenta mais separação do que fusão, mais apartheid e castas do que a fábula das três raças. O que prevalece é segregação territorial e suas regras claras de circulação. A transgressão desse lugar simbólico ou espacial – onde cada um deveria saber bem o seu lugar – sempre fora severamente punida.

A verdade é que o Brasil ainda é uma das sociedades mais racistas, segregadas e violentas do mundo. Diversas formas de linchamento físico e moral compõem o corolário de práticas cotidianas. E a maioria das feridas sobre o corpo e a consciência negra é silenciosa e invisível. Elas ocorrem longe das redes sociais, nas periferias, onde a violência histórica e estrutural do Estado brasileiro se faz presente diariamente ao negar os direitos fundamentais e ao inserir uma polícia violenta e brutal.

A semana passada foi particularmente intensa no conflito racial. Mais um jogador de futebol é chamado de macaco. Mais uma menina negra é humilhada:

- Onde comprou essa escrava?

- Seu dono?

- Parece até que estão na senzala

- Um Branco e uma Negosa

Assim como o jogador de futebol, a menina é rebaixada a um status humano menor. Mas só a menina é tratada como escrava, como objeto sexual e mercadoria. “Me vende ela” – diz um rapaz, ao reforçar a cultura machista geradora da violência sexual contra a mulher negra e pobre.

Em ambos os casos, deparamo-nos com punições informais em face do cruzamento de fronteiras. Ofensas que rebaixam as pessoas, que tentam levá-las de volta para uma suposta realidade da qual elas não deveriam jamais ter deixado.

Do lado das punições formais, Rafael Braga, negro e em situação de rua, é o único condenado pelas manifestações de rua de 2013 por carregar Pinho Sol. Aliás, pergunto-me o que teria acontecido se fosse uma mulher negra carregando Pinho Sol. Tenho certeza que o objeto seria considerado ideal e inocente, digno de seu papel social: o da limpeza. Já o homem seguirá o caminho das prisões brasileiras, onde encontrará outros milhares de corpos negros abarrotados, aguardando a tortura do Estado brasileiro, onde novamente serão tratados com ódio, a pano, pão e pau – como nos velhos tempos.

Este tem sido um ano difícil. Começamos com shoppings centers fechando suas portas para os jovens da periferia nos “rolezinhos”. Outros meninos, em contrapartida, destilaram seu ódio na internet: “eles merecem mesmo é tomar pau da polícia”. A propósito, falando em polícia, copio aqui as palavras de Milena Manfredini: “Amarildo, Claudia Ferreira da Silva [vítimas da brutalidade policial], eu não me esqueço!”.

Mas foi bom ter lembrado de Milena. Permita-me brevemente apresentá-la. Uma mulher negra, uma estudante de origem humilde. Hoje, com a bolsa de estudo que recebe, constrói sua carreira de cientista social em um das principais universidades do país. Ela é sensível, culta, cheia de esperança e com um pouco de revolta também – o que também é sempre necessário. Como ela me disse a respeito de Amarildo e Rafael: eles são um de nós.

Milena tem colegas de faculdade que também fazem esse trânsito, de maneira brilhante, inspiradora e engajada, entre a política e a academia. Esses jovens – assim como tantos outros aptos a ocuparem lugares estratégicos no futuro – são certamente o que melhor vi neste ano tão duro; neste ano em que parece que se abriram os bueiros e os ratos racistas, sexistas e classistas saíram para rua.

O racismo velado se desvela. Mas eu prefiro acreditar que esta onda de ódio – que se manifesta em atos que amarram um  adolescente negro a um poste em nome da justiça ou nas torturas das palavras virtuais e dos gritos em estádios – não significa que as coisas estejam iguais ou piores. Prefiro acreditar que se trata da reação em face do movimento sutil das placas tectônicas da sociedade de classes brasileira, que ponta para uma leve ruptura entre os limites do apartheid que existia (e que ainda tenta desesperadamente existir) entre a Casa Grande e a Senzala. Prefiro acreditar que é uma reação, por exemplo, a esses jovens que insistem em transgredir, em romper as barreiras e a ocupar as vagas das melhores universidades brasileiras.

Somente muitas Milenas – e um Estado que continue ressarcindo as atrocidades cometidas pela escravidão – podem combater a violência que está entranhada na cultura do racismo. Somente muitas Milenas podem cortar esse comportamento de manada que, atualmente, tem encorajado os covardes racistas. É preciso que muitas Milenas rompam o ciclo e ocupem o establishment. É preciso muitas Milenas para fechar os bueiros e reorganizar a democracia racial de direito e de fato.