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Alberto Villas

Quero o Mercadinho São Jorge de volta!

por Redação Carta Capital — publicado 01/12/2011 09h13, última modificação 01/12/2011 09h22
Tenho amigos que não sabem viver sem arroz parboilizado, suco em caixinha, polpas de frutas congeladas, frango resfriado, bolo pronto e queijo fatiado. E sem supermercado?
mercadinho

'O português pegaria aquela concha de alumínio e a enfiaria no saco de linhagem bem na porta da venda'. Foto: Victor Ramiro

Por Alberto Villas

 

Se esse mundo moderno em que vivemos hoje desse um passo atrás, pararíamos de vez. Tudo o que está sendo inventado a cada minuto tem o objetivo de nos fazer ganhar tempo, tornar a vida mais prática e fácil. É o que dizem.

Dá para imaginar viver nos dias de hoje sem um caixa 24 horas, por exemplo? Já pensou que cada vez que precisássemos de dinheiro vivo, teríamos de preencher um cheque e ir ao banco enfrentar filas enormes apenas para tirar uma graninha? E não é só ir lá e tirar uma graninha. Seria preciso esperar a sua vez, entregar o cheque ao caixa, aguardar ele ir lá dentro consultar o seu saldo numa ficha de cartolina e conferir sua assinatura. Só então você veria a cor do dinheiro.

Dá para imaginar o mundo sem celular, sem e-mail, sem Internet, sem iPod, sem controle remoto, sem TV a cabo, sem microondas? Tem gente que até sem GPS já não vive mais.

Tenho amigos que não sabem viver sem arroz parboilizado, suco em caixinha, polpas de frutas congeladas, frango resfriado, bolo pronto e queijo fatiado.

E sem supermercado? Como seria a vida sem supermercado?

Imagine cada vez que tivéssemos que comprar um quilo de feijão fosse necessário ir ao Mercadinho São Jorge e pedir ao português:

- Por favor, um quilo de feijão!

O português pegaria aquela concha de alumínio e a enfiaria no saco de linhagem bem na porta da venda. Iria até a balança Fillizola em cima do balcão e pesaria. Nunca dava o peso certo. Era preciso sempre colocar mais um pouquinho ou tirar um pouquinho do feijão para chegar ao peso exato.

O português fecharia cuidadosamente o saquinho de papel e você pagaria em dinheiro vivo. Esperaria o troco, agradeceria e iria embora.

Ao mesmo tempo em que o homem marcha a passos largos rumo ao futuro cada vez mais moderno, tecno, prático e rápido, dá passos atrás. Já percebeu como está ficando cada vez mais difícil, chato e demorado fazer uma compra apesar desse mundo tão avançado?

Primeiro vem a pergunta:

- O senhor tem o cartão fidelidade da loja?

Se sim, é preciso digitar o número do cartão. Pelo menos uns dez números.

Aí vem a segunda pergunta:

- Vai querer nota fiscal paulista?

- Claro!

- Então diga o número do CPF.

E lá se vão outros treze números.

- Trouxe a sacola retornável ou vai querer saco plástico?

- Trouxe a sacola.

Então você junta toda a compra na esteira do caixa e aí começa o martírio. O código de barra do primeiro pacote de manteiga não é aceito. A caixa insiste, passa uma, duas, três vezes e nada. Então ela pega a embalagem e começa a digitar os números que estão abaixo do código de barras, uns dez, doze por aí. A segunda compra, um pacote de café, a mesma coisa. A máquina não aceita o código.

Acabado esse martírio, você entrega imediatamente o cartão de crédito e lá vem mais uma pergunta:

- Crédito ou débito?

- Crédito!

- A vista ou parcelado?

- A vista!

Ela enfia o seu cartão na máquina uma, duas, três vezes e só na quarta ele é aceito. Aí você espera a notinha sair vagarosamente daquela maquininha para poder assinar.

Se quiser evitar a maquininha do cartão de crédito e pagar com dinheiro, pior ainda.

A compra dá 147 reais, você entrega três notas de 50 e vem logo a pergunta:

- Não teria sete reais?

Não tem?

A caixa levanta o braço e espera uns bons cinco minutos até que um superior venha lhe acudir, trocar aquela nota de 10 por uma de cinco, duas de dois e uma moeda de um.

Tem mais:

- O senhor está usando o estacionamento?

- Onde está o papelzinho? É preciso carimbá-lo.

Socorro! Sinto muito! Eu quero o Mercadinho São Jorge de volta!

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