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The Observer

Queremos realmente acabar com a pornografia online?

por The Observer — publicado 04/07/2013 08h17
A única maneira de contê-la é obrigando os provedores de serviço a bloqueá-la. Mas devemos ter cuidado com o que desejamos
Reprodução
Xtube

A página inicial de um site pornográfico, com um alerta de que é recomendado para maiores de 18 anos

Por John Naughton

Nosso assunto esta manhã é a pornografia online e o que fazer a respeito. O fato de que há uma grande quantidade de material erótico na internet é indiscutível, embora a quantidade exata seja imprecisa. Vamos supor que X% dos sites contenham pornografia, onde X é um número entre 5 e 15. O que isso nos diz? Resposta: um número enorme de pessoas parece se interessar por pornografia. Se não houvesse demanda, supostamente não haveria uma oferta tão abundante.

Nos primeiros tempos da web, as coisas eram muito diretas. Assim como com qualquer nova tecnologia de comunicações, os pornógrafos foram usuários precoces e entusiásticos. Em um sentido, pelo menos, não foram diferentes de seus antecessores (que exploraram a fotografia e o cinema quando essas mídias eram novas): tinham um modelo de negócios. Na década de 1990, produziram filmes e os colocaram na web. Mas não eram grátis: os adeptos tinham de pagar com cartão de crédito, o que efetivamente significava que a pornografia radical só estava disponível para adultos.

Isso mantinha o problema aparentemente dentro de limites administráveis. O fato de os pornógrafos considerarem válido produzir e disseminar sua mercadoria (o que envolve certo investimento e empenho) sugeria que havia um mercado real para ela. E como a internet efetivamente reduziu o que se poderia chamar de "barreira da vergonha" (em vez de ter de entrar furtivamente em uma loja "especializada", os adeptos podiam ver o material no conforto e na privacidade de suas casas), a internet sem dúvida expandiu o mercado da pornografia comercial. Por mais que o lobby puritano reprove o lado mais sórdido da natureza humana, pelo menos o motivo comercial a limitava aos adultos, fora do alcance das crianças.

O que perturbou essa situação foi a ascensão do conteúdo gerado por usuários, isto é, a pornografia amadora. E isso, estranhamente, predou a rede predominante. Os culpados foram empresas como Sony e Panasonic, que colocaram no mercado câmeras de vídeo baratas e fáceis de usar, e as empresas de software que criaram e comercializaram ferramentas de edição acessíveis. Esses avanços permitiram uma explosão de pornografia amadora, geralmente feita por casais que por um motivo ou outro queriam registrar suas façanhas eróticas. No início, os produtos resultantes eram oferecidos em bares, mas a chegada das conexões banda-larga e serviços de hospedagem tornou inevitável que essa pornografia grátis gerada por usuários chegasse à rede.

O que nos traz ao atual surto de pânico moral (entusiasticamente ampliado pelo tabloide britânico Daily Mail) sobre pornografia grátis na internet. Algumas estatísticas usadas para sustentar esse pânico parecem, no máximo, questionáveis, mas isso não quer dizer que não haja coisas muito sujas online – por exemplo, o chamado "pornô de estupro". Um foco da atual campanha é fechar as brechas como a que torna esses vídeos legais se forem carregados na rede de lugares fora do Reino Unido.

Isso me parece razoável. Mas, de certa maneira, identificar e barrar o conteúdo realmente horrível é a parte fácil, pelo menos em termos jurídicos. Se baixar e ver certo tipo de conteúdo é considerado ilegal, então as empresas de internet sabem onde estão e obedecerão à lei. Se um site contiver material ilícito, a Google et al encontrarão maneiras de não indicá-lo nas pesquisas.

O problema é que isso por si só não vai impedir as pessoas dispostas a assumir o risco legal implícito em acessar sites ilegítimos. O próximo passo lógico, portanto, é tornar o acesso impossível, obrigando os provedores de serviços de internet (ISP na sigla em inglês) a bloqueá-los, usando a mesma tecnologia que o governo chinês emprega para garantir que ninguém na China saiba nada sobre, por exemplo, a Falun Gong.

Não surpreende que ninguém na indústria goste dessa ideia. Além dos custos extras que isso significaria, também coloca as empresas na posição desconfortável de decidir o que seus clientes podem ler e ver. E efetivamente colocaria o Reino Unido no mesmo barco que a China, a Arábia Saudita, o Turcomenistão e outros países cujos governos decidem o que seus cidadãos podem acessar.

Não obstante, os ISPs sentem a pressão de um governo desesperado para ser visto como um que está "fazendo alguma coisa" sobre a pornografia. As quatro maiores empresas britânicas (BT, Sky, TalkTalk e Virgin Media) já aceitaram "voluntariamente" adotar um filtro em nível de rede e apresentarão aos clientes a opção de ativá-lo e quais "categorias" deve bloquear. As únicas questões importantes são se algumas dessas categorias virão pré-marcadas como bloqueadas; e quantos segundos os adolescentes levarão para alterá-las.