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Sociedade

Análise

Querem transformar o novo Carnaval de São Paulo em xixi

por Lino Bocchini — publicado 19/02/2015 16h38, última modificação 21/02/2015 11h36
Reação dos moradores da Vila Madalena contra a “invasão” do bairro, respaldada pela mídia tradicional, revela preconceito de classe, mau-humor e egoísmo
Facebook / bloco BregsNice
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A ocupação cultural as ruas da cidade de forma festiva torna São Paulo uma cidade melhor

“Nem da zona Oeste eles são”.

“Eles vêm de fora para badernar em nosso espaço”.

As manifestações nas redes sociais de empresários e outros moradores mais abastados da Vila Madalena ilustra bem o espírito daqueles interessados em transformar o mais inclusivo e interessante carnaval paulistano em décadas numa discussão simplista sobre decibéis e xixi na calçada.

Quem se informou pelos jornais de maior circulação da cidade teve a impressão de que a folia na capital resumiu-se a uma batalha entre moradores e bêbados mijões na Vila Madalena. Uma versão reducionista construída por empresas de comunicação com mais de cem anos de idade, chefiadas por pessoas com ideias de atraso igualmente secular.

Até 2012 o carnaval de rua era reprimido em São Paulo. As gestões Kassab e Serra não deram autorização para nenhum bloco novo sair. Só iam às ruas a meia dúzia de grupos autorizados há muitos anos.

Em 2013, no começo da gestão Fernando Haddad, os blocos foram liberados. E a população paulistana pegou gosto pela coisa: em 2014 dezenas de blocos novos foram às ruas e, em 2015, a festa aumentou ainda mais. Sem a experiência de um Rio de Janeiro, a prefeitura acompanhou o ritmo como pode, aumentando o número de funcionários da CET e de outros órgãos, investindo em campanhas de conscientização de foliões e multiplicando o número (ainda insuficiente) de banheiros químicos.

Persistem, claro, alguns problemas. Não estamos aqui defendendo o xixi na rua ou a depredação. Não mesmo.

A proposta é irmos além de argumentos como "queria ver se fosse na porta da sua casa". Falar isso é o mesmo que dizer "queria ver se estuprassem sua filha" para defender a pena de morte. O mundo é menos binário e bem mais complexo e interessante.

O carnaval de rua é uma questão cultural, e não um caso de polícia. No final da década de 1980, o antropólogo Hermano Vianna apontava uma direção com o lançamento de seu livro O Mundo Funk Carioca (Jorge Zahar, 1988). Vianna defende, desde aquele tempo, a discussão dos bailes funk na Secretaria de Cultura, e não na de Segurança Pública. E agora, em 2015, três décadas depois, a mídia convencional ainda vai ouvir o secretário estadual de segurança pública na hora de noticiar o carnaval de rua.

A população, por sua vez, aplaude a ação da Polícia Militar, que na madrugada da última terça-feira dispersou os últimos foliões do bairro com cassetetes e bombas de efeito moral. O subprefeito de Pinheiros, Ângelo Filardo Júnior, ao que parece, também aposta na repressão. Foi às rádios e jornais falar em “desmontar essa bomba” e defendeu o aumento do número de agentes de segurança, inclusive com a revista de foliões na entrada do bairro – além do isolamento da região por forças policiais.

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O bloco BregsNice desfilou pelas ruas da Vila Madalena na terça-feira de Carnaval

O secretário municipal de Cultura, o urbanista Nabil Bonduki, sustentou uma posição mais conciliadora em entrevista à CartaCapital, defendendo o debate sobre o Carnaval de rua no âmbito da cultura, e não da segurança pública. Reafirmou também a intenção da Prefeitura de usar o Rio (e não Salvador) como referência, evitando a mercantilização da festa. “Tivemos um crescimento de 50% dos blocos e garantimos o objetivo original: um Carnaval gratuito, espontâneo, com sabedoria cultural e envolvimento cada vez maior da população”.

Em 2015, segundo a Prefeitura, cerca de 300 blocos saíram às ruas. A área da subprefeitura da Sé recebeu o maior número, 86. Na região da subprefeitura de Pinheiros, que compreende a Vila Madalena, foram 67. Não há, contudo, registro de maiores reclamações de moradores nem reportagens na mídia tradicional criticando o barulho ou o xixi na região central da cidade. Interessante lembrar ainda que cerca de 400 bailes funk acontecem toda semana na periferia paulistana. Bem longe dos olhos do poder público e da imprensa, e sem queixa alguma da população "bem nascida".

Em uma cidade cinza, mal-humorada, agressiva e individualista como São Paulo, o benefício da ocupação espontânea do espaço público e da alegria trazidos pelo Carnaval são infinitamente maiores do que problemas pontuais.

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Não se pode ignorar os benefícios do Carnaval para a cidade por conta de problemas pontuais