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Quando o humor vira arma contra ditaduras

por Deustche Welle — publicado 05/06/2013 09h35, última modificação 05/06/2013 10h52
Fazer piada em regimes autoritários impõe riscos, mas pode ser eficiente para levar a população à reflexão
Reprodução
Charge de Ali Ferzat

Charge do cartunista Ali Ferzat sobre as eleições na Síria, no começo de 2012

Quando, em 2008, Maung Thura foi condenado a quase seis décadas de prisão, não se intimidou perante o regime militar de Mianmar, então um dos mais fechados do mundo. Algemado e a caminho da penitenciária, entreteve seus fãs com o mesmo discurso que usara durante anos para criticar a ditadura. Zarganar, como é conhecido, perdia a liberdade, mas não a piada – sua principal arma e, ao mesmo tempo, escudo.

"Os americanos dizem que um deles escalou o Everest com uma perna só. Os britânicos dizem que, com apenas um braço, um deles atravessou o Atlântico nadando. Um birmanês diria: 'Isso não é nada! Aqui um governante comandou o país por 18 anos sem cérebro”, brincou o comediante mais famoso de Mianmar.

Encontrados aos montes nas democracias, comediantes como Zarganar são figuras raras nos regimes autoritários. Hoje, ele está livre – foi anistiado dentro do processo de abertura política de Mianmar. Mas durante anos sofreu com perseguições, condenações e até tortura, como alega.

A ousadia fez de Zarganar mundialmente conhecido. O comediante alemão Michael Mittermeier é um dos seus amigos e apoiadores. Quando soube da prisão de Zarganar, viajou imediatamente para Mianmar e participou de um documentário, dirigido pelo diretor britânico Rex Bloomstein, sobre o comediante.

“Ele me perguntou se eu apoiaria um colega que foi preso por causa de suas piadas. Aceitei sem hesitar”, conta o alemão.

O comediante e o diretor viajaram para a prisão onde estava Zarganar. Logo em seguida, porém, as câmeras foram descobertas e eles tiveram que deixar o país. Mittermeier já tinha quase perdido as esperanças, quando Zarganar foi solto.

“Foi um milagre ele ter sido libertado tão rápido”, relembra o alemão.

Após a libertação, Zarganar se apresentou em palcos de Londres, Berlim e Dublin, onde pôde brincar com os absurdos e as contradições do regime birmanês. Hoje, Mianmar passa pelo início de um processo democrático. Atualmente, por iniciativa de Zarganar, um instituto de arte, cultura e mídia está sendo construído para incentivar o trabalho de outros comediantes.

"Os comediantes não podem fazer grandes mudanças na sociedade, porém, podemos denunciar os abusos e incitar discussões. E isso já vale alguma coisa”, diz Mittermeier.

O sociólogo Anton Zijderveld, que se tornou conhecido por sua “sociologia do humor”, estudou o papel que a comédia desempenha na sociedade.

“O humorista brinca com os valores sociais. É gerada uma tensão, e assim, se transforma em piada”, opina.

Na Síria, o exílio como saída
Brincar com os valores rígidos de um sistema é como brincar com fogo. Segundo Zijderveld, o humor político não pode mudar uma sociedade, mas o efeito psicológico da piada é importante. "Por isso, o humor é tão severamente punido em um regime [ditatorial]. Para evitar o fortalecimento da oposição”, comenta o sociólogo.

No Egito, é o humorista Bassem Youssef que alerta a população contando piadas sobre o governo. O comediante chegou a parodiar a ditadura de Hosni Mubarak, que governou o Egito até 2011, em um programa online. Atualmente, em seu programa de televisão, ele faz poucas piadas relacionadas ao governo de Mohamed Morsi. Mas até hoje, Youssef é regularmente interrogado e acusado por piadas que seriam insultos ao islamismo.

O humor contra o governo sírio também tem um representante: o cartunista Ali Ferzat. Ele foi perseguido e torturado em 2011 por defensores do regime. Chegou a ter os dedos quebrados por ter supostamente ofendido o presidente Bashar al-Assad. Ferzat não se abateu, mas teve que deixar o país: suas mãos melhoraram, e ele – agora exilado no Kuwait – desenha mais do que nunca.

Poucas pessoas no mundo têm talento e coragem para fazer as pessoas rirem de situações terríveis e nada engraçadas. O ator e comediante Fatih Cevikkollu, famoso pelos shows de cabaré nos palcos alemães, diz ter muito respeito pelos colegas no exterior que utilizam o humor contra o regime de forma tão corajosa.

“O riso a melhor forma de mostrar os dentes”, diz Cevikkollu. “E são poucos os que conseguem resistir ao riso. Isso acontece porque não se permitem pensar e manter os valores humanos acima da doutrina do regime.”

Cevikkollu critica fortemente o governo alemão em suas apresentações, mas isso não traz consequências negativas. O ator diz que em outros países é muito mais difícil: "Na Turquia, por exemplo, fazer comentários políticos sobre o sistema é perigoso e a pessoa pode ser ameaçada, presa, ou ambos”.

Até mesmo o humor negro mais pesado em algum momento chega ao fim. “Quando é realmente forte, quando as pessoas sofrem, então o humor também decai. Em regimes totalitários, como o da Coreia do Norte, o humor político é completamente suprimido, e então praticamente não existe isso por lá”, diz Zijderveld.

Na China, entretanto, há na internet um movimento anônimo de cartunistas, que não colocam nem mesmo o nome artístico no desenho. Já o conhecido cartunista “Fengxie” (algo como "camarão doido"), consegue com frequência driblar a censura online: o governo de Pequim ainda não tem um programa de computador que consiga rastrear as sátiras em forma de desenho.