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Alberto Villas

Quando eu crescer

por Redação Carta Capital — publicado 09/02/2012 10h59, última modificação 06/06/2015 18h57
Fico assustado quando sai a lista do vestibular: tem gente que vai fazer Ciência da Natureza, Ciência dos Alimentos e até curso de Atuária

Por Alberto Villas

 

Tinha eu 14 anos de idade/Quando meu pai me chamou
Perguntou se eu não queria/Estudar Filosofia/
Medicina ou Engenharia/Tinha eu que ser doutor

(“14 Anos”, Paulinho da Viola)

 

 

A pergunta era comum: “O que você vai ser quando crescer?” Toda criança tinha uma idéia na cabeça.

- Vou ser médico para curar as pessoas.

- Vou ser engenheiro para construir pontes.

- Vou ser advogado para defender os pobres.

Era importante ser doutor. Mas, pensando bem, ninguém queria ser dentista. Todo mundo queria é distância daquela broca maldita. As opções pareciam que não eram muitas. Geralmente filho de engenheiro virava engenheiro, filho de médico virava médico, filho de advogado, advogado.

É claro que muitas crianças sonhavam, viajam longe. Eu tinha um amigo de infância que morava em Brasília que queria ser astronauta. Outro pensava em ser cientista maluco. Ele era louco pelo casal Curie, Pierre e Marie. Muitos queriam ser inventores, eu me lembro bem. Passar o dia inventando coisas.

Para minha mãe, havia duas opções: O filho estudava ou virava carroceiro. Até hoje quando vejo um homem puxando uma carroça na rua eu me lembro dela. Acho que acabei mergulhando nos estudos para não puxar carroças nas ruas, não queria. Para o meu pai, quem não gostava de estudar ia ser jogador de futebol. Hoje parece que é o contrário. Quem não tem talento para o futebol, tem de estudar.

Nessa época do ano fico assustado quando sai a lista dos aprovados no vestibular. Não somente pela quantidade de Larissas, Lauras, Lucas, Tiagos, Brunos e Marianas, mas pelos cursos que eles vão fazer. Tem gente que vai fazer Ciência da Natureza, outros Ciência dos Alimentos. Tem gente que vai fazer o curso de Atuária, a ciência que avalia riscos. Fico pensando naqueles que passaram para Tecnologia Têxtil e de Indumentária ou Engenharia Elétrica com Ênfase em Sistemas Eletrônicos.  Confesso que já pensei até em ser padre um dia, mas nunca pensei em ser engenheiro elétrico com ênfase em sistemas eletrônicos.

Já percebeu que hoje em dia as pessoas não dizem mais “eu sou”. Eu sou médico, eu sou engenheiro, eu sou biólogo. As pessoas costumam dizer “eu mexo com”. Eu mexo com importação, eu mexo com divulgação, eu mexo com editoração.

Aqueles que eram meio artistas viravam arquitetos. Pensando bem, tinha também Letras, Matemática, História e Geografia, mas quase ninguém queria fazer. Ah, sim, Biblioteconomia! Era um curso conhecido como “espera marido”, apesar de eu ter uma ex-cunhada que fez o curso até o fim, virou biblioteconomista, sempre trabalhou com isso e é apaixonada pelo que faz.

Antes de virar jornalista, acredite, pensei até em ser Engenheiro Agrônomo. Queria passar o dia num laboratório do Ministério da Agricultura olhando no microscópio as cochonilhas nas folhas das plantas ornamentais. Aos 16 anos era assinante das revistas O Dirigente Rural e da Coopercotia. Acredite se quiser. Acredite quem quiser também que já pensei em ser piloto de Fórmula 1. Logo eu que no alto dos meus 61 anos nunca dirigi um automóvel, sequer tenho carta.

Tudo isso para contar como virei jornalista. Estava fazendo cursinho para Medicina quando venci um concurso de contos no Estado do Paraná. Estava passando as férias de julho numa fazenda no interior de Minas Gerais quando saiu o resultado. Época em que não havia celular na cidade, muito menos um telefone fixo naquela fazenda no fim do mundo. Quando cheguei a Belo Horizonte comprei o jornal O Estado de Minas na rodoviária e lá estava uma entrevista com o meu irmão dizendo o seguinte: “Ele ia fazer vestibular para Medicina, mas agora acho que agora vai fazer Jornalismo”. Pois é, fiquei sabendo que ia ser jornalista um dia ao ler no jornal. A vida tem dessas coisas.

 

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