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Sociedade

Chinesa - Ed. 605

Praia de chinês

por Maurício Horta e Willian Vieira — publicado 19/07/2010 11h43, última modificação 19/07/2010 13h26
Os cibercafés viram mania entre os jovens. E o governo distribui manuais para controlar o “vício”. Por Mauricio Horta e Willian Vieira
Chineses no ciber

A estudante Queeny, 23, frequenta o ciber ''cinco vezes por semana'', mas não mais que ''cinco horas por visita''. Foto: Maurício Horta

Os cibercafés viram mania entre os jovens. E o governo distribui manuais para controlar o “vício”

Do lado de fora, dois caracteres chineses brilham em neon vermelho: wang ba. Dentro, a névoa é alimentada por cigarros baratos e colorida pelo azul doentio das telas de computador – 300 somente nesse cibercafé ao lado de uma universidade em Pequim, onde os jovens ignoram o escoar das horas. São 2 da manhã de terça-feira. Alguns jogam videogames. Para os rapazes, games de lutas medievais ou fazendas virtuais. Para as meninas, jogos de dança cor-de-rosa, de fadas – ou as mesmas fazendolas virtuais. Casais assistem a filmes românticos, cabeça no ombro do outro e amigos rindo entre goles de chá, sem olhar para a tela. Todos se sentem em casa, cena que se repete nos cerca de 50 mil cibercafés (só os legalizados, número oficial) em toda a China. É entre as paredes de um cibercafé, cada vez mais, que os chineses se socializam.

Com a maior população absoluta de internautas do mundo – são 404 milhões com acesso à internet, segundo o governo, ou 29% da população –, a China vive um paradoxo. Os chineses se conectam cada vez mais e alimentam um mercado negro de cibercafés sem licença que absorvem uma demanda irrestrita de gente sedenta por socialização on-line, muitos viciados em internet. O governo reluta: quer evitar conteúdos “reacionários” entre os jovens, que perfazem metade dos usuários. Mas, por mais que o governo reforce a “muralha” contra o acesso, censurando sites como o YouTube e o Twitter e filtrando mensagens (são cerca de 30 mil censores tentando evitar qualquer tensão social), os chineses dependem mais e mais da rede.

Dados oficiais mostram 10% dos jovens como viciados, o que levou Pequim a anunciar o propósito de fechar cafés que aceitarem menores de 18 anos. Uma guerra declarada desde 2008, quando o governo tentara fechar cerca de 150 mil cibercafés sem licença, após dois jovens cuja entrada fora negada terem incendiado um deles: 25 pessoas morreram. Uma campanha nacional lançada há três anos para contornar o vício prometeu até um manual com os sintomas da “doença” – por exemplo, passar mais de seis horas diá-rias na frente da tela –, e deu subsídios para “campos” de reabilitação para ciberviciados, que colecionam histórias como a da jovem que apanhou até acabar na UTI. Visto como desculpa do governo para aumentar a censura, o aparente exagero tem sua defesa nos casos que surgem na imprensa. Em um dia, a jovem que forjou seu sequestro para usar o dinheiro do resgate nos cibercafes. No outro, o rapaz que passou três dias jogando e morreu.

Muito além do preocupante caráter de saúde pública, o que chama a atenção de especialistas (e de quem pise em qualquer cibercafé por aqui) é que a internet tenha um papel tão fundamental para a socialização dos jovens chineses. Segundo o psiquiatra Jerald Block, autor de um artigo sobre o assunto no Jornal de Psiquiatria, a diferença é que aqui o uso da internet se dissemina longe de casa. Num país onde 37% dos usuários dependem dos cibercafés para acessar a rede, os jovens se encontram da mesma forma que fariam no bar – mas para passar a noite de sábado jogando ou vendo filmes em grupo e conversando com as centenas de amigos virtuais, muitas vezes ao lado dos mesmos.

Queeny (um em cada três jovens chineses tem nome em inglês), de 23 anos, vem ao cibercafé “umas cinco vezes por semana”, mas “nunca por mais de cinco horas de cada vez”, dividindo a atenção entre a janela de bate-papo, o jogo de corridas de tartarugas e os comentários dos amigos – são três os estudantes de moda a passar juntos a noite dessa terça, fazendo exatamente a mesma coisa, em telas diferentes, um ao lado do outro. “É barato, é perto de casa e aqui podemos fazer tudo o que queremos sem ninguém reclamar do barulho.” Todos eles têm internet em casa, mas o cibercafé oferece o convívio que a solidão do quarto não supre.

É no cibercafé que muitos passam o horário de almoço, que estudantes ocupam a noite longe do caos dos dormitórios coletivos e que viajantes dormem em vez de pagar um hotel. Mas a grande razão para tanta gente passar tanto tempo em um cibercafé é uma só. Se na Índia é comum ver os usuários imprimindo currículos e pesquisando sites de jornais, se na Europa e nos EUA os blogs dominam os acessos e se no Brasil a pornografia não escapa aos olhares curiosos, na China a internet é uma válvula de escape. É a saída para descarregar a raiva contida nos jogos virtuais, para conhecer novos amigos, centenas deles, tão distantes na vida real, e para gastar o tempo de ócio num país cada vez mais rico, onde jogos de azar são proibidos, bares são incomuns e a censura domina os ambientes públicos. Longe do temido acesso a panfletos antigoverno, os chineses estão em busca de entretenimento.

“Bem-vindo ao internet bar”, anuncia a faixa na entrada de outro cibercafé a 10 quilômetros dali, no terceiro andar de um prédio comercial, acima de uma churrascaria pretensamente brasileira. A estrutura está dada: banheiro (malcheirosas privadas de agachar), ar-condicionado, um refrigerador cheio de chás (nada de cerveja), uma prateleira com salsichas emplastificadas e miojo de copinho (3 yuans, menos de 1 real) e um micro-ondas garantem a diversão noite adentro – além, claro, de 200 computadores com gigantescas memórias RAM e placas de vídeo para rodar jogos e filmes em alta resolução. “Aqui é onde as pessoas se sentem em casa”, diz a gerente do lugar, ressabiada, sem dar o nome, enquanto checa no sistema: em 24 horas, 221 pessoas usaram os 198 computadores. Parece pouco, mas mais da metade ficou ali por mais de três horas, muitas por até dez horas. O campeão ficou conectado por 20 horas.

As vendedoras Yi Fa, de 25 anos, e Suan Lin, de 23, saem do emprego às 10 da noite, andam uns 500 metros e chegam ao cibercafé, para onde vão, dia sim, dia não, ver filmes. Elas não têm dinheiro para ir ao cinema. Mas aqui se sentam em cadeiras estofadas, ligam o computador e escolhem “o ícone com um bonequinho” – alguns cliques e uma página se abre com centenas de opções de filmes, muitos lançados há poucos meses no cinema. Mais um clique e o filme está expandido na tela de 19 polegadas, em alta resolução, com som e legendas em chinês. Pirataria de primeira, simples e fácil de usar. Tudo pelo preço da internet: o equivalente a 75 centavos de real a hora.

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