Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Pornografia online: os fatos e a fantasia

Sociedade

The Observer

Pornografia online: os fatos e a fantasia

por The Observer — publicado 28/05/2013 10h01, última modificação 28/05/2013 10h17
The Observer: a exposição à violência sexual explícita não significa que os adolescentes tenderão a imitá-la pessoalmente (na foto, a atriz pornô Sasha Grey)
Divulgação
Sasha Grey

A atriz pornô Sasha Grey, cujo novo clipe provocou polêmica

Por Bertie Brandes

Assistir à Vida de Truman aos 8 anos me transformou em uma paranoica, arrogante, maníaca-obsessiva? É claro que sim. Durante cerca de uma semana, até que Vida de Inseto foi lançado e eu decidi que queria ser uma formiga em vez de uma estrela da TV-realidade.

Lembrei-me de minhas variações juvenis na semana passada, quando foi publicado um relatório sobre o efeito da pornografia sobre a compreensão do sexo pelos adolescentes. Hoje eles consideram normal a prática da pornografia de natureza impiedosa, submissa e agressiva? Se for assim, é muito preocupante, e o estudo divulgado pelo Comissário das Crianças para a Inglaterra sugere que talvez seja o caso.

Segundo a pesquisa, o acesso à pornografia está influenciando diretamente como os jovens se tratam sexualmente, e a exposição a ela pode estar ligada ao aumento da violência sexual. É fantasticamente difícil quantificar o quanto as pessoas anônimas e maquiadas que gemem e gritam na internet podem modificar o desenvolvimento do comportamento sexual, por isso dependemos de estudos como esse. E mesmo a mais ligeira sondagem do efeito da pornografia nos jovens provavelmente o deixará atônito com informações que geralmente significam "horror, horror".

Se estivermos procurando pornografia para nos preocupar, certamente há muita por aí. O infame videoclipe da artista musical e atriz pornô Sasha Grey, no qual ela finge estar inconsciente durante 20 minutos enquanto é "interferida", é apenas um exemplo deplorável. Esses vídeos definitivamente não são as revistas "sujas" da geração de nossos pais; são agressivos, irrestritos e grátis para qualquer pessoa que saiba usar a internet (isto é, todo mundo de 7 anos para cima).

Eu acho a ideia da pornografia um pouco perturbadora. O fato de que um número enorme de pessoas assistem a muitos vídeos explícitos antes de ter qualquer experiência sexual pessoal introduz uma espécie de voyeurismo sexual, que certamente pode encorajar uma dissociação entre sexo e relacionamentos. Mas daí é um salto afirmar que os adolescentes não sejam capazes de ver a diferença entre pornografia e realidade.

Na verdade, fico bastante entediada pelas pessoas que se referem à pornografia como uma "fantasia" que deixa os homens insatisfeitos com a realidade do sexo. Mostrem-me esses homens horríveis e encontrarei outras cem coisas com que eles estão insatisfeitos. Como adolescente -- e aos 23 anos a adolescência não parece tão distante --, o sexo na vida real não é algo que você pare no meio para analisar. Certamente, é um verdadeiro campo minado de potencial decepção e rejeição, e qualquer outra coisa sobre a qual você poderia escrever páginas e páginas no final de seu caderno de exercícios, mas eu ficaria surpresa se, para a maioria das pessoas, não for praticamente a atividade mais imersiva possível. O fato de que algumas garotas se sentem pressionadas a recriar o comportamento pornográfico é uma triste verdade, que exige atenção urgente. Mas você seria um tolo se acreditasse que as inseguranças sexuais foram inventadas com a internet.

Em uma era em que as pessoas assistem a mais de 20 horas de TV por semana (em telas convencionais ou outras), se começarmos a supor que tudo o que vemos afeta drasticamente nosso desenvolvimento, então com certeza a pornografia na internet é apenas o início. Devemos temer que nossas personalidades sejam atacadas toda vez que assistirmos a um programa de televisão? Os adolescentes de hoje são simplesmente uma série de fragmentos de vídeos do YouTube e filmes de Judd Apatow? Não creio.

Precisamos ter cuidado para não subestimar a inteligência dos jovens britânicos. De um lado, está dar apoio e educação para pessoas vulneráveis que precisam entender que a pornografia não reflete a realidade do sexo; de outro, supor que qualquer pessoa que esteve na YouPorn antes dos 18 anos terá cicatrizes psicológicas para o resto da vida.

Detesto ter de lembrá-los de que esta é -- alerta de clichê -- a era digital: sim, somos bombardeados com conteúdo por todos os ângulos, mas isso não precisa ser tão assustador quanto poderíamos acreditar. Sim, a pornografia pode ser perturbadoramente explícita, mas os adolescentes não saltaram em uma arena e começaram a tentar se matar depois de ver Jogos Vorazes no ano passado. Muitos jovens assistiram àquele filme e muitos puderam traçar a linha entre fantasia e realidade.

Afinal, tudo se resume, como costuma acontecer com essas coisas, a encontrar um equilíbrio. Podemos avaliar que os filmes de terror não incitam a um sadismo generalizado, então por que não devemos tratar a pornografia e a violência sexual da mesma maneira? É claro que é absolutamente importante que os jovens sejam ensinados sobre pornografia; a educação sexual será ineficiente para milhares de crianças se não admitirmos isso. Mas, antes de começarmos desesperadamente a tentar encolher o território infinito da internet, façamos uma pausa.

Sim, a maioria dos adolescentes quase certamente verá pornografia; eles também poderão fazer sexo abaixo da idade legal, tomar drogas idiotas e beber até desmaiar. Então, a certa altura, vão se apaixonar e perceber que o mundo é um lugar sombrio e cruel, onde o frenesi absurdo da pornografia não tem absolutamente qualquer relevância. E então eles são nós. E de repente tudo é muito menos assustador.