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Por uma sociedade sem privilégios

por Juçara Braga — publicado 05/07/2011 16h57, última modificação 05/07/2011 19h16
No Rio de Janeiro realidades distintas passam diante de nossos olhos todos os dias em uma sociedade cruelmente desigual. Por Juçara Braga
Por uma sociedade sem privilégios

No Rio de Janeiro, uma história de como o descaso por um mandado judicial que não foi cumprido ajudou a acabar com uma vida

Da janela, descortino a Baía de Guanabara, a marina da Glória, uma ponta do Iate Clube, na Urca, e pedaços de favelas assentadas nas encostas do Catete e de Santa Teresa. Vejo, no Rio de Janeiro, realidades distintas cujos matizes diferenciados passam diante de nossos olhos cotidianamente e, não raro, jogam-se em nosso colo de maneira brutal, mostrando, sem cordialidade, como pode ser cruel essa sociedade de privilégios na qual vivemos.

Há pouco mais de uma semana, uma tragédia desnudou as relações estranhas entre o governador do Rio, Sérgio Cabral, e empresários que têm negócios com o governo estadual. Não fosse a queda do avião que matou a namorada de seu filho na Bahia, ninguém saberia como o governador costuma passar seus fins de semana. Em resorts de luxo, cercado de mordomias na companhia de pessoas das quais deveria manter a distância exigida por parâmetros mínimos da ética concernente ao cargo que ocupa.

Enquanto Cabral se preparava para seu fim de semana nababesco, do outro lado da cidade, uma mulher aguardava, no leito de um hospital público, que o governador e o prefeito Eduardo Paes cumprissem a ordem judicial que determinava, às Secretarias Estadual e Municipal de Saúde, o fornecimento de um medicamento indispensável e de elevado custo.

Raimunda Maria José Gomes da Silva aguardava um transplante de fígado no Hospital Clementino Fraga, no Fundão. A espera poderia ser em casa onde ela teria o conforto do convívio familiar. Para isso, entretanto, era preciso um concentrador de oxigênio domiciliar – equipamento caro, cujo aluguel a família de Raimunda não tem recursos para bancar.

Em 16 de maio, a juíza Simone Lopes da Costa, da 10ª Vara de Fazenda Pública do Tribunal de Justiça do Rio, deferiu o pedido de antecipação de tutela feito pela família de Raimunda, via Defensoria Pública, determinando que “os réus, por suas secretarias de Saúde, tomem as providências necessárias ao fornecimento imediato do(s) insumo(s) relacionados na (ação) inicial sob as penas da lei”. A juíza estabeleceu o prazo de sete dias para que sua ordem fosse cumprida.

Nem Cabral, nem Eduardo Paes, nem seus respectivos secretários de Saúde, Sérgio Côrtes e Hans Dohmann, deram bola para a ordem judicial. Certamente, estavam ocupados com tratativas mais importantes.

Impotente diante do descumprimento da ordem judicial, a família de Raimunda decidiu alugar o equipamento mesmo sem saber como o manteria ao longo do tempo. Assim, depois de três meses internada, ela foi para casa há uma semana, mas, por pouco tempo.

Na madrugada de domingo, 26/06, chegou a boa notícia. O hospital havia encontrado um doador compatível. A volta ao Clementino Fraga foi cheia de esperança. No mesmo dia, foi realizado o transplante. A cirurgia foi bem sucedida, mas, infelizmente, Raimunda não resistiu ao pós-operatório. Faleceu na madrugada desta terça-feira, 28/06.

A família de Raimunda, neste momento, chora sua perda. E nós, que ainda não aprendemos a nos erguer contra o descaso das autoridades – ditas competentes – com a vida presente, deveríamos levantar e defender essa vida que, embora nos tenha sido dada como presente, para ser vivida com dignidade, exige que lutemos sem descanso pelo controle social dos serviços públicos.

É preciso ter claro que o dinheiro que não saiu dos cofres do estado e do município do Rio para dar uma qualidade de vida melhor a Raimunda é nosso. Pertence a nós. E não pode ser usado exclusivamente ao sabor das vontades ou da falta de vontade dos gestores de plantão.

*Juçara Braga é jornalista

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