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Personagens do futebol

por Socrates — publicado 10/04/2011 10h29, última modificação 09/04/2011 14h29
As discussões entre certas figuras públicas não contribuem para a imagem dos envolvidos, além de prejudicar quem se espelha nos atletas e os segue

As discussões entre certas figuras públicas não contribuem para a imagem dos envolvidos, além de prejudicar quem se espelha nos atletas e os segue

Parecia discussão de criança. “Você é feio!” E a resposta: “E ninguém gosta de você!” Um debate lamentável e sem lógica entre um jornalista e um atleta foi o que acompanhamos na última semana. Sem entrar no mérito de quem ofendeu ou foi ofendido, já que isso é o que menos importa (ainda que saibamos quem é quem), eles deveriam ter se dado conta de que esse tipo de postura em nada contribui para nenhum dos dois – muito menos para quem consome essa modalidade de conflito – principalmente para o jogador, que é referência para tanta gente que nele se espelha e o segue. Do outro lado há alguém que jamais se preocupou com essa qualidade e que até por isso deveria ser tratado como foi. Não cair em provocações baratas faz parte da formação de figuras públicas, ainda que saibamos que muitas vezes alguns fatos extravasam o limite de tal forma que se torna difícil tratá-los com o desprezo que merecem.

Sei que quem pode e deve avaliar essas discussões é o público consumidor de futebol, seja dos jogos ou das transmissões esportivas, porém, é papel dos protagonistas respeitá-lo ao extremo, já que dele depende quase tudo que pretendem conseguir. Seja lá o que for. Quem se mete a fazer um trabalho nesse meio deveria, antes de tudo, entender qual deve ser o seu papel e não se limitar a usufruir de suas benesses. Infelizmente, nem sempre o grau de consciência chega próximo disso. Os objetivos muitas vezes atropelam qualquer racionalidade. Temos muita gente que se esquece disso e agredir outrem se torna especialidade com uma falta de educação de assustar. Aos protagonistas de campo cabe desprezar essas “coisas” que ainda existem.

Torcedor e sofredor
“Foi numa esquina da vida que pude te conhecer, reconheci no teu rosto, desgosto, marcas de um grande sofrer.” Esta é a impressão que temos da face de boa parte dos torcedores brasileiros. Mesmo depois de inesperadas vitórias até em Copa do Mundo, pouca coisa mudou por estas bandas. Talvez até por isso nada tenha se modificado. Continua nosso amante do futebol a ser espoliado da forma mais vil. Jogos em profusão, modificações de última hora, equipes de poucos recursos, jogadores despreparados, estádios imundos, falta de transporte de boa qualidade, horários estapafúrdios etc. E, agora, essa disputa pelos direitos de transmissão televisiva. A única boa novidade é a mobilização, ainda incipiente, de algumas torcidas organizadas para, por meio de um processo de politização, passar a lutar por seus direitos, não só de torcedores como de cidadãos. Virão os mais conservadores e os reacionários a dizer que esse não é o papel de um torcedor de futebol, como se este não fosse parte e agente da sociedade em que vive. Na verdade, esses indivíduos têm um verdadeiro pavor de que isso um dia aconteça. É que neste país nada mobiliza e agrega mais que o futebol. É por meio dele que teremos os exemplos que determinarão os caminhos que devemos seguir para transformar nossa sociedade em algo mais justo e de que possamos nos orgulhar.

O coletivista
Com a bola dominada, ele invadiu a área adversária. Tinha à frente apenas mais um defensor. Com o destemor dos que têm sabedoria, em nada diminuiu sua marcha. A poucos segundos do encontro definitivo, ele tocou levemente a bola para o seu lado esquerdo, desviando-se implacavelmente do obstáculo humano que se lhe apresentara. Agora tinha o paraíso ao seu dispor. Desesperadamente, o goleiro abandonou sua zona de proteção para tentar imobilizar o agressor e impedir a sua mais fragorosa derrota. Não contava com o altruís-mo do inimigo. Este, com um simples gesto, oferece a dois companheiros a chance de definir a jogada. Com facilidade. Seria o desfecho plausível para a plasticidade de todas as ações realizadas. Mas ficou no ar a bela impressão. Esta sequência foi executada por um jogador que se destaca em todas as qualidades descritas: simplicidade, generosidade, discrição e eficiência. Poucos atletas, no entanto, possuem essa característica, que é, em síntese, a expressão plena do que é a prática do futebol. Em qualquer time com grandes estrelas individuais ele chamaria a atenção pela forma como cose o novelo coletivo. É a chama de solidariedade tão necessária nos esportes coletivos. É a referência suprema das ações de todos os vizinhos. É por isso que ele é tão fundamental. Talvez poucos se deem conta de sua importância, mas quem observa o jogo com os olhos dos atentos não pode evitar de se impressionar com os resultados provocados pelos seus pés.

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