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Penetras na festa do Bolinha

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 14/08/2009 15h41, última modificação 21/09/2010 15h43
Virar adolescente e adulto é destino de todas as crianças. Mas precisariam os personagens dos gibis de nossa infância crescer conosco? Este é um exemplo de quando o mercado, em vez de acalentar, destrói sonhos em busca de consumidores para produtos reciclados. Vide a paixão de adolescentes pelos Beatles, os filhos, muitas vezes, adoram as antigos heróis dos quadrinhos dos pais.

Virar adolescente e adulto é destino de todas as crianças. Mas precisariam os personagens dos gibis de nossa infância crescer conosco? Este é um exemplo de quando o mercado, em vez de acalentar, destrói sonhos em busca de consumidores para produtos reciclados. Vide a paixão de adolescentes pelos Beatles, os filhos, muitas vezes, adoram as antigos heróis dos quadrinhos dos pais.

Luluzinha (um grande sucesso no Brasil entre os anos 1950 e 1980) e parte de sua turma ganharam uma versão adolescente, cujo projeto é sair em gotas, por temporada. Luluzinha Teen é feita por brasileiros só para o Brasil. Um dos grandes desafios da empreitada é a forma, e o maior deles é reproduzir no conteúdo um dos melhores timings cômicos em quadrinhos do século passado, assim como Peanuts e Calvin & Harold.

Na nova versão, cuja primeira revistinha foi lançada em maio (será que vai haver a segunda?), há três golpes na memória dos fãs de Lulu Palhares e Bolinha França, o gordinho que incorporava o detetive ‘Aranha’. O primeiro é fazer essas adoráveis criaturas crescerem com os hormônios gráficos de um “estudo” que pretendeu preservar os traços das crianças.

Resultou numa turma moderninha demais, que parece saída de uma fashion week da vida, de olhos arregalados e orientais, típicos dos mangás. Mangá já deu. Klunk! Phoo! Slam! Psssssst! Buáá! Imagine, leitor, caso Ziraldo resolvesse relançar a revista Pererê, com o Saci, Tininim (o indiozinho), Tuiuiú (namorada do Tininim) e Boneca-de-Pixe já grandinhos? Seria um deus nos acuda!

A segunda porretada é a ideia de abrasileirar as histórias e costumes de Lulu e Bola, que viveram numa cidade qualquer do interior dos Estados Unidos, há mais de 50 anos.

Os personagens daqui têm praia e areia, roteiros previsíveis e politicamente corretos em demasia, enquanto os de antigamente brincavam em calçadas sem buracos, viviam em casas sem muros, com jardim e quintal gramados e em suas aventuras, tipicamente infantis, o “bom-caratismo” também vencia sempre.

E, o melhor para a fantasia dos leitores, tinham uma floresta com laguinho, bote e um clube cujo lema era Menina Não Entra, para inspirar boas histórias que iam puxando outras.

É o caso da exemplar pobre menininha que catava amoras na floresta e era perseguida pelas bruxas quase boas, Memeia e Alceia. Tudo desprezado na nova versão. (Clube do Bolinha, que significava Menina Não Entra, virou uma espécie de bordão da garotada adolescente, levando Erasmo e Roberto Carlos a escrever,e o Trio Ternura bombou gravando a música,  um clássico daquela época, chamado, é claro, A Festa do Bolinha).

A terceira marretada nos nostálgicos de Lulu e Bola é terem ignorado coadjuvantes importantes. O avô de Alvinho, o grande Fracolino, que filosofava com hidrantes na rua, virou um coroa malhado e surfista; seu Miguel, o caçador de cabuladores de aulas; Dona Marocas, a professora; e Léo Rabeca, professor de violino do Bola – todos eles tomaram Doril.

Os fãs dos gibis Luluzinha e Bolinha guardam suas revistinhas como preciosidades, hoje raras nos sebos. A quem quiser ler ou reler as histórias originais e observar a evolução gráfica dos personagens recomenda-se a coleção Quadrinhos (2007, editora Devir). Delicie-se com os cachinhos de Lulu, que na versão nacional passaram por uma chapinha e ficaram lisos e com a pança do Bola, que virou um abdome tanquinho.

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Velinha enxuta

Criada em 1935, Lulu merece uma revisão

Luluzinha foi criada em 1935 pela cartunista Marjorie “Marge” Henderson Buell, para o Saturday Evening Post e virou a “queridinha da América”. Dez anos depois, ganhou sua revista com a ajuda dos mestres dos quadrinhos John Stanley e Irving Tripp.

Com o sucesso, Lulu virou uma série, a Marge’s Little Lulu, publicada, regularmente até os anos 1980, inclusive no Brasil (pela editora da revista O Cruzeiro). Luluzinha tornou-se estrela de tevê, mas nunca com o charme da menina da revistinha. Lulu e Bola são considerados os mais subestimados da história dos quadrinhos.