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Sampa, 457 anos

Pauliceia arretada

por Arlete Gomes — publicado 25/01/2011 13h21, última modificação 25/01/2011 18h42
Aos 457 anos, São Paulo tem uma nova relação com os nordestinos que ajudaram a desenvolver a cidade. Por Arlete Gomes

Aos 457 anos, São Paulo tem uma nova relação com os nordestinos que ajudaram a desenvolver a cidade.
São Paulo, ao completar seus 457 anos, sempre estabeleceu uma forte relação com os nordestinos, mas o crescimento econômico da região Nordeste, juntamente com o desejo de uma melhor condição de vida, começa a mudar o fluxo migratório daqueles que um dia buscaram seu lugar ao sol na capital paulista. Alguns retornaram a terra natal, outros vislumbram uma fonte de renda por lá. Conheça a história de Paulo e Raimundo, dois nordestinos que, mesmo sem voltar de forma definitiva, ampliam seus horizontes em relação às oportunidades que a região Nordeste pode oferecer.
Paulo Roberto Fernandes veio para São Paulo aos 19 anos, nasceu em Solênea, na Paraíba. Com cerca de 25 mil habitantes o município parece ter parado no tempo. “Lá o comércio fecha ao meio-dia para o almoço, inclusive bancos, e só reabre as 14hs, depois da sesta”, conta Fernandes sobre a rotina da cidade.
Com um trabalho garantido de montador e entregador de uma loja de móveis da capital paulista, permaneceu no emprego cerca de 3 meses. “Percebi que minha profissão não era aquela”, diz ele sobre os anseios que o impulsionaram a vir para a grande metrópole.
Filho de um pedreiro, com quem aprendeu metade da bagagem profissional que tem hoje, resolveu investir aqui na profissão que trouxe de lá. Em sua segunda obra já trabalhava como encarregado, até que em 1992 abriu a sua própria empresa e tornou-se empreiteiro. Construiu casas nos bairros de Alphaville, Pacaembu, Morumbi e Granja Viana. Emprega hoje dez pessoas todas de origem nordestina. “Tem baiano, paraibano..”, afirma ele.
Além de construir e reformar Fernandes também subempreita trabalho. “Eu repasso uma parte para empreiteiras menores. Uma equipe constrói, outra faz a parte hidráulica, outra a elétrica”, explica ele.
O empreiteiro de 42 anos que visitou a cidade natal em dezembro, 10 anos depois de sua última viagem para lá, percebeu uma mudança social. “As pessoas não tem mais tanta vontade de vir pra São Paulo. Tenho amigos que saíram daqui para morar lá e não querem mais voltar”, afirma o ex-pedreiro que já pensa em construir e vender casas em Solânea.
Fernandes que morava na periferia de Taboão da Serra mudou-se para a região central do município.  Com condições financeiras de morar mais próximo no centro  de São Paulo preferiu o Taboão para manter-se mais perto da área verde e de suas origens. Para o futuro anseia abrir uma loja de material de construção para poder trabalhar com sua própria mercadoria e ainda fornecer material para a região.
“São Paulo é uma cidade que eu aprendi muito, perdi um pouco e ganhei também. Perdi por falta de experiência administrativa. Hoje o mercado de construção civil está aquecido, mas ninguém sabe como estará daqui a uns anos. Com o tempo aprendi que nesta profissão é necessário ter planejamento”, conclui o empreiteiro sobre a instabilidade do mercado imobiliário.
Para ele está cada vez mais difícil encontrar uma pessoa qualificada para trabalhar em seu seguimento em São Paulo. “A maioria da mão-de-obra é nordestina, além dos que voltaram para lá, os que estão aqui dispensam trabalho por falta de profissionais”, declara Fernandes ao acrescentar que um bom eletricista chega a ganhar até 3 mil reais por mês.
Com uma história de vida próxima, mas com detalhes que apresentam um diferencial Raimundo Alves de Alcântara também nordestino, porém cearense alçou uma trajetória ainda mais promissora.
“Se hoje a viagem demora de dois a três dias, naquele tempo durava de quatro a cinco”, lembra Alcântara, sobre sua viagem de ônibus do município de Farias Brito na região do Caririaçu, próximo a Juazeiro do Norte no Ceará até a capital paulista. Os 2.614 quilômetros de distância que separam as duas cidades foram feitos quando garoto de 7 anos de idade saiu de sua terra natal juntamente com a mãe e os seis irmãos ao encontro do pai.
O genitor veio três anos antes. Trabalhou com pedreiro até ser promovido a encarregado de obra. Com uma condição de vida um pouco melhor alugou um casa de dois cômodos na Vila Joaniza, distrito de Cidade Ademar, e trouxe a família.
Em uma manhã o patriarca incumbiu um de seus irmãos da tarefa de  buscar uma tia que chegaria na rodoviária, naquele tempo, final da década de 70, os passageiros vindos no Nordeste desembarcavam em uma rodoviária na região do Glicério, centro da cidade. O adolescente de 13 anos chegou ao local pela manhã, oito horas antes da chegada da parente.  Por conta de uma atitude prestativa –  carregar as malas de uma senhora até um táxi - ganhou gorjeta, a partir daí passou a se oferecer aos demais passageiros da estação para realizar o serviço.
Na manhã seguinte estava lá novamente ele e Alcântara, agora com 11 anos. Motivados pela descoberta da fonte de renda e pelo fluxo migratório intenso que atraia nordestinos para São Paulo, os garotos davam preferência aos ônibus leito que transportavam pessoas com um poder aquisitivo melhor. Com o tempo aliaram-se aos taxistas que não faziam parte do grupo autorizado a transportar os passageiros do terminal, assim passaram a ganhar gorjeta dupla, do passageiro e do taxista. Os adolescentes ajudavam das despesas domésticas e acostumaram-se a ter o próprio dinheiro.
A fonte de renda secou quando os jovens começaram a sofrer repreensões por parte do  Juizado de Menores. Na terceira abordagem foram levados a uma salinha por onde ficaram durante horas. Com o medo de uma nova investida e com um fundo de caixa em mãos deixaram a rodoviária para virarem vendedores ambulantes. “Naquela época não existia muito marreteiro. Vendíamos guarda-chuva, meia, cartão de natal, lousa mágica, sabão, bolsas indianas”, diz.
Mesmo com a vida de vendedor, os estudos sempre estiveram em primeiro plano.  Ao terminar o colégio graduou-se em História e em Direito. Dois de seus irmãos são engenheiros civis e um deles seu sócio. Parou de vender bugigangas, montou um supermercado pequeno e uma fábrica de blocos. Conciliava seus afazeres com o trabalho com o pai que tornou-se empreiteiro. Mesmo sem nunca ter vontade de cursar engenharia resolveu dedicar-se exclusivamente ao trabalho com o pai. 
Alcântara , hoje com 39 anos, tem uma construtora que realiza obras para o Estado e faz construções institucionais, é diretor de uma cooperativa habitacional que constrói casas populares na região de Guarulhos e mantém uma empresa de extração de pedras em São Tomé das Letras, Minas Gerais. Emprega cerca de 200 pessoas sendo 150 destas de origem nordestina. “É a melhor mão de obra para o meu seguimento”, afirma ele.
O empresário, morador no bairro Brooklin, zona sul da capital, acredita que a exclusão hoje em dia é muito maior do que no fim da década de 80. “Fala-se muito em inclusão social e  em inclusão digital, mas hoje o nordestino que vem na condição que eu vim é muito mais excluído. Havia um preconceito por causa do sotaque, por saber que a pessoa veio de uma região mais pobre, consequentemente o pobre sempre tem a pele mais maltratada, o dente mais amarelo.”
Para ele, além de apresentável, a pessoa deve entender de computação. “Você precisa saber lidar com o computador e falar a linguagem do paulistano se não ficará muito mais difícil se inserir”.
Para o Alcântara o nordestino não vê mais São Paulo como sinônimo de prosperidade.  “O Nordeste era uma escassez total e São Paulo se desenvolvia. Hoje a região está em expansão, tem trabalho lá.” A afirmação do empresário se confirma em números. A região Nordeste apresentou um crescimento 2% acima da média nacional de acordo com dados divulgados pelo Banco Central, já o fluxo migratório da região Nordeste para o Sudeste apresentou uma diminuição. Passou de 1,5% para 0,85% segundo pesquisa realizada pela empresa de consultoria econômica LCA.
O cearense de nascença e paulistano de coração se identifica com a cidade. “Gosto de viajar para o Nordeste, mas eu amo São Paulo, essa cidade é minha casa. Minha vida é aqui”, declara o empresário que não pretende retornar de forma definitiva para o Ceará. Seu pai, cansado da correria da metrópole paulistana e percebendo um novo desafio na região onde nasceu, voltou para a terra natal a cerca de oito anos. A empresa familiar constrói hoje, em Juazeiro do Norte, casas para o programa do governo Minha Casa, Minha Vida.

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