Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Para início de conversa

Sociedade

Copa do Mundo

Para início de conversa

por Eduarda Freitas — publicado 26/07/2010 16h27, última modificação 26/07/2010 17h01
Quando não se é nem holandes nem espanhol, para quem se torce na final da Copa?

Domingo de manhã. Ligo o rádio. Desligo o rádio. Saio de casa. O sol veste-se de gala. É dia de fazer nada. Eu preparo-me para muito: Hoje é dia de reencontrar a minha amiga de Curitiba. Zaclis está de regresso ao seu Porto de abrigo. Enquanto espero invento uma forma de a descobrir entre a multidão que caminha para a praia. Baixo-me e fico à espreita - por entre umas colunas - de a reconhecer pelos pés, pelo caminhar. Passam muitas pessoas. Passos pouco apressados, sandálias, chinelos de dedo. Agora uns patins. Rodinhas não contam. Mais sandálias. Unhas de vermelho. Salto alto?! Não. Definitivamente não. Ténis. Poderia ser, mas não é. Chinelos de dedos novamente. Levanto-me num pulo. É ela. Os braços encurtam a distância do oceano. Abraço o Brasil e sento-o à mesa. Cinco horas depois, águas bebidas, gelados, omeletas, saladas, livros, amores, desamores, projectos, risos. Na mesa em frente, está um casal espanhol com um bebé. “Logo vou escrever uma crónica sobre a final do campeonato. Da copa, como vocês dizem, não é?”. A minha amiga acena que sim. “Quem queres que ganhe?”. Ela sorri. “Pode ser nenhum?”. Rimos as duas. “Mas já que tem que ser, talvez a Holanda…”. Fico curiosa. “ E então porquê?”. Ela não está convicta. “ Bem, já que ganhou ao Brasil…”. Não me parece uma boa justificação. “Por essa ordem de ideias…Espanha ganhou a Portugal…!”. Não sei quem quero que ganhe. Espanha é já aqui ao lado. Espanha é o país onde ia com os meus pais comprar caramelos - em pequenina - e onde aprendi que o excesso é demais. Espanha é o país onde nasciam os meus bonecos cabeçudos com chupetas ao pescoço. Espanha é o país onde a gasolina é mais barata do que em Portugal e por isso ao fim de semana funciona com uma espécie de santuário…sem andores, mas com dores nos bolsos portugueses. Espanha é o país da minha amiga Belén, a espanhola mais portuguesa que conheço. E é onde fica Barcelona e as casas de Gaudí, que me dão fome, porque parecem casinhas de chocolate com cobertura de açúcar. “Acho que quero que ganhe a Holanda!”. Digo. Holanda é o país que quase não conheço. Só de cima, pelas janela do avião. E só de um dia. Um dia em Amesterdão, entre amigas, entre reconciliações, a ver as bicicletas passar. Entre a chuva e o quase Natal. Entre Viena e Porto. E depois na minha varanda, Holanda já foi uma tulipa sobrevivente. “Acho que quero que ganhe a Espanha!”, atiro.

Os espanhóis falam muito alto. “Olha, afinal, pode ser a Holanda?”. Não percebo uma palavra do que dizem. “Hm, a Espanha…?”. Lembro do provérbio: de Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos. “Holanda?! Espanha?!”. Um nevoeiro imenso nasce sobre o mar. Parece um lençol. Apetece-me fazer jogos de sombras. A minha amiga fica admirada. “Gente! Olha só…!”. Eu, séria, profetizo: “Pode ser que apareça o Dom Sebastião”. Ela não percebe. “O Dom Sebastião, foi o nosso penúltimo rei antes de perdemos a independência para os espanhóis, morreu em batalha mas nasceu uma lenda… ainda hoje esperamos que ele apareça, montado num cavalo, numa manhã de nevoeiro, para salvar Portugal». Mais uma água? Com gás? A minha amiga vai assistir ao final da Copa com um amigo. Eu regresso a casa para a final do campeonato. No carro, desta vez, não passo à frente a música com inspiração espanhola da banda sonora dos últimos dias. Ouço e bem alto. Sorrio. Apetecia-me um ramo de tulipas. Mas de fazer de conta, que por conta de cortar flores, muita terra chora. Apetecia-me um ramo de tulipas e um Portugal – Brasil para início de conversa. Porque para final, já temos que chegue.