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Papa propõe reforma da Igreja e critica desigualdade social

Em sua primeira exortação apostólica, Francisco critica a ordem econômica global e seu papel na geração da violência
por Deutsche Welle publicado 26/11/2013 20:39
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Vincenzo Pinto / AFP
Papa Francisco

Francisco, na segunda-feira 25, durante encontro com em Horacio Cartes, o presidente do Paraguai

A reivindicação de um mundo mais justo e de uma Igreja Católica a serviço dos pobres foi o cerne da primeira exortação apostólica do papa Francisco, divulgada nesta terça-feira 26 pelo Vaticano.

As exortações apostólicas são documentos papais, contendo recomendações a determinados grupos, como ao clero, por exemplo. Em termos de solenidade, situam-se abaixo das encíclicas e acima dos breves e das cartas apostólicas.

Em Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho), o pontífice condena os excessos da ordem econômica global e propõe linhas-mestras, tanto para uma difusão da mensagem cristã condizente com a época atual, como para uma reforma das estruturas eclesiásticas, dando maior ênfase às igrejas diocesanas. "Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária", observa.

Injustiça como causa de males sociais

Segundo Francisco, a secularização, o individualismo ideológico e uma onda avassaladora de consumo teriam levado à atual "desertificação espiritual". A tarefa da Igreja seria reagir a esse estado de coisas, lembrando os seres humanos da mensagem divina.

Como principal causa de todos os males sociais e violência, ele aponta a distribuição desigual da riqueza no mundo, provocando a reação brutal dos excluídos: "O sistema social e econômico é injusto na sua raiz", afirma. Enfocando a necessidade de os cristãos ouvirem o clamor dos pobres "em todo o lugar e circunstância", ele cita literalmente um texto da Conferência dos Bispos do Brasil:

"Desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angústias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e das zonas rurais – sem terra, sem teto, sem pão, sem saúde – lesadas em seus direitos. Vendo a sua miséria, ouvindo os seus clamores e conhecendo o seu sofrimento, escandaliza-nos o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má repartição dos bens e da renda. O problema se agrava com a prática generalizada do desperdício."

O papa argentino se remete repetidamente a seus antecessores Bento 16, João Paulo 2º e Paulo 6º, sempre em contextos elogiosos. Por outro lado, critica o "obscuro mundanismo" dos que se prendem a "um certo estilo católico próprio do passado".

"É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar."

Crítica a "mundanismo" e conflitos na Igreja

No documento de 200 páginas, o pontífice distingue diferentes manifestações dessa postura obscuramente mundana, voltada a "dominar o espaço da Igreja". Uma delas se exprimiria num "cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja", sem cuidar "que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história". Assim, a Igreja "transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos", resumiu.

Como antídoto, ele sublinha a necessidade de aumentar a responsabilidade dos laicos e aconselha os padres católicos a usarem uma linguagem positiva e compreensível, que vá ao encontro das necessidades da comunidade.

Mas o "mundanismo espiritual" na Igreja, prossegue a exortação, também pode se esconder "por detrás do fascínio de poder mostrar conquistas sociais e políticas". Ou se "traduzir em várias formas de se apresentar a si mesmo envolvido numa densa vida social cheia de viagens, reuniões, jantares, recepções".

Segundo o texto, outra manifestação desse mundanismo se desdobra "num funcionalismo empresarial, carregado de estatísticas, planificações e avaliações", cujo principal beneficiário é "a Igreja como organização", e não "o povo de Deus".

O papa apela para o fim dos conflitos e guerras internas na comunidade eclesiástica. Ele mencionou que lhe dói muito "comprovar como em algumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas". "Quem queremos evangelizar com estes comportamentos?", questiona.

Liberalidade papal e seus limites

A postura tendencialmente liberal do líder católico de 76 anos nascido em Buenos Aires se manifesta em sua reivindicação de uma Igreja "aberta" – já a partir dos sacramentos, cujas portas, disse, não "se deveriam fechar por uma razão qualquer".

O princípio se aplica em especial ao batismo, mas também à eucaristia, que "não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos", observa. Mas Jorge Mario Bergoglio não menciona em Evangelii Gaudium os divorciados em segundo matrimônio, aos quais permanecem vedados sacramentos como a confissão e a comunhão.

Parte da exortação apostólica se ocupa do papel da mulher na sociedade, "com uma sensibilidade, uma intuição e certas capacidades peculiares", como a solicitude, "que se exprime de modo particular, mas não exclusivamente, na maternidade".

"As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente", observou o papa. No entanto, o sacerdócio reservado aos homens é para o líder "uma questão que não se põe em discussão".

Diálogo com não cristãos

Francisco disse, ainda, considerar essencial o diálogo com outras religiões e com os não cristãos, os quais estariam "justificados por meio da graça de Deus", se forem "fiéis à sua consciência". Afinal, "o mesmo Espírito suscita por toda a parte diferentes formas de sabedoria prática, que ajudam a suportar as carências da vida e a viver com mais paz e harmonia".

O papa Francisco sublinhou a importância da relação entre cristãos e os crentes do islã, "hoje particularmente presentes em muitos países de tradição cristã, onde podem celebrar livremente o seu culto e viver integrados na sociedade". Em contrapartida, ele implorou "humildemente" aos países de tradição muçulmana que "assegurem a liberdade religiosa aos cristãos, para poderem celebrar o seu culto e viver a sua fé".

Enfatizando as semelhanças entre as duas manifestações de fé religiosa, ele lembrou que os muçulmanos "conservam parte dos ensinamentos cristãos", e que igualmente "adoram o Deus único e misericordioso", reconhecendo a necessidade de "lhe responder com um compromisso ético e com a misericórdia para com os mais pobres".

Edição Rafael Plaisant
AV/dpa/lusa/ap/rtr

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