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Palmeiras, a academia de vexames

por Fernando Vives — publicado 13/10/2011 19h16, última modificação 06/06/2015 18h15
A bagunça que virou a política do Alviverde outrora imponente é um retrato exacerbado do mundo do futebol do País; o clima é de guerra civil no clube

A Sociedade Esportiva Palmeiras é um clube de futebol que possui entre 10 e 15 milhões de torcedores, população bem maior que países como Portugal e Áustria, entre outros. Pois se o Palmeiras fosse um país, seria hoje um país em guerra civil.

O que foi chamado de academia de títulos do futebol brasileiro até os anos 1970 é hoje uma academia de vexames. A decadência política palmeirense virou notícia de novo por conta de um jogador que apanhou de torcedores enquanto fazia compras na loja oficial do clube, na sede do próprio. João Vitor, jovem volante reserva útil ao time, foi abordado por integrantes de uma organizada que passaram a xingá-lo. Há versões conflitantes sobre quem começou o pugilato coletivo, mas o fato é que João Vítor terminou por ser agredido por aproximadamente uma dúzia de pessoas.

Jogador do Palmeiras a apanhar de “torcedores” não é novidade no clube - foi exatamente este o motivo da saída de Vagner Love, ex-ídolo, que tomou uns safanões de três ou quatro fanfarrões num caixa eletrônico. E o caso de João Vitor foi só mais uma crise entre as tantas crises diárias que o clube paulista produz. Elenco rachado, torcida frustrada e irada pelos vexames, direção confusa e um ambiente político alucinantemente conturbado que poderia inspirar Gabriel Garcia Marquez a retratar caudilhos latino-americanos de tempos imemoriais. O Palmeiras grande virou o Palmeiras macarrônico, mal administrado como uma cantina de bairro que se mantém aberta por conta do nome que um dia teve.

A situação política que vive o clube não é importante só para os palmeirenses. É apenas uma exacerbação do coronelismo à moda brasileira que ainda povoa (também) os clubes nacionais.

O Palmeiras sou eu

Entre 1993 e 2005, o Palmeiras foi presidido por Mustafá Contursi, nome que gera caretas na maioria dos torcedores do clube. Na chamada Era Mustafá o clube viveu o apogeu da parceria com a Parmalat, que rendeu vários títulos, entre os quais o da Libertadores da América de 1999. Mas quando a empresa foi embora, a suposta lição de profissionalismo que seria deixado pela Parmalat se esvaiu em pouco tempo: o Verdão chegou a cair para a segunda divisão e nunca mais ganhou nada de importante. Contursi foi adaptando as leis internas para manter-se no poder por várias gestões.

Ao deixar o clube, Mustafá Contursi deixou como legado um ambiente político que profetiza a fábula do cachorro e do carro: todos os cachorros latem para o carro, mas quando este para, quase ninguém tem ideia do que fazer com ele - por carro, neste exemplo, entenda-se o poder no clube. O clima bélico nas alamedas do Parque Antárctica desanda até a administração de pessoas com know how acima de qualquer suspeita.

Os sócios do Palmeiras não podem votar no presidente do clube, como acontece em tantos outros no Brasil. Inconformados com esta situação, há uma pressão cada vez maior de torcedores que, com a ajuda da internet e das redes sociais, estão lutando pelo direito de escolher o mandatário palmeirense e, com isso, iniciar uma série de reformas políticas que culminem com a profissionalização do futebol do clube. O Palmeiras assim poderia ter seu futebol administrado por gente do mercado esportivo, não apenas por donos de cantina da zona oeste paulistana.

Ao ver a iminência da aprovaçãos das eleições diretas entre sócios, um grupo de conselheiros ligados a Mustafá Contursi passou a armar uma manobra que tenta tirar do presidente a gestão do departamento de futebol, que ficaria a cargo do conselho vitalício do clube - ou seja, da mesma gerontocracia de cantinas atual.

Uma vitória do obscurantismo na política interna do Palmeiras seria uma derrota do futebol brasileiro como um todo. Os torcedores sócios do clube se organizam para evitar o golpe no dia 24 de outubro, quando o Conselho se reúne para discutir a mudança. O Palmeiras, que desde 1999 vive de amarguras, pode estar prestes a entrar na Idade Média do futebol.

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