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Outono de gato escaldado

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 22/03/2010 17h49, última modificação 20/09/2010 17h57
Desde a manhã deste sábado (20) estamos instalados numa nova estação. Ano a ano, o outono é saudado por esta coluna. Embora carioca, o espaço não se sente obrigado a ser eternamente solar nem tampouco navegar num barquinho diferente em domingos azuis. Merecemos descansar as retinas de tanta cor.

Desde a manhã deste sábado (20) estamos instalados numa nova estação. Ano a ano, o outono é saudado por esta coluna. Embora carioca, o espaço não se sente obrigado a ser eternamente solar nem tampouco navegar num barquinho diferente em domingos azuis. Merecemos descansar as retinas de tanta cor. A paleta deste verão, exposta ao sol a 45 graus, explodiu em rosas chiclete, que apagaram o pink, e em laranjas e verdes fluorescentes nas vitrines, roupas, acessórios e nas unhas da mulheres.

A espera por um pouco de sombra, pela queda das feuilles mortes, no compasso romântico dochansoniere Yves Montand, um céu de azul e luminosidade infinitos à espera de pintores e fotógrafos já merecem suspiros confortados.

Confortados, porque além de o outono ter uma intrínseca natureza reflexiva, no Rio as chuvas de março que fecharam o verão deixaram os cidadãos escaldados (sem esquecer de Sampa com a recente quarentena de chuvas). Mas não teria sido sempre assim? Ou o mais do mesmo agora é mais e diferente? Aquecimentos ou esfriamentos globais à parte, envelhecemos ou o tempo encolheu?

Nos estertores do verão, nuvens pesadas e plúmbeas que se afundam nas montanhas da cidade e cobrem o horizonte no oceano afungentam taxistas das ruas. Muita gente fecha as gavetas antes do tempo e zarpa direto para casa. Tudo para não viver a possibilidade do pânico e dos problemas das últimas enchentes.
É olhar para cima, consultar os serviços meteorológicos e ver o movimento dos camelôs de guarda-chuvas com sua logística em perfeita consonância com as demandas do céu.

No entanto, gatos escaldados se sentem péssimos quando o vento leva as nuvens para longe. E esses experts em torrentes ficam dentro de casa com cara de pastel, se perguntando pelas águas que viriam arrastar tudo e contabilizando os compromissos adiados. Cozidas no vapor do verão, as criaturas dão-se conta de que agora têm também alma de gato escaldado, o que é pior.

Folhas mortas? Por ter deixado todos pasmos com seus calorões, o verão que pede o boné e que a todos surpreendeu pode pressupor um outono de surpresas. Até agora, os especialistas do tempo, apesar de sua credibilidade hoje, não sugerem grandes novas.

Mas consta que também não previram o nosso inferno fundado entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, entre o solstício (21 de dezembro de 2009) e o equinócio (20 de março de 2010).

Lemos nas bancas o que já se sabe sobre a estação das folhas, “temperaturas amenas e redução das chuvas”. Mas, desconfiados com os caldeirões em que os bairros cariocas se transformaram, todo mundo fica apreensivo com a chegada do outono. Paranóia? Catastrofismo? Coisa de quem adquiriu alma de gato escaldado.

Tudo preto As vitrines de cores vibrantes escureceram às vésperas do outono. Tudo é preto e cheio de taxas. Botas, casacos, saias minis, vestidos, bolsas, bijus. E as lojas populares nos shoppings dizem que “Londres é aqui”. Coisas da indústria da moda. Acredite quem quiser, a começar pelo sistema de transporte do Rio, um anti-Londres.

Sobriedade A propósito, em Londres roupas e acessórios muito coloridos denotam que o cara é turista, de preferência latino, ou indiano, para quem o significado do rosa shocking é o mesmo do azul-marinho para os ocidentais.

Nostradamus de Atlanta Mas impressionante mesmo é a CNN. Nas suas entradas de previsão global, está dizendo como será o tempo, a temperatura e que tais durante a próxima Copa do mundo na África do Sul. Em junho. Ou estão chutando muito ou vão matar por goleada a turma do tempo da TV mundial.