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Ou isto ou aquilo

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 21/01/2010 18h27, última modificação 20/09/2010 18h28
O ano termina e começa com contrastes térmicos que levam às piores temperaturas em três décadas. Calor indescritível aqui e frio terrível no Hemisfério Norte. Chegar a Londres às vésperas do Natal, com temperatura sub-zero, pode ser um sonho de luzes e vitrines e ainda ser uma excitação. O povo vive as festas de fim de ano com intensidade e encanto.

O ano termina e começa com contrastes térmicos que levam às piores temperaturas em três décadas. Calor indescritível aqui e frio terrível no Hemisfério Norte. Chegar a Londres às vésperas do Natal, com temperatura sub-zero, pode ser um sonho de luzes e vitrines e ainda ser uma excitação. O povo vive as festas de fim de ano com intensidade e encanto. Disse um amigo radicado na terra:

- “O Natal aqui é o Carnaval de lá.”

Mais ao Norte, na capital escocesa, onde as festas de fim de ano tem o mesmo apelo, o sistema ‘cebola’ de aquecimento, peça sobre peça seladas com um bom casaco não funcionou bem às vésperas de 2010. Escoceses são humorados. Eles têm um savoir fair mais afinado até que os ingleses. Um deles corria de bermudas, como se estivesse nas ruas de Ipanema. E não se importou em interromper o seu trote para virar foto de turista.

Assim como no verão os cariocas lidam com a maior intimidade com o mínimo de roupas, fazendo os gringos se sentirem sempre overdressed, os britânicos são estilosos com seus poucos abrigos. Um simples sobretudo sempre preto, claro, pode revelar longas pernas sem meias (!) de lindas e chiques em suas minis e micros. As saias curtíssimas reinam absolutas novamente nas bandas de sua criadora, Mary Quant.

No Reino Unido, o Natal é comemorado oficialmente no dia 25 com um almoço-ceia que precede a troca de presentes sob a árvore. Esquecidos o peru, os fio d’ovos, bacalhau, arroz de forno e a rabanada, a mesa também é farta de carne de pato, batatas e bolos salgados. Uma providencial pausa no fish & fries, a comida trash britânica que, enxuta a gordura no guardanapo, segura uma onda e tanto.

O West End é o Baixo Leblon de Glasgow e no dia de Natal tem ruas congeladas e desertas. As pessoas ficam em casa e cultivam o hábito de se frequentar, embora não haja mesmo muitas opções que não conversar. E beber. Scotch do bom tem em qualquer birosca. Quem disse que brasileiro é o rei da comunicação?

Num feriado abaixo de zero a cidade linda é perigosa. Faz almas movidas a energia solar temerem a deprê e qualquer catatonia afetiva. É desejar ardentemente o dia seguinte para se enfiar num dos maravilhosos pubs em que igrejas seculares estão se transformando. A fé anda perdendo para os destilados.

Culpa da economia global explica, entre doses e sofisticação acadêmica, um cientista político que, coincidência, foi por cinco anos professor na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. O leasing é hoje a saída para a combalida Igreja Protestante que fatura mais com a locação do que passando a sacolinha entre os seus contritos. Assim se bebe com a bênção dos céus.

O mesmo acontece com os prédios dos, outrora, grandes bancos. No Centro antigo da capital escocesa, de arquitetura vitoriana, magníficos espaços de ex-instituições financeiras ficam hoje socados de gente alegre. O jazz e o rock ressoam nos pés direitos inalcançáveis. Onde antes havia caixas e cofres, há clubes modernos misturando o pop e o passado.

Dos prédios oficias pendem um emaranhado de luzes natalinas que cobrem áreas abertas da cidade como toldos piscantes. No meio de um parque de diversões saído de um filme, com um carossel delicado, jovens vestidos de Reis Magos em sacos de aniagem levam potes de mirra e curtem sua onda abordando os turistas: - “Where’s the baby?” Ai, Jesus. A grande nevasca está prestes a cair.

O avião que veio do frio em boa hora é obrigado a sobrevar o Rio por um tempo interminável. Nos corredores e na alfândega do Tom Jobim, o bafo quente circulante, sem ar condicionado (inacreditável, Infraero!), dá pinta de um aeroporto desidratado e de um verão já inesquecível. À pergunta repetitiva e previsível “prefere o calor daqui ou o frio de lá?”, a resposta: - “Well...” Dá para entender a famosa fleugma britânica. (AMB)