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Os soldados dançam

por Rosane Pavam publicado 05/06/2008 16h13, última modificação 16/09/2010 16h14
Uma imagem para a semana: a do zagueiro André Luís, do Botafogo, durante tentativa desenfreada de se livrar de duras mãos femininas durante partida de futebol no estádio dos Aflitos, domingo que passou. A tenente resoluta da tropa de choque pernambucana era a dona dos braços que se prolongavam em direção ao zagueiro. E que desejavam, por razões de que ninguém duvida, algemar o jogador.

Uma imagem para a semana: a do zagueiro André Luís, do Botafogo, durante tentativa desenfreada de se livrar de duras mãos femininas durante partida de futebol no estádio dos Aflitos, domingo que passou. A tenente resoluta da tropa de choque pernambucana era a dona dos braços que se prolongavam em direção ao zagueiro. E que desejavam, por razões de que ninguém duvida, algemar o jogador.

Mas qual teria sido o crime cometido por este jovem que, na companhia do consagrado Alex, formou a muralha defensiva apelidada de Torres Gêmeas no Santos Futebol Clube, vencedor nacional de 2002? Aquele do desacato à autoridade? Não há tantas possibilidades mais. Parece que André não fez algo como esganar o pescoço ou quebrar as pernas de um amigo ou de um inimigo em campo.

Os jornais tentam ser equilibrados, assim digamos, a este respeito. Consideram que os dois, jogador e polícia de choque, erraram pelo excesso de atitudes. O jovem jogador ofendeu a torcida do time adversário, o Náutico pernambucano, com gestos obscenos, depois de se ver expulso de campo por ter cometido duas faltas violentas; também chutou um squeeze de marca Gatorade em direção ao público torcedor, impossibilitando um admirador do Náutico, com alguma idade, de prender os óculos sobre as orelhas.

A polícia local, ao deparar com o que qualificou de tamanha desonra, entrou em ação em estilo arrebatador, mais adequado às rebeliões de presídio ou, como observou o comentarista Telmo Zanini, do SporTV, à repressão aos manifestantes de rua de 1968. Vestidos de preto, todos da turma do choque, os policiais queriam prender e, se mais ousadia houvesse por parte dos detratores que perdiam o jogo por três a zero, ameaçava, com cassetete em punho, arrebentá-los. Um atacante reserva do Botafogo, Fábio, se disse agredido pelos homens da lei. O lateral Alessandro teve os olhos alvejados pelo spray de pimenta disparado por um policial.

A televisão é magnífica nestas ocasiões. Ela nos dá o timing deste horror doméstico. Um filme para que Luis Buñuel, na remota probabilidade de haver algum cineasta como ele hoje em dia, o fizesse.

Não é possível que a polícia leve tão a sério assim a cabeça quente de um jogador. E, pior, que se veja diretamente agredida por ele, por seus termos e descompostura, a ponto de investir contra um atleta com tamanha energia e força de descontentamento. A polícia deveria ter outros afazeres pendentes numa cidade tão bonita. Por exemplo, o de abrir a porta do vestiário, contrariando alegadas determinações da federação de futebol do Estado, para que o jogador pudesse sair de campo em segurança, não sob a nuvem de policiais que, quase como um torcedor ofendido, debruçava-se sobre ele.

A polícia, nestas horas, cumpre o que está escrito, o estatuto do torcedor ou o roteiro de uma história brasileira que aquiesceu em tantos momentos à violência, esta que lhe é profundamente interna e subjetiva. André Luís, tendo desacatado a polícia em sua honra, como ela o entende, resignou-se a pagar 25 salários mínimos de multa ainda na delegacia, a serem revertidos a um hospital do câncer, para se ver livre das grades policiais de Recife. O presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas, que também teria desacatado alguém em defesa de seu jogador, recusou-se naquele momento a acordar, como ainda se recusa, em nome da honradez do esporte.

Um jogador de futebol é muito mais que um jogador. Ele é um servidor dos sonhos indistintos de uma massa de fãs. O estádio é o templo da religião futebolística, diz-nos o pesquisador Hilário Franco Jr., autor do ensaio “A Dança dos Deuses” (Companhia das Letras). Os que acodem a este templo repletos de devoção são fanáticos, por simples adequação do termo (fan como templo). Em cada uma das duas extremidades dos estádios, um goleiro, o bode expiatório das partidas, guarda a intocabilidade de sua Virgem, o gol.

Jogadores são como os pequenos santos nos altares. Por isto, talvez, o fato de que um dos mais populares deles se envolva, por exemplo, com travestis, alegando tê-los confundido com mulheres, possa tocar em alguma medida a imagem de grandeza futebolística que o torcedor nutre por ele. A imaginação religiosa quer o jogador liberado das contradições humanas, porque ele é uma espécie de padroeiro de todos os sonhos -especialmente se defende o nosso time.

Mas André, o pobre André, ofendeu os santos dos outros em pleno templo adversário, enquanto o ideal seria que mantivesse o hipotético cavalheirismo de um cruzado, superior na derrota. Por que se deve esperar de um atleta que se aquiete diante da virgem alheia? Um atleta, um cordeiro exterminado por anjos? O futebol é uma batalha inspirada em todas as guerras, e quem luta nela é um soldado, não, infelizmente, uma alma que aquiesce.