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Os portadores das notícias

por Redação — publicado 25/09/2013 16h50, última modificação 25/09/2013 17h21
No dia do jornaleiro, a CartaCapital homenageia nove deles, de diferentes capitais do país
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Angelo Falsarella, de Campinas

Um jornaleiro é o sabe-tudo de qualquer quarteirão, no Brasil e em vários outros países do mundo (fora naqueles, bem mais sem graça, onde os jornais são vendidos em máquinas automáticas). Além de botar jornais e revistas para circular, ele dá conselhos de compra, joga conversa fora, e não raro nos supre de envelopes, guloseimas e informações.

Quem nunca perguntou um endereço para um jornaleiro que atire a primeira pedra. Um deles, recentemente, foi notícia na Água Branca, em São Paulo, porque decidiu cobrar para orientar os transeuntes desprovidos de GPS. Outro foi capa de jornal depois de receber um telefonema da maior celebridade argentina atual, o papa Francisco. Mal tinha se tornado pontífice, o novo papa fez questão de ligar para agradecer o amigo de quarteirão de Buenos Aires.

Dia 30 é dia deles, e CartaCapital reuniu histórias de jornaleiros de 9 capitais brasileiras. Não há melhor maneira de homenagear quem nos enche de notícias do que transformá-los na própria manchete.

Driblando a censura

Wanier de Souza Moreira entrega jornais e revistas desde 1954, quando ainda nem tinha banca: era daqueles meninos que saíam pelas ruas anunciando a manchete do dia. De lá pra cá, ele adquiriu dois pontos fixos em Belo Horizonte e trabalha diariamente, sem ligar para férias ou finais de semana. Agradável e carismático, ele fez amigos e clientes e transformou as bancas em negócio familiar: seus dois filhos trabalham com ele.

Moreira estava atrás do mostrador na época da ditadura (de 1964 a 1985), e lembra-se das dificuldades em enganar a censura. Muitas vezes, tinha de vender às escondidas ou fazer entregas diretamente para os clientes para não levantar suspeitas. Mas se deu para driblar os militares, não deu para competir com a internet: hoje ele reclama que as vendas baixaram por culpa dos computadores.

O ilustre alemão

Nos idos de 1946, o Sr. Ângelo Falsarella entregava jornais e revistas dentro um trem, o melhor que circulava na época, que ia de São Paulo a Barretos. Chegou a entregar um jornal nas mãos de Washington Luís, o último presidente da República Velha.

Poucos anos depois, ele já tinha a própria banca, na região mais movimentada de Campinas. Ponto de encontro da cidade, a banca vem passando de geração em geração – seu filho e seu neto a gerenciam atualmente.

 

 

Da época do tabuleiro

Nem sempre a banca tinha o formato que tem hoje, como bem sabe o simpático sr. Milton Laurindo de Matos, jornaleiro de Recife. Há 60 anos no ramo, começou vendendo jornais na rua Duque de Caxias, em 1952, aos 13 anos de idade. Tinha o que se chamava popularmente de “tabuleiro”, uma pequena estrutura para a venda de jornais. Há 47 anos, é proprietário de uma banca bem maior e mais completa na Praça do Diário.

 

Sonho de jornaleiro

Antônio de Sousa Almeida, o Seu China, não é da turma que começou a trabalhar entregando jornal de porta em porta. Abriu sua banca em Salvador quando já tinha 27 anos e por incentivo da esposa, Giladete Pereira. Está no ramo há 43 anos.

Ele se lembra dos tempos em que não existia venda consignada: era tudo comprado à vista pelo jornaleiro para revender. A coisa melhorou com o novo sistema, mas piorou com a internet. Num mundo ideal, ele diz, não existiriam assinaturas ou acesso de conteúdo online para incrementar a clientela.

 

 

Os domingos de Ribamar

Há 37 anos no ramo, João Ribamar é dono de uma banca que, no passado, era muito frequentada pela elite de Goiânia. Comprar revista, naquele tempo, não era luxo para todo mundo. Mas se os bambambãs da cidade já não passam muito tempo ali, não faltam amigos que se reúnam para colocar o papo em dia. A banca do seu Ribamar abre todos os dias da semana, mas é de domingo que os clientes cativos se reúnem para jogar papo fora. Comprar jornal em banca é, também, um evento social.

 

 

 

O jornaleiro-conselheiro

A banca do Seu José Mainheriche, em Curitiba, é ponto de referência há 25 anos. Ele abriu o negócio com a esposa, com quem trabalha desde o início, por vontade de incentivar a cultura e a leitura. Logo descobriu que os clientes não param ali só para comprar: também conversam, pedem informações e até contam seus problemas. Dedicado, seu José tenta atender a necessidade de cada um. Tão acostumado a aconselhar, foi parar na presidência do Conselho Comunitário de Segurança do Bairro. Ninguém melhor para saber dos problemas da região que um jornaleiro sempre atento.

 

 

Segunda casa

Faça chuva ou faça sol, Francisco Ribeiro Sobrinho está trabalhando em sua banca em Natal. Começa de manhã e trabalha até o final da tarde e diz que “faz da banca uma continuidade de sua casa”. É assim desde dezembro de 1970 e é uma rotina comum aos jornaleiros brasileiros: a maioria consegue com a atividade sustentar a família e criar os filhos, mas são poucos os que têm muito tempo livre do trabalho.

 

 

 

O jornaleiro italiano

A história das bancas de jornal no Brasil começam com a venda de jornais pelos escravos, nas ruas das cidade, posto que depois acabou sendo assumido pelos imigrantes italianos — os primeiros e mais comuns donos de banca de antigamente. Seu Giuseppe D’Andrea é um deles. Nascido na cidade de Luzzeui em 1936, ele veio para o Brasil em 1955. A banca dele, na Av. Franklin Roosevelt, no Rio, funciona sem parar desde 1959. O permitiu casar, com Aida Siciliano, também italiana, e ter quatro filhos.

 

 

O jornaleiro-xerife

No coração de Porto Alegre, na Praça da Alfândega, está a banca de José Júlio La Porta, jornaleiro há mais de 35 anos. Ali é realizada a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, que este ano chega a sua 59ª edição. Desde 1976, a feira só começa e termina, diariamente, quando La Porta toca uma sineta: ele é o “xerife da Feira”.

A brincadeira começou quando o então presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), Maurício Rosenblatt, em uma série de visitas ao interior do estado, deu com La Porta tocando o sino para passar informações ao público em uma estação de trem. Adorou e decidiu trazê-lo oficialmente para a Feira do Livro, transformando-o em uma das mais tradicionais e folclóricas figuras do evento. Aos 80 anos, La Porta está se aposentando da posição de xerife para cuidar da saúde — e não será substituído no posto.