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Sociedade

Crônica

Os negros…onde estão os negros nas revistas de negócios?

por Tão Gomes — publicado 21/11/2011 14h45, última modificação 21/11/2011 14h45
A constatação me parece grave, tratando-se de CEOs e consultores de conglomerados industriais e financeiros influentes: são sempre brancos, ou brancas (de preferência louras) as ocasionais presenças femininas nesse autêntico show de beleza masculina
Dinheiro Nunca Mais

Michael Douglas e Shia LaBeouf em cena de O Dinheiro Nunca Dorme, sobre o mundo dos negócios

Tenho abertas sobre minha mesa algumas dessas revistas dedicadas a homens de negócios. Retirei as revistas de uma pilha aleatoriamente. E abri, também por acaso, a edição de uma “Valor Investe”, que acompanha a edição diária do jornal, como brinde para os assinantes.

Tendo em vista seu público-alvo, em especial os CEOs e/ou consultores de empresas, parecem muito bem feitos, diga-se, tanto o jornal quanto à revista.

Nesse folhear sem maiores responsabilidade, a primeira constatação. Examinando as fotos com mais vagar, chama a minha atenção a juventude dos entrevistados.

Essas revistas não costumam informar a idade dos seus personagens. Mas é fácil constatar, pela aparência, que são, em geral, homens bonitos, além de jovens, que estão ali falando sobre o mercado, sobre management, sobre investimentos, commodities, etc.

Folheio uma, duas, três revistas do gênero, tiradas da pilha ao acaso.

Em todas, as mesmas características.

Os executivos e as raras executivas que detêm o poder de decisão nas grandes empresas são dignos de admiração até pela maneira discreta como se vestem.

Aqui e ali, captura-se um nó de gravata meio fora do prumo. Mas isso é raro.

 

É claro, são fotos posadas, feitas com todos os equipamentos necessários, rebatedores de luz, etc.

Mas o fato é que aquela imagem tradicional do capitalista, de geral gordo, de casaca, e uma corrente de ouro sempre à mostra (além do charuto) pertence ao passado.

Os CEOs da atualidade primam pelo corte impecável de seus ternos, pelos sapatos de grife, sempre pretos, e por um olhar instigante.

Eu diria que a única diferença entre eles fica mesmo na tonalidade da gravata. E, pelo que constatei, com predomínio do nó Windsor, tamanho médio.

A segunda constatação, e essa me parece grave tratando-se de CEOs e consultores de conglomerados industriais e financeiros influentes, é a ausência de negros, ou mesmo amorenados, entre os personagens que frequentam essas revistas.

São sempre brancos, ou brancas (de preferência louras) as ocasionais presenças femininas nesse autêntico show de beleza masculina!

Passei horas, neste final de semana, examinando cuidadosamente essas publicações. Aprendi alguma coisa, é certo.

Mas as banalidades tipo “como reduzir os atritos dentro de um conselho de administração”, ou “a necessidade do empreendedorismo num mercado cada vez mais diversificado” dominam a pauta dessas revistas. Enfim, são uma espécie de leitura de autoajuda, que tanto sucesso faz ultimamente.

Mas falávamos da ausência de negros ou mulatos nesse mundo fascinante de publicações dedicadas aos CEOs e consultores de alto nível.

Não é bem verdade. A negritude deste país oficialmente de cor parda (dados do IBGE) também se faz presente. Nos anúncios, porém.

Em nenhuma das peças publicitárias onde aparece um grupo de pessoas felizes por trabalhar em determinada empresa ou banco, o publicitário de plantão deixou de lado uma figura que antigamente a gente chamava de “colored”.

A preocupação em colocar negros e mulatos nesse tipo de propaganda realmente mostra que o movimento pela consciência negra (cujo dia, nesta semana, passou praticamente em branco) está finalmente atingindo seus objetivos.

Ah…sim…, claro. Desculpe…O Pelé está presente em  página dupla, convidando o leitor para ser seu sócio no mercado de ações. E num canto de página, novamente Pelé (sempre ele) é anunciado como assunto de capa da revista Alfa, da Editora Abril. Mas, até onde sei, essa revista não é especializada no ramo negocial.

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