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Lei de estágio

Os 'escraviários'

por Celso Marcondes — publicado 29/04/2009 17h08, última modificação 19/08/2010 17h16
ublicamos abaixo um texto escrito pelos dois estagiários de CartaCapital, os estudantes de jornalismo Manuela Azenha e André Oliveira, contando um pouco das experiências de colegas e amigos em São Paulo

Dando prosseguimento ao debate sobre a nova Lei do Estágio aberto na edição desta semana de CartaCapital (,  e  ), publicamos abaixo um texto escrito pelos dois estagiários de CartaCapital, os estudantes de jornalismo Manuela Azenha e André Oliveira, contando um pouco das experiências de colegas e amigos em São Paulo.

OS “ESCRAVIÁRIOS”
Por Manuela Azenha e André Oliveira, estudantes de jornalismo, estagiários de CartaCapital

O primeiro estágio de Catia foi em uma revista sobre vinhos e charutos. Aos 19 anos, ela não sabia muito sobre vinhos e muito menos sobre charutos. Apesar da pouca experiência, além do dono da revista, Catia era a única jornalista na redação. "Eu não tinha orientação nenhuma. As pessoas se esquecem que estágio é para aprender", conta ela. Depois de uma semana, insatisfeita com as condições de trabalho, anunciou ao chefe que iria embora.

A nova Lei do Estágio promete acabar com a figura do “escraviário”, neologismo criado para o estagiário usado como mão-de-obra barata. Muitas vezes mal pagos, exercendo funções não relacionadas com o curso que frequentam e trabalhando um número de horas que compromete seus estudos, ser estagiário costuma ser uma fase, ainda que considerada necessária, de dúvidas e frustrações.

Voltando para casa entediada com a rotina do curso de Jornalismo, Catia resolveu que aquela seria sua última tarde livre. Aceitou o primeiro estágio que conseguiu. Dessa vez, em uma revista sobre negócios e empreendimentos, dirigida a banqueiros. Ganhava relativamente bem e contentava-se em estar fora de casa trabalhando.

Filha de religiosos ultraconservadores, Catia decidiu não seguir a linha da família. Mas os pais passaram a respeitar a decisão da filha assim que ela começou a ajudar a pagar a mensalidade da universidade com metade de sua bolsa de 1.000 reais. "Não sabia se fugia de casa ou do trabalho”, desabafa Catia. Acabou fugindo do seu segundo estágio.

Estagiando e aprendendo:
Mas há aqueles que ganham bem fazendo o que não gostam e outros que gostam do que fazem mesmo ganhando mal. Jorge está no segundo caso.

Aprendiz de assistente em um grande estúdio de fotografia de moda e publicidade, recusou uma entrevista de emprego para aprender a tirar foto, mesmo sem remuneração. Trabalhando com um fotógrafo reconhecido, Jorge pôde aprender a fundo aquilo que é dado rapidamente nos laboratórios da faculdade.

Com a experiência do estágio, já surgem oportunidades de trabalho como fotógrafo de estúdio profissional. Afetado pela crise econômica, no entanto, o mercado de fotografia vem encolhendo. Jorge reclama dos dias seguidos em que não há o que fazer no estúdio. "Não tem sessão de foto e, portanto, o dinheiro não entra. A situação é angustiante".

Mini-saia e top
Claudia, 21 anos, faz Rádio e TV, é estagiaria há 8 meses no SBT. Foi contratada inicialmente para um freela, mas conseguiu renovar seu contrato, agora sob a nova lei. Sem carro, leva uma hora e meia até chegar à via Anhanguera, onde fica a sede da emissora.

De lá, segue para a faculdade em São Bernardo, o que leva mais duas horas. “Não tenho do que reclamar. Estou aprendendo muito, compensando o que vemos superficialmente na faculdade. Em alguns programas, a equipe é pequena e posso acompanhar o processo todo de produção”.

Nessas circunstâncias, as oportunidades que aparecem são surpreendentes. Claudia foi chamada pela produção para participar do “Futebol de Sabão”, caso alguma das integrantes do quadro faltasse no dia. Ela poderia escolher entre a equipe das Coelhinhas da Playboy e a das garotas do "A Praça é Nossa".

No final não precisou participar do futebol, mas foi chamada novamente, dessa vez para contracenar com Silvio Santos em uma vinheta. De início, resistiu ao vestuário proposto: mini-saia de frevo e top. “A saia era muito curta, me sentia pelada. Falei que não iria usar”. Só concordou quando pôde vestir um short por baixo da saia para então convidar Silvio para um frevo pernambucano.

Do “clipping” à privada
“Estagiário sofre”, é o que diz Marina, estudante de jornalismo de segundo ano, que já passou por dois estágios diferentes. “No meu primeiro estágio tive que fazer clipping, conta. Clipping, para
quem já esqueceu da “era pré-Google”, é o resultado do trabalho de quem seleciona, classifica, organiza e armazena todo o conteúdo de jornais e revistas.

“Fiquei pouco tempo no trabalho, não me sentia útil”, diz Marina. O segundo estágio prometia ser diferente, já que era em numa redação. Mas, com a duração de poucos meses, foi uma experiência pior que a primeira. “A dona do jornal era uma louca, tive que cuidar de criança e até lavar privada”, conta.

O estágio de Marina já seguia a nova Lei do Estágio. No entanto, experiências como a dela mostram que a Lei, apesar de trazer benefícios como o auxílio-transporte e a jornada de 6 horas, não protegem o
estudante dos “maus chefes”.

Tory, que estagia numa editora, não é contratada segundo a Lei. No entanto, conta que tem um chefe compreensivo, amigo e honesto. “Eu não tenho nenhum tipo de contrato formal, é tudo acertado na palavra, mas eu tenho um horário flexível, uma boa bolsa e auxílio-transporte”, diz.

Tory acredita que seu caso é a exceção, pois a maior parte de seus amigos enfrentam péssimas condições de trabalho, estando ou não dentro da nova Lei do Estágio. Mas ela acha que a Lei representa um avanço. “Acredito que é um começo, é importante que exista essa regulamentação”, explica. “Se eu aceito trabalhar fora dela é uma opção minha, mas pelo menos eu sei que existe uma alternativa que trabalha, pelo menos em tese, a meu favor”.

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