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Os crachás da Manchete

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 09/05/2011 17h17, última modificação 09/05/2011 17h21
Ex-funcionários da extinta tevê revivem o “espírito de corpo” na rede social. Poucos dias depois de formado grupo no Facebook, quase 500 ex-funcionários se uniram em torno de histórias, manifestações de saudades e reivindicações
Os crachás da manchete

Ex-funcionários da extinta tevê revivem o "espírito de corpo" na rede social. Foto: Tasso Marcelo/AE

Entre os zilhões de tribos do Facebook, criou-se no Rio o grupo da (extinta) TV Manchete. Em poucos dias, quase 500 ex-funcionários se uniram fraternalmente em torno de histórias, manifestações de saudade e reivindicações. A tevê- de seu Adolpho, pertencente ao então grupo Bloch Editores, entrou bem no ar em 1983  e terminou falida em 1999. Ainda hoje deve salário e outros direitos aos que lá ficaram até os estertores da empresa.

Unidos pela rede social, fundadores da Manchete e os que por lá passaram ao longo desses 15 anos estacionaram suas lembranças, sobretudo as boas, sobre o edifício da rua do Russel, hoje em desconstrução. Como são muitos os desgarrados, a corrida ao encontro dos colegas foi rápida, passional. Parece que em nada mudou o ânimo daqueles  à época  convocados, muitas vezes sem precisar da ordem de alguma chefia, para cobrir a morte de Tancredo, o desastre que matou quase 20 jornalistas a caminho da Bacia de Campos em uma manhã imprópria para voar, o incêndio do Edifício Andorinha ou o réveillon trágico do Bateau Mouche.

Mas nem só fatos dramáticos mobilizavam essa gente que segue arrivando no face da TVM com a mesma vontade com que cobria carnavais na então novíssima Passarela do Samba. E, depois, refundava espontaneamente a tão atual mania de formar um bloco de rua apenas para comemorar o fim de um trabalho coletivo. A alegria era sempre maior que o cansaço.

O que levou as pessoas a responderem tão depressa ao chamado do espectro de uma empresa que nunca lhes pertenceu, mas que sempre foi propriedade de quem antevia uma batalha diária para fazer o melhor? O fenômeno das redes sociais é a resposta óbvia. Mas a mais apropriada é o tal espírito de corpo, na época entendido simplesmente como “vestir a camisa”.

Os posts com impagáveis causos folclóricos e reais, onomatopeias sentimentais, fotos amareladas de rostos jovens e outras com acrescidas ruguinhas e quilinhos a mais, mostram que sentimentos bons, quase sempre, superam mágoas de todos os calibres. As pendengas judiciais e as dívidas trabalhistas não honradas até hoje não foram a causa primeira da reunião da turma que mantém sua luta individual e coletivamente em outros flancos.

Juntaram-se na rede os que receberam o FGTS e os que não, os demitidos ilegalmente e os demitidos antes da decadência. De São Paulo e de outras praças outros vieram se unir à turma carioca de repórteres, editores, cinegrafistas, produtores, locutores, técnicos e atores, todos autores de uma espécie de entretenimento puro-sangue. Da switcher do quarto andar do prédio de Niemeyer, o “avião” decolava e pousava. Nas vinhetas, a logomarca em forma de “M”, um deles hoje encostado num ferro-velho do subúrbio, simbolizava uma nave espacial voando sobre as capitais. O “M” fazia o seu rasante e voltava ao terraço do Russel, uma das mais belas vistas da cidade, no início e no fim da programação.

Em vez de redações de revistas e estúdios de tevês e rádios, o novo prédio deverá abrigar salas comerciais e garagens. O fantasma camarada de Juscelino -Kubitschek, um dos mais fiéis hóspedes e amigos de seu Adolpho, continuará por lá? Até hoje, diz a lenda que ectoplasmas célebres pregam sustos nos vigias.

Independentemente das histórias feias ou bonitas que constroem para si, algumas empresas terminam menores que o seu espírito de equipe. Para espanto de seus ex-dirigentes, vivos ou mortos, amados ou odiados, há crachás que ficarão para sempre onde se pede que sejam usados: acima da cintura, de preferência no peito. No caso da TVM, não por coincidência, perto do coração.

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