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Sociedade

Exposição

Os balões de concreto

por Gianni Carta publicado 31/10/2010 19h42, última modificação 13/10/2011 11h17
A imaginação dos desenhistas de quadrinhos e a dos arquitetos viajou solta ao retratar as cidades

A imaginação dos desenhistas de quadrinhos e a dos arquitetos viajou solta ao retratar as cidades

Desenhos e esboços de Paris, Nova York e Tóquio, e de cidades oníricas, utópicas e fictícias, como a Gotham City do super-herói Batman, adornam as paredes da mostra Archi & BD, La Ville Dessinée, no Palais de Chaillot. Expostas em ordem cronológica, a partir do início do século XX até nossos dias, 350 obras concebidas por 150 autores de histórias em quadrinhos focalizam o meio urbano. Ou, como diz o subtítulo da mostra, a “cidade desenhada”.
Intriga que a exposição, em cartaz até 28 de novembro na capital francesa, espere unir a arquitetura às histórias em quadrinhos, como indica seu título. No Palais de Chaillot, o espectador se vê levado a um intenso diálogo entre desenhistas de HQ e arquitetos. Francis Rambert, um dos dois coordenadores do evento, diretor do Instituto Francês de Arquitetura, diz que o objetivo da exposição não é entender como os desenhistas assimilaram ou transformaram as tipologias arquitetônicas das cidades reais. A mostra deseja simplesmente povoar o imaginário do espectador com visões urbanas reais ou fictícias, e se vê bem-sucedida em seu intento.

Isto porque não abandonam a mente do visitante, por muito tempo, os fortes desenhos em que o personagem Little Nemo, do norte-americano Winsor ­McCay, escala durante o sono os arranha-céus nova-iorquinos, no início do século XX. E marcante para o espectador é La Maison de Verre, a casa de vidro do autor francês Jacques de Loustal, de 2007.
Uma vez que a exposição se centra no ambiente urbano por meio de histórias em quadrinhos, esboços, maquetes e projetos de cidades, vale perguntar de onde brota a inspiração dos artistas para conceber os projetos arquitetônicos contidos em filmes ou histórias em quadrinhos. Dito de outra forma, quem apropria o que e de quem? No mundo da arte (e em outras esferas), a resposta se resume a que todos emprestam de todos. A obra pode levar uma assinatura, mas a inspiração por ela gerada não tem dono.

Em entrevista ao semanário Journal du Dimanche, Christian de Portzamparc, arquiteto francês do Museu Hergé, considera: “Seria um abuso dizer que os arquitetos se referem sem cessar às histórias em quadrinhos ou que os desenhistas pensam sempre em arquitetura. Mas todos nós, naturalmente, carregamos conosco a cultura das histórias em quadrinhos”. Tal cultura engloba outras esferas de artistas. De onde surgiu a cidade futurista que o diretor Ridley Scott concebeu para o filme Blade Runner? Jean-Marc Thévenet, o segundo coor­denador da mostra Archi & BD, crê que o Museu de Niterói, do brasileiro Oscar Niemeyer, poderia inspirar uma história em quadrinhos com sua flor sobre o rochedo.
Há casos ainda mais concretos de parceria entre autores de histórias em quadrinhos­ e arquitetos. Um exemplo é o citado Museu Hergé, situado na Bélgica e dedicado ao trabalho do criador do personagem Tintim, erguido por Christian de Portzamparc. O arquiteto francês fez sua obra a partir do cenário estabelecido pelo holandês Joost Swarte, que começou nos quadrinhos de linha clara e se tornou um designer reconhecido. A parceria entre Portzamparc e Swarte talvez seja o caso mais óbvio de execução de uma obra arquitetônica na qual trabalharam em uníssono um arquiteto e um desenhista de HQ.

Histórias em quadrinhos nasceram em páginas especiais dos jornais domingueiros, os chamados Sunday Papers, nos primórdios do século XX. Naquela época, McCay era bastante popular. No fim dos anos 30, Batman e Super-Homem se tornaram heróis incontornáveis em ­suas respectivas urbes imaginárias. As cidades reais favoritas dos personagens eram Nova York, Paris e Tóquio. Mas essa visão etnocêntrica está mudando com a chegada de China, Índia e Brasil como potências econômicas. Jovens artistas, claro, desenham as próprias cidades.
Ao mesmo tempo, a politização de histórias em quadrinhos se encontra em mutação. Se até os anos 50 elas tinham como meta divertir leitores de jornais, nos anos 60 elas se politizaram. O divisor de águas nessa transformação de abordagem das HQs teria sido a revista Archigram. Utopista, inspirada na pop art do artista americano Andy Warhol, ela foi publicada no início daquela década. Vale lembrar que Warhol era mais ligado à estética do que à politização de uma sociedade, embora as duas coisas estivessem interligadas. E esse elo entre estética e política se revelou eficaz até hoje.
Na vitrine de uma loja perto da Sorbonne, a prestigiada universidade parisiense, vemos um quadro de história em quadrinhos, no qual uma mulher pergunta a um homem: “Mas como você pôde votar nele?” E o homem, com olhar perdido, retruca: “Não sei em que estava pensando”.
Nicolas Sarkozy, presidente francês eleito em 2007, impopular no atual mar de greves que atinge a França, é o político ao qual os personagens se referem. Como teria sido possível eleger quem, truculento ministro do Interior em 2007, chamara de “escória” os jovens franceses de origem magrebina em Clichy-sous-Bois, nos arredores de Paris? Justiça seja feita, o quadro na loja da Sorbonne paira na vitrine há exatos três anos, um sinal de que autores de HQ podem integrar a vanguarda política. Falta, contudo, que as histórias em quadrinhos retratem a precariedade dos subúrbios franceses.
Frank Margerin transcendeu, pelo menos ligeiramente, as fronteiras da Cidade das Luzes. Mas seu trabalho lembra, como diz o curador Thévenet, o “universo de Doisneau”. Ou seja, Margerin não reporta a atmosfera real, como fizera o fotógrafo Robert Doisneau­ ao registrar o beijo famoso nos anos 40. Ainda são necessários desenhistas para retratar a periferia de Paris.
Há, claro, outros artistas de alto calibre atualmente focalizados na política, mas ausentes da exposição no Palais de Chaillot. Joann Sfar, por exemplo. Ele dirigiu o filme Gainsbourg e é autor do recente álbum Chagall en Russie. Para a revista especializada em histórias em quadrinhos Zoo, Sfar diz estar “muito preocupado com o clima (político) da França neste momento”. Sfar mostra como o antissemitismo contra o pintor Marc Chagall, na Rússia de outrora, é comparável ao atual racismo francês contra outras etnias.

Não surpreende a seriedade da mostra no Palais de Chaillot, na verdade uma ala do grande Museu Cidade da Arquitetura e do Patrimônio. Ou seja, os arquitetos levam os quadrinhos a sério. Eles e os desenhistas têm em comum o amor pelas cidades. E os dois, de maneira geral, pelas histórias sequenciais.
Em um contexto amplo, os quadrinhos integram, na França, a chamada nona arte. Trata-se de uma cultura cult. Basta ir a qualquer livraria descolada para presenciar jovens e intelectuais folheando álbuns de HQ. Há quem ainda conteste tal arte. Mas os detratores são cada vez menos numerosos. Artistas especializados em histórias em quadrinhos como Sempé, Tardi e Sfar, entre outros, contam histórias que refletem sociedades. •

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