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Onde você estava?

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 20/11/2009 18h50, última modificação 20/09/2010 18h51
Com essa indagação, o blecaute pautou quase todas as conversas entre a gente comum, alguns jornais e talk shows. A curiosidade às vezes some na poeira do tempo, às vezes não some nunca. Volta a qualquer momento e nem precisa de aniversário.

Com essa indagação, o blecaute pautou quase todas as conversas entre a gente comum, alguns jornais e talk shows. A curiosidade às vezes some na poeira do tempo, às vezes não some nunca. Volta a qualquer momento e nem precisa de aniversário.

O Dia D (o desembarque dos Aliados na Normandia, em 1944), o das mortes de Getúlio Vargas, John Kennedy, John Lennon e o 11 de Setembro de 2001 são alguns exemplos de quando perguntar “onde você estava?” se torna um clássico. Só o tempo dirá, mas a recente morte de Michael Jackson talvez se perca na história, como a de Elvis, e fique sendo recordada apenas na cabeça dos fãs de carteira, oscilando, para a grande maioria, na zona da afirmativa que beira a blague: a de que os dois não morreram, estão vivinhos da silva.

Mas quem estava vivo e quem não tinha nascido (esses ouvem os relatos de pais e avós), sabe do peso daqueles acontecimentos na vida das pessoas comuns. Uma senhorinha amiga conta que largou as panelas no fogo e saiu à rua como uma “louca” quando soube do suicídio de Vargas. Foi como perder um parente próximo, relembra.

Na morte de Kennedy, em novembro de 1963, para Ana Maria, então ainda uma criança, a lembrança, já pessoal, é da profunda tristeza que tomou a casa de uma tia, mais a sorumbática e longa viagem de volta, entre bairros próximos, sob as asas de pais imensamente abatidos. Já Leonam estava na redação de O Cruzeiro, no Rio, quando Audálio Dantas ligou da sucursal de São Paulo, dando a absurda, por improvável, notícia – os radialistas, em greve, tiraram as emissoras do ar e telex, no Órgão Líder dos Diários Associados, era ainda um luxo.

Naquele 8 de dezembro de 1980, já taluda, Badaró, com um copo gelado de Nescau e a notícia, ao pé da cama, de que o “cabeludo” preferido fora assassinado em Nova York. Depois, o climão pesado na redação em que trabalhava e aquela dor que tomou todos os que amavam os Beatles. E que não passará. Na certa, muitos já a relataram a filhos e netos.

O 11 de Setembro marcou, para ela, uma escala no aeroporto de Viena, seguida de outra em Paris, até uma difícil volta ao Rio, com voos internacionais atrasados ou cancelados e um grande desencontro de informações sobre o espaço aéreo. Não sem antes achar que as imagens nas tevês do freeshop pareciam uma reexibição extemporânea de Inferno na Torre até entender a extensão do horror real.

Ele, por sua vez, estava num hotel em Roma, a caminho de Monza, e não entendia por que os sites doGlobo e do JB, naquele início da bela tarde de verão, estavam fora do ar na internet. Telefonou para o Rio e a secretária mandou que ligasse correndo a televisão. E então viu a segunda torre desabando. Horror, horror, horror. Inacreditável.

Qualquer uma dessas datas fará importante a história de cada um no momento exato em que receberam as respectivas notícias, imortalizando seus atos, os mais cotidianos e desimportantes, como fechar a porta do carro no escuro ou o gosto memorial de um achocolatado no dezembro de uma noite sem luz.