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Rio de Janeiro

Onde há fumaça há fogo

por Edgard Catoira — publicado 08/12/2011 11h06, última modificação 06/06/2015 18h57
A fita contra William seria apenas um aviso do próprio traficante, ou de outros bandidos do seu nível, de que outras gravações poderão vir a público? Aguardemos os próximos capítulos
Willam da  Rocinha

O líder comunitário William da Rocinha, preso por suposta ligação com o tráfico. Foto: williamdarocinha.blogspot.com

Mais uma vez política e polícia se misturam. Esse desagradável – digamos – conúbio, costuma gerar, mais que filhos malformados, profundas  incompreensões.

A que envolve a prisão do líder comunitário da Rocinha, William de Oliveira, acusado de ligações com o tráfico, e a vereadora tucana Andrea Gouvêa Vieira, que o empregou como assessor, é uma delas. William foi preso no último dia 2.

Conheço William superficialmente. Andréa, conheci ainda menina, quando ia à praia com seus pais. Mais tarde, voltei a encontrá-la, já jornalista, em redações de jornais. Tive, desde então, a honra – notem bem, a honra – de trabalhar com ela em diferentes empresas, como é comum na nossa profissão.

William, líder comunitário e político

Não é o caso de juízos de valor sobre o acusado, nessa fase em que a busca da justiça vem sendo misturada a interesses políticos. Mas são exatamente esses interesses políticos que é preciso expor, para formar um painel que leve a uma melhor compreensão geral da situação – por mim e pelos leitores de Carta Capital.

A prisão do líder comunitário da Rocinha, favela da Zona Sul do Rio de Janeiro, William de Oliveira, parece ser apenas o primeiro sinal de que um incêndio de grandes proporções poderá queimar ou, pelo menos, chamuscar a reputação de muita gente importante do Estado.

A ação policial, ocorrida no início de dezembro foi motivada pela entrega de uma fita mostrando o traficante Nem, até há bem pouco tempo dono daquele morro, dando dinheiro a William. A polícia fala em comércio ilegal de armas. Pela versão de William, o dinheiro seria uma contribuição para sua campanha de deputado estadual - que não teria sido recusado diante do traficante, por motivos óbvios, mas devolvido quando de sua saída do local.

O direcionamento político para o caso tornou-se inevitável pelo fato de William ter sido assessor da vereadora e pré-candidata à Prefeitura do Rio, Andrea Gouvêa Vieira (PSDB), apesar de ele ser filiado ao PRB do senador Marcelo Crivella. Além disso, William tinha canal aberto com o governador do Estado, Sérgio Cabral (PMDB). Na Rocinha, era o mais visível anfitrião de autoridades que visitavam a comunidade. Esteve com o ex-presidente Lula em várias ocasiões, recepcionou a presidenta Dilma e tem foto até mesmo ao lado do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Os amigos de William defendem que, na realidade, ele era o maior opositor dos interesses do tráfico e grande responsável pelas obras de reurbanização da favela. E que, pela “lei do morro”, não poderia ter recusado o dinheiro oferecido por Nem.

Em 2007, perdeu as eleições de presidente da Associação de Moradores para Claudinho da Academia que, no ano seguinte, foi eleito vereador com apoio ostensivo do traficante Nem. Claudinho, já vereador, disputaria uma cadeira na Assembleia Legislativa, mas morreu antes, e teria sido sucedido na campanha para deputado estadual por André Lazaroni (PMDB). No entanto, na Rocinha, William obteve mais votos do que Lazaroni. Segundo seus defensores, representava uma pedra no sapato de muitos.

 

O ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, diz em seu blog que o delegado de Polícia Civil, Maurício Demétrio, atualmente lotado no Departamento Nacional de Produção Mineral e amigo de Lazaroni, não poderia ter participado da prisão de William. Demétrio trabalhou na Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis, justamente onde a fita contra William foi entregue. E está sendo protagonista nas situações policiais que envolvem o líder comunitário.

Mesmo, como se vê, a serviço do DNPM.

Outro político influente, o ex-prefeito e candidato a vereador em 2012, Cesar Maia, também em seu blog – ou, ex-blog  como ele prefere chamar – comenta o caso. Diz ter informações de um certo delegado "XYZ" de que há muitas gravações comprometedoras de gente importante da cidade, e que a vereadora Andrea é ingênua.

Portanto, ao que tudo indica, há muito mais coisas a serem esclarecidas. A prisão de William não pode ser apenas uma cortina de
fumaça. Como diria um velho amigo, há muito caroço embaixo desse angu. A fita contra William seria apenas um aviso do próprio traficante, ou de outros bandidos do seu nível, de que outras gravações poderão vir a público? Aguardemos os próximos capítulos.

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