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Sociedade

Rio de Janeiro

Óleo e água se misturam

por Edgard Catoira — publicado 29/11/2011 16h34, última modificação 29/11/2011 16h56
Quem diria, o PT fluminense sendo obrigado a engolir o PMDB de Eduardo Paes em nome da governabilidade

No último dia 25 de novembro, o PT do Rio se reuniu. Na composição da mesa, logo de início, foi chamado o prefeito da cidade, Eduardo Paes, do PMDB, que se elegeu com o apoio do PT – e, evidentemente, estava ali para confirmar essa aliança para tentar se reeleger nas eleições do ano que vem.

Tudo estava andando em paz e harmonia, até que chamaram o deputado federal Alessandro Molon (PT) para a mesa. O deputado, fortíssimo no PT do Rio, pegou o microfone e anunciou que a reunião era uma farsa com a qual ele não concordava. Lembrou que a militância deveria ser ouvida antes de que qualquer acordo seja selado. Finalizou afirmando que ia levar o caso para instâncias superiores do partido contra o acordo pretendido com o PMDB do Rio de Janeiro.

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Assim, com constrangimento dos presentes, e visível desconforto do prefeito, o acordo PT/PMDB para reeleger Paes não foi consumado desta vez.

Conversando com um velho amigo, velho político e intelectual, tentando discutir os próximos passos para as eleições de 2012, ele iniciou seu raciocínio delicioso:

“Nada de falar de Maquiavel ou de outros clássicos da literatura política universal. Sejamos mais prosaicos, avancemos alguns séculos e falemos de Washington Luís, de Adhemar de Barros, até chegarmos aos dias atuais.

Washington Luís dizia que governar é abrir estradas e Adhemar de Barros, ao seguir o exemplo e adotar a mesma política, fez sucesso em sua época, apesar de acusações de desvio de verbas públicas. Sucesso também fez a marchinha de Herivelto Martins e Benedito Lacerda:

‘Quem não conhece?

Quem nunca ouviu falar?

Na famosa 'caixinha' do Adhemar.

Que deu livros, deu remédios, deu estradas.

Caixinha abençoada!’

Era, talvez, o início da cultura do ‘rouba, mas faz’, que se enraíza definitivamente na sociedade e no mundo político brasileiro. Desviar parece ser o complemento indissociável do verbo administrar, mas, óbvio, há desvios e há desvios...

Os que saem dos cofres públicos rumo aos bolsos e às contas particulares de políticos e administradores são inaceitáveis e ainda passíveis de punição. Mas e os desvios de dinheiro público para os partidos políticos? Para o caixa 2? Por que não? São práticas desonestas que estão sendo absorvidas e não recebem da sociedade a reprovação/punição que merecem. Afinal, são artifícios que garantem a permanência dos mocinhos no poder e, conseqüentemente, a garantia das ‘conquistas sociais’...”

No ano que vem teremos eleições municipais. No Rio de Janeiro, PMDB e PT repetem uma aliança inimaginável não muito tempo atrás. A administração Eduardo Paes, que terceirizou como nunca os serviços de saúde da cidade, através de unidades hospitalares administradas por organizações sociais, recebe a chancela pragmática do Partido dos Trabalhadores, que deixa para trás diretrizes programáticas.

E qual seria a motivação para que antigos rivais acertem o passo e caminhem de braços dados? Obras, muitas obras – e não importa muito para quê. Túneis, vias expressas, viadutos, museus ultramodernos, muito asfalto e muito concreto, para felicidade das empreiteiras amigas do poder. E também não importa como ou para quem. O essencial é que os canteiros de obra são os mais eficientes outdoors das campanhas eleitorais. Batem de longe qualquer discurso ideológico ou em defesa da ética.

Mesmo quando os cofres do Município não estavam tão cheios, era comum transformar a cidade num imenso canteiro de obras, ainda que de obras menores, como o recapeamento de ruas ou a reforma de calçadas. Cesar Maia foi um mestre nestas ações – botava-se o bode na sala e, meses antes do dia das eleições, o bode cedia seu lugar aos palanques oficiais. Ufa! Que alívio! O prefeito é bom, trabalha, faz!

Fazer: este é o verbo! E, ao que tudo indica, na cidade do Rio, PMDB e PT continuarão a fazer juntos. Jorge Picciani faz, Jorge Bittar faz, Sérgio Cabral faz, Benedita da Silva faz, Eduardo Paes faz, Lindberg Faria faz, Paulo Melo faz, Elton Babu faz, Nelson Bornier faz, Luís Sérgio faz, Eduardo Cunha faz – e como faz, Edson Santos faz...”

E o político que sabe de tudo no Rio conclui: “É... E quem foi que disse que óleo e água não se misturam? E, pior, não é só no Rio.

Sobre a intervenção do deputado Molon, ele prefere achar que é um fato a ser creditado na conta dos saudosistas da política transparente.