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O Vaticano no purgatório

por Aurélio Munhoz — publicado 18/04/2011 09h33, última modificação 18/04/2011 09h33
Com este artigo em plena semana de Páscoa, o colunista Aurélio Munhoz quer fomentar o debate sobre a posição da Igreja Católica neste mundo pragmático e exigente

Joseph Ratzinger já teve dias melhores. Ele pastoreava em terreno bem menos lodoso quando ainda não era Bento XVI, mas prefeito da temível Congregação para a Doutrina da Fé, a mais antiga e polêmica das 9 congregações católicas - organização que, a despeito da sua renovação, herdou o pesadíssimo passado de torturas, perseguições e barbarismos da “Sacra Inquisição”.

Tanto quanto os 83 anos de idade de Raztinger, completados no último dia 16, o venerável cargo tem custado profundos dissabores ao papa, sobretudo nos últimos anos. Cenário bem diferente do existente logo após a morte do seu antecessor, o polonês Karol Wojtyła, quando a autoridade moral de Bento XVI era inquestionável.

Não que os postos de líder religioso mais importante do mundo e chefe do menor Estado do planeta, o Vaticano, pesem em suas costas. Autoritário e autossuficiente, o homem não é dado a fraquejos. É que a coleção de gravíssimos pecados de muitos dos seus pastores, dele próprio e da cúpula da Igreja Católica têm provocado enormes baixas na mais numerosa legião de fiéis do mundo. Pior: tem colocado em xeque sua autoridade moral.

Nada mais compreensível. As ovelhas estão se cansando de saberem que um número nada desprezível de homens de batina possuem estatura moral comparável à dos mais abjetos marginais - adjetivo leve, se quisermos aplicá-lo aos padres que, protegidos do mundo pelas paredes das  paróquias, dedicam-se ao abominável prazer de abusar sexualmente de crianças e adolescentes. Mais ainda quando sabem que Bento XVI tem dirigido olhares tímidos e míopes a estes casos, temendo as explosivas reações que, naturalmente, deles decorrem.

Ingresso neste tema em plena semana da Páscoa - uma das mais sagradas para os cristãos – na intenção de fomentar um debate sobre a posição da Igreja Católica neste mundo mais e mais pragmático e exigente. Posição cada vez menos influente, inclusive no Brasil, pátria das chuteiras e das batinas, onde o número de cidadãos declarados católicos está caindo - 125 milhões de pessoas (73,8% da população) em 2000, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Os dados sobre o número de adeptos das religiões em 2010 só devem ser divulgados pelo IBGE em dezembro, mas o Atlas da Filiação Religiosa e Indicadores Sociais estima que o número de católicos brasileiros tenha sofrido redução de 65% nestes dez anos.

Vozes opostas emanam da Santa Sé, claro. Os dados do Anuário Pontifício, levados a público em fevereiro pelo próprio Bento XVI, garantem que cada vez mais seres humanos se definem como católicos, incluindo os brasileiros.

É claro que o papa não é o único responsável por este declínio do número de seguidores da Igreja, que há séculos já sofrem com o excesso de formalismo da sua liturgia e a oratória empolada de boa parte dos padres. Mas Bento XVI é certamente o principal artífice da evasão de fiéis porque é sua a missão de definir as diretrizes para a condução do rebanho de católicos no planeta e, acima de qualquer coisa, dar o exemplo de ética, dignidade e moralidade, que lhe faltam face aos padres pedófilos.

A postura ultraconservadora do velho Raztinger (anacronismo exposto diante de temas como o casamento entre homossexuais, o uso da camisinha e o celibato dos padres) também tem feito sua parte para afastar cada vez mais gente da sua Igreja, colocando-a nos braços dos pastores evangélicos e seu discurso popular, sedutor e messiânico.

A Igreja Católica precisa se reciclar, ampliando os espaços de novas correntes doutrinárias, como a Teologia da Libertação ou mesmo o Movimento da Renovação Carismática. Acima de tudo, porém, precisa ouvir as massas e devolver ao rebanho a alegria de ser católico. O Vaticano dá sinais de que já está no purgatório. Depende de Bento XVI e seus asseclas de batina, agora, decidir se este estágio de purgação os levará aos céus ou a destino bem diferente.

Aurélio Munhoz no Twitter: http://twitter.com/aureliomunhoz

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