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O som e o gesto

por Alexandre Freitas — publicado 06/06/2011 17h25, última modificação 06/06/2011 18h22
No primeiro capítulo do livro “Musique”, o filósofo Michel Serres narra uma parte desconhecida da históriade Orfeu, músico, filho da musa Calíope e do Deus Apolo

Há pouco mais de dois meses, o filósofo Michel Serres lançou na França o livro intitulado “Musique” (Le Pommier, 2011). No seu primeiro capítulo, ele narra uma parte desconhecida da históriade Orfeu, músico, filho da musa Calíope e do Deus Apolo. Sem falar, cantar, tocar ou compor, Orfeu, na sua infância, queria se ver livre dos barulhos do mundo e buscar um lugar silencioso, raro e precioso. Partiu para as margens do mar Mediterrâneo, passou por Delfos e, ajudado pelas Sibilas (mulheres com poderes proféticos), Pítias (porta-vozes divinos) e as Bacantes (mulheres que cultuavam Dionísio), Orfeu percebeu a impossibilidade de seu ideal.

Era preciso, entretanto voltar-se para os seus próprios sons. O som dos fluxos sanguíneos, do ar percorrendo seu corpo, o som de cada mínimo gesto. Em um segundo momento, eram as vibrações de toda natureza que ocupavam seu espírito. No meio desse caos, entre barulhos do mundo e barulhos do próprio corpo, Orfeu buscava a organização sutil dos ritmos indefinidos do universo. E são as nove musas, filhas da titânideMnemósine (“mãe” memória), que ajudam Orfeu a vislumbrar, dentro da confusão sonora do mundo, uma ordem secreta dos sons.

Serres apresenta cada uma das musas em função da contribuição que elas dão à música, seja em relaçãoao gesto, ao ritmo, à linguagem, à organização formal, ao pensamento ou ao caráter. Música, do grego, quer dizer arte das musas. Em cada obra musical, musas operam em diferentes instânciaspara dar voz e sentido aos sons do mundo. O texto de Serres era uma espécie de fábula, baseada na mitologia, que narrava o aprendizado de Orfeu.

Depois dessa leitura assisti, segunda-feira passada, ao espetáculo de dança “Rain”, de Anne Teresa de Keersmaeker. Já tinha ouvido falar muito bem dessa coreógrafa belga, mas o que me motivou foi, na verdade, o fato de o corpo de baile da Ópera de Paris ser embalado pela “Music for 18 musiciens”, de Steve Reich. Seria a primeira vez que ouviria a obra ao vivo.

Aliás, nunca havia tido contato com Reich, além de algumas poucas gravações. O compositor, na minha opinião, é o mais potente dos ditos “minimalistas”, apesar da impressão de que as obras de John Adams e, sobretudo, de Phillip Glass, são mais frequentemente celebradas pelo mundo afora.

Mas o que têm a ver as musas de Serres e o espetáculo de Keersmaeker?

Cada uma das musas citadas pelo filósofo ressoava entre os gestos musicais (e plásticos) dos instrumentistas e os gestos plásticos (e musicais) dos bailarinos. Polímnia guiava a pantomima e alimentava o ritmo comum do grupo. Terpsícore conduzia os movimentos internos e externos de cada artista. Euterpe sustentava a melodia dos sons e dos gestos. Érato dirigia o coro dos artistas atrás de sua marimba vibrante. Urânia compunha, contemplava e calculava rigorosamente a harmonia do espetáculo.As três últimas musas, Melpómene, Tália e Calíope, regiam a narrativa geral, ora com leveza, ora com sensualidade, ora com expressividade trágica ou épica. Inseparáveis, as nove irmãs animavam e eram animadas pelos 28 artistas que, do extremo rigor e precisão de seus gestos, emanavam poesia e graça.

A coreografia de Anne Teresa de Keersmaeker, que foi criada 26 anos depois da obra de Reich, vai além de uma tradução de música em gestos plásticos para complementá-la, fortalecê-la e nutri-la com novos significados. “Rain”foi o primeiro espetáculo longo de Keersmaeker realizado por um grupo que não o Rosas, dirigido pela coreógrafa belga. 

Quatro pianos, dois xilofones, um metalofone, duas marimbas, um violino, um violoncelo, dois clarinetes, dois clarones, quatro vozes femininas e maracas compunham o contingente de músicos do Ensemble Ictus, que, em um fosso de orquestra somente parcialmente rebaixado, propulsava as sete bailarinas e os três bailarinos.

Para quem quiser conhecer ou rever Anne Teresa de Keersmaeker com a música de Steve Reich, estão disponíveis na internet um bom número de vídeos. Clique aqui e veja um trecho de Rain e aqui, para um trecho de Steve Reich Evening, ambos pela companhia Rosas.