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O Rio de chuteiras

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 11/12/2009 18h32, última modificação 20/09/2010 18h33
Foi bonito ver como o Rio estava Flamengo no domingo memorável em que o time levou o hexa (para o site da Fifa, desculpe galera, foi penta), depois de uma secura de 17 anos sem por a mão no caneco nacional.

Foi bonito ver como o Rio estava Flamengo no domingo memorável em que o time levou o hexa (para o site da Fifa, desculpe galera, foi penta), depois de uma secura de 17 anos sem por a mão no caneco nacional.

O melhor da festa foi vencer, claro. Mas outro jogo aconteceu fora do estádio. Impressionava a quantidade de pessoas envergando a camisa do Mengão, ou vestida de vermelho e preto, nas ruas, nos botequins, pés sujos, shoppings e até nos restaurantes chiques e famosos. Tinha chique e famoso no Leblon comendo sushi, cuidando para não escorrer shoyo na camisa 43 do Pet, na do Adriano e, principalmente, para quem conhecia o número dele, quando jogava ao lado de Adílio, a do técnico Andrade, antes da contenda.

Ficou difícil tirar da cabeça a expressão mancha rubro-negra porque essa era a imagem, a metáfora perfeita, uma espécie de onda humana que varria a cidade dobrando esquinas, atravessando avenidas, e se aglomerando ansiosa e feliz com os gritos de vitória prontos para ecoar. Mas nessas horas de anticlímax tudo parece silencioso, até uma grande e rumorosa cidade.

Mas alguns bares emblemáticos, conhecidos pela badalação nos fins de semana, principalmente à beira do verão, estavam tranquilos, tranquilos, porque optaram por não colocar uma tela de TV na parede. Sem TV em dia de decisões retumbantes como a do Brasileirão 2009, no hay muvuca e o público míngua.

É uma escolha dos donos das casas e dos freqüentadores, os a fim de ficar longe do mainstream. Mas o hexa do mais “querido” proporcionou ao carioca uma tarde digna de final de Copa do Mundo. Bares (com TV) cheios e ruas quase desertas. Pena que, depois, na festa da vitória, a violência tenha imperado em alguns pontos do Leblon e da Gávea, por culpa dos animais que não sabem ser felizes.

Da beira da estrada Muito antes de as telas de plana ganharem os rincões (nunca foi tão rápido a disseminação de pequenas e grandes polegadas) as TVs, ainda em forma de caixolas e caixões, eram uma característica das churrascarias e restaurantes de beira de estrada. Era coisa para viajante pobre e caminhoneiro.

Lugar que se prezasse não tinha televisão, não, mas música ambiente, às vezes um piano ao vivo, estilo Waldir Calmon. Assistir a jogos decisivos e à chegada do homem à lua, ainda em preto e branco, só nas telas das boas casas do ramo.

Era o público tonelux, com direito ao snap dos dedinhos de Neyde Aparecida antes de virar garota-propaganda de suas Perucas Lady, ‘tá’?

Hoje, é preciso ser sofisticado para não tascar logo uma tela de TV na parede de maior visibilidade do estabelecimento. Aliás, lugar fino não tem TV. E pode apostar que a ausência dela é uma espécie de termômetro de freqüência e estilo.

O diabo é que a imagem tem um apelo tão poderoso que atrai até o olhar do mais desinteressado no que mostra a telinha.

É um saco conversar com quem está de frente para a TV, se você está de costas. Há que se convencer que não é a sua história que é fraca, mas que o fenômeno luminoso, agora em 3D, é muito mais forte . É preciso reconhecer o efeito dessa coisa no cérebro humano e desculpar o interlocutor e seus olhares de soslaio para cima ou para os lados.

Acontece com todo mundo. Foi por isso que Stanislaw Ponte Preta, que sacava as coisas, batizou os aparelhos de máquinas de fazer doido.