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Sociedade

Especial - 50 anos do golpe

"Na PM, fui perseguido por ser petista. No PT, sofri por ser militar"

por Francisco Jesus da Paz — publicado 07/04/2014 05h24
Primeiro militar a se filiar ao partido, Francisco Jesus da Paz conta como foi perseguido, preso, torturado e impedido de trabalhar na parte administrativa da PM

Sou nordestino de Alagoas. Devido às minhas circunstâncias, tornei-me oficial da Polícia Militar. Contudo, sempre refutei a ordem capitalista, segundo a qual o homem oprime, explora e reprime o outro homem. Por defender a justiça social, a dignidade da pessoa humana e a cidadania ativa na Polícia Militar fui oprimido e reprimido, acusado de ser comunista e subversivo.

Até os 13 anos de idade vivi com os meus pais, no agreste de Alagoas. Saí da casa paterna e fui trabalhar na zona da mata como boia fria nos canaviais de usinas de açúcar, na busca de um novo horizonte e realização de um projeto de vida. Neles trabalhei fazendo jornadas de 12 horas diárias, sem pagamento de horas extras e nenhum direito trabalhista. O pagamento do salário era em vale para compras no armazém da própria usina Santa Amália. Portanto, a minha adolescência ocorreu em um ambiente de exploração.

Viajei de Alagoas a Belo Horizonte, onde pretendia trabalhar, estudar e construir minha vida. Não deu certo. Não consegui emprego e não tinha como sobreviver na capital mineira. Viajei de Belo Horizonte para São Paulo de trem e sem pagar passagem porque não tinha dinheiro. Dois dias de viagem, sem nenhuma alimentação, porque não tinha dinheiro. Cheguei a São Paulo em novembro de 1960, aos 20 anos de idade, faminto e com destino incerto. Em São Paulo, arrumei emprego de servente de pedreiro e pousava no albergue noturno.

No dia 6 de agosto de 1962 ingressei na Força Pública, Exército regional do estado de São Paulo. Comecei no Regimento de Cavalaria “9 de Julho”, submetido a um regime militar extremamente rígido, com privilégios para os oficiais e péssimas condições de trabalho e vida para os praças. Naquele quartel, havia uma brutal inversão de valores, segundo a qual os cavalos eram tratados como “gente” e os soldados, como “animais”.

No fatídico 1º de abril de 1964, dia nacional da farsa, eu era cabo da Força Pública, fazia parte dos militares legalistas, democratas e nacionalistas, de apoio às reformas de base do governo João Goulart.

Fui promovido a 3º sargento, em 3 de outubro de 1964, quando passei a intensificar minha participação política junto aos militares da resistência democrática à ditadura. Em 1968 organizei uma chapa para disputar as eleições no Centro Social dos Sargentos da Força Pública, a qual “perdemos” por furto de votos praticado pela “situação” corrupta, pelega e reacionária a serviço da ditadura cívico-militar.

Fiz a campanha por aumento salarial, melhor assistência à saúde dos policiais militares, direito à ampla defesa nas acusações disciplinares, acesso de Subtenentes e Sargentos ao oficialato da Corporação. Criei o Instituto Tiradentes de Ensino, com cursos de ginásio e científico para sargentos, cabos e soldados, porque eu tinha a consciência de que a educação era uma arma para a conquista da igualdade e libertação dos oprimidos. Levei o teatro de rua para a associação, fundamental para a cultura e senso crítico dos praças PM.

Elaborei centenas de projetos de leis sobre saúde, educação e segurança pública, assinados por deputados, motivo de reação do comando e dos oficiais da Polícia Militar, perseguição e repressão a mim por cerca de 23 anos dentre os 30 anos de serviço militar. Fui indiciado em sindicâncias, IPM, cerca de 50 transferências e prisões disciplinares, vítima do autoritarismo, intolerância e arrogância na Polícia Militar, por ousar exercitar a cidadania ativa, na defesa da dignidade da pessoa humana.

As constantes transferências por perseguições causaram-me insegurança funcional e seríssimos transtornos na vida familiar, social, nos estudos e nas relações profissionais, com perdas irreparáveis na carreira. Na véspera de Natal de 1988, fui, juntamente com 41 oficiais e praças, perseguido e punido com transferências para diversos municípios nas fronteiras do estado. Era proibido de vir à capital para visitar a própria família quando estava de folga. Era seguido diuturnamente pela P2 (seção de inteligência da PM).

Na Constituinte, elaborei a emenda que assegurou aos cabos e soldados PM o direito de votar e ser votado. Na década de 1970, eu era sargento PM e participei de movimentos sociais na zona leste da capital, por moradia popular, saúde e educação, contra a carestia, pela anistia, direitos humanos e debates sobre o movimento feminista. Professor na rede oficial do estado, participei do comando geral de greve dos professores, em 1978.

Sou um dos fundadores do PT. Consegui criar oito núcleos na capital. Fui o primeiro militar a se filiar ao PT, no Brasil. Uma ousadia, na época! Na Polícia Militar, fui perseguido e reprimido, por ser petista. No PT, sofri discriminação por ser militar.

Em março de 1983, em uma Assembleia Geral da Associação, os Subtenentes e Sargentos reivindicavam promoção ao posto de 2º Tenente PM. Na ocasião, fui acusado de ser comunista, terrorista e de ter ido à Cuba fazer um curso de guerrilha.  Contudo, eu estava no serviço ativo e nunca tinha saído do País. Portanto, não havia nenhuma possibilidade de ter ido a Cuba para fazer um curso de guerrilha. Mas estávamos vivendo sob a ditadura, com militares reacionários acreditando que o regime militar iria durar para sempre. Quase fui linchado por sargentos PM enfurecidos e raivosos. Fui expulso da Associação dos Subtenentes e Sargentos PM e demitido do cargo de secretário geral, sem direito a defesa, em face da acusação infame e falsa. Durante anos evitei passar em frente à sede daquela associação, para não vê-la. Causava-me profundo nojo, náusea!

Em 1973, a temível P2, proibiu-me de trabalhar na administração da corporação, para não ter acesso a documentos sigilosos e secretos, sob a acusação de que eu era subversivo e comunista.

No dia 3 de julho de 1975, eu era 2º Sargento PM e bancário. Por volta das duas horas da manhã, encontrava-me trabalhando em uma agência do Banco Itaú, na Rua Boa Vista, centro de São Paulo, quando fui preso, encapuzado e conduzido à Rua Tutóia, no bairro Paraiso, por agentes do DOI-Codi, do II Exército.

Logo que cheguei ao inferno do DOI-Codi fui conduzido à sala de interrogatório e tortura, ainda de madrugada. Fui submetido a sessões de torturas físicas e psicológicas, inclusive ameaças de morte. A minha prisão no DOI-Codi não consta em meus assentamentos individuais, na Polícia Militar, conforme registra o ofício nº CPA/M-1/1391-13, de 09 de novembro de 1976. Tratou-se, portanto, de uma prisão clandestina. Dessa forma, caso tivesse sido vítima de morte, sob tortura, poderia ser mais um desaparecido, sem os responsáveis pela minha prisão e assassinato.

No quarto dia da minha prisão no famigerado DOI-Codi, à noite, fui submetido à tortura e interrogatório. Os torturadores queriam saber a que organização de esquerda eu pertencia e se fazia parte da luta armada contra a ditadura. Depois da sessão de tortura, fui submetido a uma acareação com o 2º sargento PM Luiz Gonzaga Pereira, diretor da Associação dos Subtenentes e Sargentos, e cabo PM Josias Francisco Paraíso, presidente da Associação dos Cabos e Soldados, ambos oriundos da Guarda Civil de São Paulo e acusados de serem membros do PCB, os quais haviam me denunciado de que eu pertencia a uma organização terrorista e era defensor da luta armada contra a ditadura militar. Naquela ocasião houve prisões em massa na Polícia Militar, decorrentes da “Operação Radar”, que visava prender policiais militares acusados de pertencerem ao Partido Comunista Brasileiro. Dentre os presos, fui um dos primeiros a entrar e um dos últimos a sair do DOI-Codi. Ouvia dos meus torturadores que não sairia vivo daquele inferno.

Em 28 de outubro de 1976, a Comissão Estadual de Investigações, atendendo à determinação do governado do estado de São Paulo, determinou minha demissão da Polícia Militar, acusando-me de atividades subversivas.

A prisão e tortura no famigerado DOI-Codi causaram-me traumas sob a forma de memórias intrusas, uma persistente sensação de entorpecimento e embotamento emocional, afastamento de outras pessoas, recusa de atividades e situações recordativas do trauma, hipervigilância, ansiedade e insônia. Ainda hoje tenho enorme dificuldade de falar sobre a minha experiência de prisão e tortura, sendo sempre acometido de forte emoção e angústia.

Tomei conhecimento de três planos para me matarem na Polícia Militar. Uma das ameaças de morte ocorreu com uma transferência e repressão já no posto de 1º Tenente PM, por liderar movimento da tropa por aumento salarial, democratização da carreira militar e melhoria na saúde pública dos policiais militares.

No dia 14 de janeiro de 2014, encontrei o tenente PM Aurípedes Albuquerque em uma associação de policiais militares, o qual foi um dos meus torturadores e de outros companheiros policiais militares, presos e torturados, no DOI-Codi, do II Exército, em julho de 1975. Está solto e recebendo uma injusta aposentadoria do estado de São Paulo, paga pelos impostos dos contribuintes paulistas. Estou convencido que o torturador é um sádico, extremamente perverso, que seviciava e humilhava suas vítimas. O torturador cometeu crimes hediondos, imprescritíveis, contra a humanidade. Assim como todos os torturadores e seus mandantes, deveria ter sido julgado e condenado.

 

*Francisco Jesus da Paz é capitão da reserva da PM. Durante a ditadura, fez parte do grupo de militares que se opôs ao golpe contra Jango. Seu relato é parte do especial Ecos da Ditadura, sobre os 50 anos do golpe de 64

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