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Aurélio Munhoz

O que significa ser Primeiro Mundo?

por Redação Carta Capital — publicado 10/02/2012 10h34, última modificação 10/02/2012 10h36
Estamos na poeira das grandes economias em outros indicadores. É no cotidiano das ruas que as facetas da rusticidade, do oportunismo, e do mais arraigado macunaísmo
civilidade

É no cotidiano das ruas que as facetas da rusticidade, do oportunismo, e do mais arraigado macunaísmo. Foto: Blog do Mílton Jung/Flickr

Por Aurélio Munhoz*

 

 

O Brasil viveu as primeiras semanas do ano saboreando os resultados da pesquisa, divulgada nos últimos dias de 2011, que o colocou junto às nações mais endinheiradas do planeta. Com méritos, avançamos à condição de oitavo para sexto maior Produto Interno Bruto do mundo, segundo levantamento feito pelo Centro de Pesquisa para Economia e Negócios do Reino Unido.

O problema é que o desenvolvimento é um poliedro do qual o crescimento da economia é apenas uma das suas múltiplas faces. Mesmo que fosse diferente, aliás, recomenda-se humildade neste quesito. Estamos na poeira das grandes economias em outros indicadores.

Vejamos o motivo: outro levantamento - desta vez feito pela organização internacional Oxfam - situou o Brasil na modesta 17ª posição entre as nações com melhor distribuição de renda do planeta. É pouco para quem quer ser grande, de direito e de fato.

 

Mas não é de desenvolvimento econômico que trataremos neste artigo. Nosso foco é outro: a dimensão humana, sóciocultural, do Primeiro Mundo. Em uma palavra: civilidade.

Vamos ao ponto, sem rodeios: neste campo, como no da economia, ser o sexto PIB do planeta não torna o Brasil plenamente desenvolvido, de verdade. Diferentemente do que pensamos, não é apenas no campo da Educação formal que nossa civilidade caminha sobre cristais.

É no cotidiano das ruas que as facetas da rusticidade, do oportunismo, e do mais arraigado macunaísmo imprimem sua marca mais contundente. E ao fazê-lo, no caso brasileiro, denuncia a exaustiva maratona que temos pela frente na superação da ignorância, que - entre outros aspectos - nos impede de sermos chamados de país de Primeiro Mundo.

Ignorância do cliente que fura fila na agência bancária. Do motorista que não espera a travessia dos pedestres, na rua. Do usuário do transporte coletivo que não cede seu assento a um idoso, no ônibus. Do glutão que suja a rua com embalagens de comida. Do fumante que se compraz em exercer seu vício em lugares onde o tabagismo é proibido.

Note: nenhum dos exemplos acima têm a ver com vandalismo. São pequenas molecagens cometidas por seres humanos aos quais faltou não exatamente escola, mas provavelmente berço e boas companhias - o que se traduz na presença de pais e amigos responsáveis a lhes dizer qual o caminho certo a seguir, garantindo-lhes o direito de merecer o título de cidadãos. Gente assim é exceção à regra, sem dúvida. Mas quando uma exceção se torna extremamente comum, como no caso brasileiro, deixa de ser exceção. Vira quase consuetudinária. Um hábito de péssimo gosto.

Testemunhamos situações didáticas em outros países. Na Alemanha, no trem que liga Munique a Füssen, um senhor chamando a atenção de uma criança que jogou uma embalagem de bala no chão limpíssimo da composição. Em Bruges, um morador local advertindo um turista apressado que havia desafiado o semáforo, vermelho para pedestres. Em Praga, usuários do transporte coletivo validando bilhetes de metrô, mesmo tendo a possibilidade de passar por catracas livres.

Não falamos de nenhum Éden habitado por anjos sem asas, de carne e osso. A Alemanha, lembre-se, foi o berço do nazismo. A Bélgica, um cruento colonizador do século XIX - país que, aliás, vive uma das maiores crises da sua história, com milhares de pedintes e desempregados nas ruas. E Praga se divorciou do autoritarismo do antigo regime de Estado há menos de vinte anos.

Portanto, os exemplos acima não significam que alemães, belgas e tchecos sejam monges budistas e, nós, hunos tropicais. Quadros crônicos de corrupção e desonestidade são comuns lá, tanto quanto cá.

O Brasil tem muitos exemplos a dar ao mundo, sem dúvida, inclusive no campo ético. Logo, não somos piores e nem melhores que os países desenvolvidos. Somos apenas diferentes nas nossas singularidades. O problema é que, em muitas situações tão comuns no nosso cotidiano, somos muito diferentes porque ainda não aprendemos a respeitar o outro nos ambientes comuns que dividimos, tanto quanto a nós mesmos, como se faz em certas nações que aprenderam esta preciosa lição.

O esclarecimento é importante para antecipar uma resposta aos já previsíveis ataques que receberemos dos pouco esclarecidos, que rotulam de impatriotismo (ou servilismo às nações mais desenvolvidas) toda crítica ao Brasil. Não entendem que a maior prova de amor é a crítica construtiva.

Nenhuma grande Nação do planeta alçou esta condição escondendo seus esqueletos em meio a grossos cobertores, nos armários.

Só se atinge um patamar de desenvolvimento efetivo assumindo corajosamente os próprios erros e executando com obstinação uma correção de rumos em todos os campos, começando pelo ético e o cultural. Seguindo, enfim, a recomendação do nosso maior antropólogo, Roberto da Matta, quando critica a confusão que fazemos entre o ambiente público (onde temos que respeitar o outro, privilegiando o interesse coletivo) e o privado (onde podemos fazer o que quisermos, privilegiando o interesse individual) na magistral obra “A Casa e a Rua”.

Não se espere que o governo, de forma paternalista, faça isso por nós. Aprendamos com Confúcio: “O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros”. A mudança em direção a um ambiente no qual haja respeito ao outro tem que começar dentro de cada brasileiro. Primeiro, em casa; depois, nas ruas, onde exercemos nossa civilidade de forma plena. Isto é ser Primeiro Mundo. O resto é conversa de boteco.

 

*Aurélio Munhoz é jornalista, sociólogo, consultor em Comunicação e presidente da ONG Pense Bicho. Pós-graduado em Sociologia Política e em Gestão da Comunicação, foi repórter, editor e colunista na imprensa do Paraná.

 

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