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Sociedade

Crônica / Matheus Pichonelli

O que faltou?

por Matheus Pichonelli publicado 18/06/2014 11h31, última modificação 20/06/2014 10h34
O empate sem gols contra o México não foi uma tragédia, mas ligou o alerta sobre as lacunas da equipe e a capacidade dos reservas. Até Robinho fez falta
Vanderlei Almeida / AFP
Brasil México

A seleção brasileira perfilada para o hino no jogo contra o México, em Fortaleza

Em 2010, queria ver Neymar ao lado de Robinho na Copa da África do Sul. Em 2014, queria ver Robinho ao lado de Neymar na Copa do Brasil.

Em futebol, como na vida, rei morto é rei deposto (como o perdão do trocadilho) e nada pode ser mais confortável do que apontar erros e acertos quando o árbitro apita o fim do jogo e não há mais nada a fazer. Certo está o Tostão, craque dentro e fora de campo que, em coluna recente na Folha de S.Paulo, adiantou o que será dito sobre cada time em caso de fracasso ou consagração: se a Alemanha perder é porque se isolou na Bahia; se ganhar é porque se concentrou; se a Holanda perder é porque curtiu demais o Brasil; se perder, será justamente porque curtiu demais; se a Espanha ganhar é porque manteve o time campeão de 2010; se perder, é porque não se renovou.

Em 2002 Luiz Felipe Scolari desagradou meio mundo ao apostar em Luizão e deixar Romário de fora. Luizão sofreu o pênalti (fingiu sofrer, na verdade) logo na estreia, contra a Turquia, o Brasil ganhou o jogo e Felipão abriu passagem para o penta. Ainda assim há quem preferisse ver Romário no lugar de Luizão e Alex, no lugar de Kleberson.

O choro, como sempre, é livre. Acontece que, apesar das comparações entre os dois momentos do treinador, o elenco atual é menos parecido com o de 2002 do que com o de 2010, inclusive o sistema tático (em 2002 o time jogava com uma trinca composta por Lúcio, Edmilson e Roque Junior, dois volantes, Gilberto Silva e Kleberson e sem um centroavante típico). O time pentacampeão, além de mais experiente (quatro eram titulares em 1998, Cafu, Roberto Carlos, Ronaldo e Rivaldo), tinha dois jogadores decisivos (Rivaldo e Ronaldo) e contava com opções táticas no banco. Denílson, quando entrava, era capaz de mudar a cara do jogo, impor velocidade e segurar uma defesa inteira (estranho como, em perspectiva, ele hoje seja lembrado como um jogador menor do que realmente foi). Como em 2010, a defesa desta vez, armada com dois laterais e dois zagueiros, é mais sólida, mas, como naquela Copa, há muita esperança despejada em uma pessoa só. Em 2010 era Kaká. Desta vez é Neymar. Ambos os times sofreram desfalques entre os carregadores de piano: Elano, em 2010, e Hulk desta vez. E ambos contavam com um centroavante clássico, Fred e Luis Fabiano, sobre quem todos esperam uma bola caprichosa na área, mas não brilhantismo fora dela. Os atacantes reservas, nos dois casos, eram observados com desconfiança pela torcida: Jô e Grafite, para os centroavantes, e Bernard e Nilmar, mirrados mas velozes, para as pontas.

Pela posição, o Neymar daquele time era o Robinho. Nas quartas-de-final, quando o time sofreu uma pane no segundo tempo, Robinho fazia sua melhor partida, mas correu sozinho – Kaká, longe de estar 100% da forma física, não conseguia acompanhar o atacante. Até hoje imagino o que faria o jovem Neymar, campeão paulista semanas antes, correndo ao lado de Robinho, seu ídolo, em uma Copa que não era dele. Neymar tinha apenas 18 anos e o mundo todo pela frente. Era o que faltava naquele time: uma dose de aposta e outra de irresponsabilidade. Neymar não teria a menor responsabilidade de decidir, mas poderia fazer a diferença, como fez Pelé, na mesma idade, em 1958 – aquela Copa era de Didi, seu ídolo.

Hoje Robinho não é sombra do atleta que todo mundo esperava quando surgiu em 2002 e foi alçado a Rei das Pedaladas. Como Neymar, todos esperavam que ele, mais dia menos dia, fosse eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa. Nada menos que isso faria dele um atleta consagrado. A consagração, nesse sentido, nunca veio, mas Robinho passou longe de qualquer fiasco. Fez uma boa Copa em 2010 e parecia pronto para esta. Talvez não pedalasse como fazia na última década, mas saberia finalizar, rocar passe, compor a marcação. E gosta de Neymar e Neymar gosta dele. Em 2010, Robinho sofreu sem um auxiliar à altura. Em 2014, quem sofre é Neymar, que no empate sem gols contra o México não via ninguém se aproximar para uma única tabela – Oscar, melhor em campo na estreia, não repetiu o desempenho na segunda partida.

Robinho poderia ser o cara para este jogo, como poderia ser Kaká no lugar de Ramires. Ou ninguém a esta hora se lembraria deles se Guillermo Ochoa, o goleiro mexicano, não tivesse operado pelo menos três milagres (as bolas foram em cima dele, dirão os céticos, mas é disso que vive um goleiro: fechar o trajeto óbvio do arremate). Ou eles já estivessem em campo se, há um ano, o Paulinho que ontem falhou na cabeçada não acertasse nos minutos finais da partida contra o Uruguai, na Copa das Confederações, quando a seleção ganhou a vaga, o fôlego e a moral para chegar à Copa como chegou.

Até aí, de novo, rei morto é rei deposto e, no futebol como na vida, o “e se” jamais entrou em campo. E se o árbitro japonês não tivesse errado a favor do Brasil? E se o Neymar não acertasse o canto para empatar o jogo? E se o Luizão não tivesse enganado o árbitro em 2002? E se o Romário estivesse à sombra de Ronaldo e Rivaldo naquela Copa? Pouco importa porque jamais saberemos. O que sabemos é que, em 2014, o time do segundo jogo (e do primeiro) não foi bem, mas só quem passou quatro anos dormindo imaginava que a trajetória até a final seria fácil.

Na coletiva após o empate, Felipão avisou: “vocês podem escalar 300 times, mas quem decide sou eu”. Pura verdade, e ninguém em sã consciência diria que Felipão não sabe o que faz. O fato é que há um terceiro e decisivo jogo, na próxima segunda-feira, e o time que está é este. Neymar pode decidir, Oscar pode chamar o jogo, Willian e Bernard podem entrar e botar fogo quando o meio-campo amarrar, Marcelo e Daniel Alves podem acertar o ponto entre avanços e marcação, o Paulinho da seleção pode voltar a ser o Paulinho do Corinthians. O empate sem gols não é uma tragédia, mas ligou um alerta. Ainda assim, só uma catástrofe (sim, elas existem) deixaria a seleção brasileira fora da segunda fase – e é provável que o valente México de ontem não dê conta da valente Croácia da semana passada. Em tempo: o grupo do Brasil nesta primeira fase é o mais complicado em muitos anos.

Se o Brasil tem musculatura para encarar Chile, Espanha ou Holanda nas oitavas são outros quinhentos. Como vaticinou o Tostão, em livre adaptação deste escriba (e com o perdão ao craque), se este time avançar, os méritos serão todos da coerência do treinador e da família Scolari. Se fracassar, o malho fica por conta da teimosia teimosia dele. Minha aposta é que avança.