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Especial / 50 anos do golpe

O que 64 mudou em minha vida

por Rosa Cardoso — publicado 13/03/2014 04h49
O golpe politizou meu desempenho profissional, conduzindo-me a uma advocacia militante, arriscada, sem compensação material, mas com importante significado político e simbólico
BR UNICAMP IFCH/AEL BNM
movimento estudantil

Foto de arquivo mostra estudantes protestando contra a repressão e censura do regime militar

1º de abril de 1964. Madre Xavier, a diretora do curso colegial da Universidade Santa Úrsula, onde eu concluía o designado curso “clássico”, anunciava feliz e cumpliciosamente que o governador Lacerda tivera êxito, a Revolução acontecera. Este fato apressaria em minha história um posicionamento à esquerda, cujas raízes localizo na tradição comunitária de “ajudar os outros”, legada por meus pais: minha mãe, reconhecidamente perdulária, repartindo todos os bens que administrava, ou seja, alimentos e módicas provisões de dinheiro, meu pai, ajudando todos os conhecidos e empregados que desejassem estudar e progredir, a fazê-lo. Minha irmã mais velha, Cininha, morta há muitos anos, a pessoa de maior espírito público que conheci.

Cininha, enquanto foi estudante (punida em certo momento pelo 477, decreto-lei que definia infrações disciplinares de professores e alunos acusados de "subversão ao regime") abrigou em minha casa, em Recife, todos os perseguidos políticos que lhe pediram ajuda – alguns muito conhecidos na cena política nacional, como Luiz Travassos, ex-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), líder estudantil “caçado” pelos órgãos repressivos do Estado, que meu pai, então vice-presidente de um banco, reconheceu aos berros na capa da Veja.  Em casa ele era o inocente amiguinho paulista que fazia turismo no Nordeste e, exausto, descansava uns dias em nossa hospitalidade. Posteriormente Cininha dedicou-se à adoção de crianças, que alguma mãe solteira, ou mesmo um casal não poderia criar. Finalmente, reduzindo seu turno de trabalho como economista no Banco Central passou a confeccionar, com volúpia, a custo zero, comprando ela própria os tecidos, roupa para pessoas pobres. Em casa, portanto, a lição era ajudar e repartir.

Foi, assim, muito fácil, ainda como secundarista, preocupar-me com vítimas do capitalismo selvagem, de ditaduras sanguinárias, das injustiças do Terceiro Mundo, das guerras. Isto tudo estudei em aulas de história e de relações internacionais, no bem pensado curso secundário que a inesquecível Madre Xavier organizou. Naquela época tive jovens professores/alunos do Instituto Rio Branco, como Júlio Cesar dos Santos e Samuel Pinheiro Guimarães. Contudo, a despeito de uma formação contemporânea ao que os jornais e televisões exibiam, vivendo, por escolha própria, no Rio de Janeiro, onde concluíra o ginásio em um internato do colégio Sion, e prosseguira morando no pensionato da Faculdade Santa Úrsula, longe de minha família, não vivenciei os comentários e a inafastável discussão que animava, na época, jantares familiares, relativamente às reformas de base e às manifestações de rua. Precocemente, estive envolvida com amigas universitárias (Virgínia e eu éramos as únicas secundaristas residentes no pensionato) interessadas em literatura, arte e filosofia, objeto dos cursos que então a faculdade oferecia. E fiquei tão apaixonada por esse mundo que decidi fazer vestibular para os cursos de estética e literatura. Nas férias, em Recife, contei o projeto a meu pai, que apenas disse: “esses cursos você fará com os seus recursos... você não vai continuar dependendo de mim ou de um marido... vamos para profissões que assegurem a sua independência: direito, medicina, engenharia, economia: escolha”.

Terminei cursando a Faculdade Nacional de Direito, hoje, UFRJ. Ali o mais notável criminalista da época, Heleno Fragoso, foi meu professor de Direito Penal. Passei a assistir suas defesas de perseguidos e presos políticos, no Superior Tribunal Militar, instalado em prédio plantado ao lado da faculdade, na frente da Praça de República. No Tribunal conheci a elite da advocacia criminal carioca, num momento em que o Rio de Janeiro ainda era a capital cultural do País e concentrava maior poder editorial que São Paulo, na área jurídica. Não se falava ainda do IBCCRIM/SP, embora os criminalistas de São Paulo, em geral, já tivessem mais clientes e mais dinheiro.  Ainda no STM assisti a muitas defesas e conversei com muitos advogados. Um dia, Werneck Viana, atualmente reconhecido sociólogo, convidou-me para substituí-lo no escritório do Modesto da Silveira, de onde estava saindo para dedicar-se à vida acadêmica. Entrei no escritório de Modesto como estagiária “solicitadora”, mas com atribuições e responsabilidades de advogada. Daí em diante envolvi-me em um turbilhão de casos de sindicalistas perseguidos e processados, de líderes políticos e integrantes da administração anterior ao “golpe”, militares insurgentes, comunistas de diferentes partidos. A partir de 1970 comecei a advogar em São Paulo, para onde, afinal, me transferi e onde atendi um grande número de presos políticos.

O golpe, portanto, politizou meu desempenho profissional, conduzindo-me a uma advocacia militante, arriscada, sem compensação material, mas com importante significado político e simbólico. Todos os advogados que a ela se dedicaram, exclusiva ou dominantemente, foram presos e/ou vigiados, seguidos, intimidados. Obrigou-me também a antecipar reflexões de natureza política sobre o direito à insurgência, a engenharia repressiva das ditaduras, o terror, a farsa e a mentira impostas por ditaduras para a sustentação do arbítrio.

Penso que se não tivesse havido uma ditadura eu, mesmo assim, exerceria   alguma forma de ativismo político. Antes porem de fazê-lo plenamente teria assumido a vida acadêmica com mais persistência, haveria estudado fora do País, conhecendo outras tribos e praias, buscaria ter acesso a experiências vanguardistas na área da cultura, revolveria sentidos contemporâneos do que é liberdade e do que é libertário. Mas afinal, no final, tentaria compartilhar essa formação ou informações com os companheiros desta aventurosa viagem que empreendemos, todos, neste planeta em que convivem tanta beleza e ruína.

*Rosa Cardoso é advogada e integra a Comissão Nacional da Verdade, da qual foi coordenadora entre maio e agosto de 2013. Durante os anos 60 e 70 advogou para presos políticos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Seu relato é o quarto de uma série de 50 depoimentos coletados para o especial Ecos da Ditadura, que lembra os 50 anos do golpe militar