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O protesto de quinta-feira foi diferente dos demais

por Chico Malfitani — publicado 12/07/2013 12h35
O movimento da "gente diferenciada" recebeu um tradicional tratamento "diferenciado"

Nesta quinta-feira 11 fui para a avenida Paulista assistir a mais uma manifestação, das muitas que têm ocorrido desde início de junho. Desta vez, o ato era promovido pelas Centrais Sindicais.

Logo às 11 horas da manhã, percebi que a manifestação teria características bem diferentes das que já tinham ocorrido na Paulista. A esmagadora maioria de seus participantes eram de trabalhadores mais humildes, gente do povo, mais morena do que branca, como é a maioria da população brasileira. Metalúrgicos, gráficos, químicos, motoboys, empregados do comércio, da indústria, gente simples, sofrida, trabalhadora e consciente. Essa manifestação era da tal "gente diferenciada" , chamada assim por moradores mais  "nobres" do belo bairro de Higiene, que protestaram quando o governo paulista quis instalar no centro daquele bairro uma estação de metro.

Acho que esse povão, essa "gente diferenciada" deve ter espantado aquela classe média ou elite que esteve em bom número em outras manifestações na Paulista e na Faria Lima, contra a corrupção, a Dilma, o Lula, a Copa e por mais gastos em saúde e educação. Dava para contar nos dedos manifestantes desse naipe na Paulista, nesta quinta-feira . Devem ter se assustado com as bandeiras vermelhas, ou com as faixas: "Mais imposto para os ricos , menos impostos para os pobres", ou "Taxação das grandes fortunas", ou "Pela democratização dos meios de comunicação", ou "Reforma Política e Plebiscito", ou ainda "Mais respeito pelos motoboys", etc, etc.

Todas levantadas por quem realmente usa os serviços públicos de educação e saúde. E que são as maiores vítimas, tanto na insegurança pública patrocinada pelo governo de São Paulo, quanto da violência policial nos seus bairros de moradia. Tudo isso deve ter assustado aqueles que de máscara ou com roupas bem cortadas, gritaram nas outras manifestações, que o Brasil tinha acordado. Nessa quinta eles não estavam lá. É claro, muitos devem ter ido para Miami, Paris, Disney, e outros destinos mais nobres. Afinal, agora estamos em plena vigência das Férias de Julho. E a nossa velha e nobre classe média ou elite merece gozar de merecido  descanso, nas terras do além-mar.

O Gigante Acordou. Mas agora ele está de férias. Como ir a uma manifestação de trabalhadores, que é a favor da reforma politica, do plebiscito? Mas aquela gente "bacana", portando bandeiras do Brasil, bradando contra a corrupção, não estava neste 11 de julho na Paulista? Estranho. Se eles são mesmo contra a corrupção , deviam estar lá. Todos sabem que o financiamento privado de campanhas eleitorais é a maior fonte de corrupção, na relação político-empresário no Brasil. E deveriam estar se manifestando a favor da reforma política e do financiamento público das campanhas, que diminuiria muito a corrupção. Mas não estavam lá.? É claro, como já observei, devem estar de férias. Ou então essa estaria da nossa velha elite, da  velha classe média e da imprensa tupiniquim bradar contra a corrupção, é conversa pra boi dormir.

Agora, depois de encerrada a manifestação dos trabalhadores, toca assistir, ler, ver e ouvir a nossa mídia, dar um tratamento negativo a esse movimento das centrais sindicais. Certamente uma abordagem diametralmente oposta à que deram às manifestações anteriores. Nada mais normal no Brasil: para um movimento de "gente diferenciada" , só se pode dar mesmo o tradicional tratamento "diferenciado".