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O professor e a Casa Grande

por Emiliano José — publicado 05/05/2008 15h03, última modificação 02/09/2010 15h05
Costumo dizer que nenhuma nação passa impunemente por quase quatro séculos de escravidão. E se o modo de produção escravista perdurou no Brasil até o final do século XIX, não há possibilidade de as marcas se apagarem com facilidade.

Costumo dizer que nenhuma nação passa impunemente por quase quatro séculos de escravidão. E se o modo de produção escravista perdurou no Brasil até o final do século XIX, não há possibilidade de as marcas se apagarem com facilidade. As marcas materiais e as simbólicas. As duas imbricadas. A cultura da Casa Grande sobrevive solidamente na sociedade brasileira, por menos que o queiramos. O preconceito e a discriminação contra os negros são heranças presentes da escravidão. Claro que temos avançado. Há hoje um forte movimento negro no País. Há mais consciência da sociedade brasileira contra o racismo. Mas, ainda temos uma longa estrada pela frente.

Justo na Bahia, uma terra negra, uma polêmica se instalou por conta de um racismo explícito do professor Antônio Natalino Dantas, coordenador do colegiado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Contemos do início. A bicentenária Faculdade de Medicina obteve nota 2 no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). E isso deixou muita gente perplexa. A escola era considerada de qualidade. E agora desabava. O professor não contou conversa: atribuiu a péssima nota “ao QI dos baianos”. É, com aspas, declaração do professor. Mas, Natalino, como é mais conhecido, solidamente fincado na Casa Grande, foi além. Enfiou o pé na jaca.

Atribuiu a culpa pela nota baixa aos negros. Ou, se quisermos amenizar – e ameniza? – ao sistema de cotas vigente na UFBA. “A prova foi feita com alunos do primeiro semestre e do último semestre. Pode estar havendo uma contaminação das cotas e influência da transformação curricular nesse resultado”. As palavras têm peso e lugar: contaminação. Sabe, negros contaminam. Cotas contaminam. Por que essa mistura? Por que abrir as portas a essa gente? A Universidade brasileira não devia se deixar contaminar. Devia continuar branca.

E ele vai adiante, enfia os dois pés na jaca. Desqualifica a música dos negros. “O berimbau é um instrumento para quem tem poucos neurônios”. É, ele disse isso, sem tirar nem pôr. Com aspas, outra vez. São os negros que tocam berimbau, sabe-se. São eles que têm poucos neurônios. E caminhava daqui pra lá e de lá pra cá, mãos às costas como convém ao senhor que transita pelo amplo salão da Casa Grande, e completava, enfático: “A música da Bahia é batuque, não tem qualidade”. Ele não gosta de percussão. E a desqualifica.
Houve reações de toda parte. O governador Jaques Wagner (PT) foi duro: “A declaração (sobre o QI dos baianos) é de uma imbecilidade ímpar. É condenável sob todos os aspectos. Utiliza um conceito ultrapassado e traduz um preconceito profundo contra o povo baiano”.

Até senadores da direita, como César Borges e Antônio Carlos Magalhães Júnior, embarcaram na onda e condenaram as declarações. O grupo cultural Olodum, hoje com renome internacional, foi definido pelo professor Natalino como “uma escola de barulho”. Como se vê, o repertório de Natalino é vasto porque vasta é a herança da Casa Grande. Olodum, ora, é casa do batuque, do barulho pelo barulho, sem talento, coisa de negro. O Olodum vai ingressar com ação no Ministério Público Estadual contra o professor. O reitor da UFBA, Naomar de Almeida Filho, foi categórico:

“As afirmações do professor Natalino são racistas, discriminatórias, reacionárias e anacrônicas. Além de não terem substância, trazem problemas éticos sérios, são insensíveis em termos culturais e demonstram uma imensa ignorância antropológica. Essas opiniões o desqualificam como coordenador de um programa de formação acadêmica com mais de mil alunos sob sua responsabilidade”.

O reitor, no entanto, não tem atribuições legais para demitir o professor. Assim, requereu ao colegiado de Medicina que o afaste do cargo.

O professor Natalino ouviu as reações da varanda da Casa Grande e tentou se defender. Mas, não há jeito. O uso do cachimbo faz a boca torta. “Não sou racista. Se eu fosse, diria. Sou médico e boa parte das pessoas que atendo são gente de cor. Minha secretária também é de cor. Se fosse racista, não a escolheria”. Vejam o quanto ele concede. Apesar de tudo, atende gente negra, de cor. E até admite ter uma secretária negra, de cor. Música? “Não sou obrigado a gostar de berimbau”. E repisa, pisa: “O que eu disse é que é um instrumento primitivo, que só toca uma nota só”.

E agora sentado na cadeira de balanço da Casa Grande, ouvindo acordes vindos do gramofone, quem sabe Bach ou Beethoven, diz que gosta mesmo, ouvido sensível, sofisticado que é, de piano e violino. Indignou-se porque até de Hitler o chamaram, os que se indignaram. Mas não há um quê de arianismo em tudo aquilo que o professor disse? É provável que ele creia que não. Que se creia um bom rapaz por tolerar gente de cor.
Paulo Lima, professor-doutor em Música e Educação, explica que de simples o berimbau não tem nada, ao contrário do que acredita Natalino, admirador da música clássica. O mestre Bira Reis, 30 anos de pesquisa com a cultura popular, lembra que o som do berimbau já foi levado para todos os lugares do mundo por gente, por exemplo, como Naná Vasconcelos. Primitivo, assim, parece ser só o pensamento do professor Natalino.

Um dos poucos a se solidarizar com Natalino foi o diretor da Faculdade de Medicina, Tavares Neto, que classificou a reação geral como um “factóide”. E ele tem que reagir assim mesmo, para ser coerente com um parceiro. Afinal, Natalino teve todo o apoio dele para chegar à chefia do colegiado. Para isso, contou com os votos dos seus colegas professores. A Faculdade de Medicina tem, na realidade, uma situação privilegiada, pois exibe uma relação professor-aluno melhor que a de Harvard. Isso mesmo. São 277 docentes para 1052 alunos. Pouco mais de três alunos para cada professor. Um luxo!

Ocorre que os professores dedicam-se a seus consultórios e clínicas e aos excelentes programas de pós-graduação que existem na faculdade. Não dão aula na graduação, que fica entregue a alunos dos cursos de pós. Ou seja, há, na Faculdade de Medicina, um sério problema de gestão, onde deve ser encontrada a causa para a baixa nota no Enade.

Tavares Neto, ao invés de enfrentar o problema, em 2004, propôs fechar a escola para ver o que fazer. Não por acaso, era o primeiro ano das cotas. A direção da faculdade revela agora a sua mentalidade senhorial, preconceituosa e contra as políticas de inclusão social. Esse mérito tem o professor Natalino. O lixo saiu debaixo do tapete. Não dá mais para esconder.

Ainda estamos distantes, portanto, do respeito à política de cotas – que, para fazer justiça, tem sido seriamente defendida pelo reitor Naomar de Almeida Filho, um de seus ideólogos em plano nacional inclusive. As resistências não são pequenas. Até porque ainda são muito fortes as casamatas senhoriais.

Do alto da varanda da Casa Grande, há senhores que se julgam com poder para excomungar os negros. Já avançamos bastante, reitere-se. Mas, inegavelmente teremos que lutar muito para promover a revolução cultural que nos unifique, que sepulte as marcas do preconceito e da discriminação contra os negros, tão evidentes nesse episódio. Uma revolução cultural que nos faça não esquecer da escravidão, mas lembrar dela para que extirpemos suas odiosas, lamentáveis manifestações.