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Entrevista

O pop star do morro

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 20/07/2010 16h49, última modificação 13/08/2010 12h54
MV Bill mostra por que é ídolo nas favelas cariocas
O pop star do morro

Ídolo nas favelas, MV Bill nunca pensou em abandonar a Cidade de Deus, seu lar e escritório. Por Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dario de Dominicis

MV Bill mostra por que é ídolo nas favelas cariocas

É hora da saída da escola na favela carioca. MV Bill está sentado numa mureta à sombra de uma árvore na esquina da Associação de Moradores da Cidade de Deus. Crianças uniformizadas deixam o turno matutino do Ciep João Batista dos Santos e vão aglomerar-se ao redor do rapper, todas com cadernos abertos nas mãos. Pedem autógrafos ao ídolo, que veste camiseta regata, bermudas e sandálias Havaianas e afirma repetidas vezes: “Aqui é o meu escritório”. Uma senhora se aproxima: “Você vai se candidatar a senador?” Ele responde que não, ela retruca: “Não vai mesmo, não, porque não vale a pena. Fica com a gente. Política partidária não, só comunitária”.

Bill dá autógrafos às dúzias, para crianças e adultos, como cantor de rap que lançou em abril seu quarto disco (o independente Causa e Efeito), como líder comunitário e como embaixador informal da Central Única das Favelas (Cufa), hoje espalhada por todos os estados do País. As três condições lhe rendem tratamento de pop star por parte da população local. Uma década se passou desde que ele surgiu como cofundador da Cufa e cantor carrancudo de rap, por vezes confundido com um bandido. Bill passou por grandes transformações, tão radicais quanto as vividas pela favela em que ele nasceu há 36 anos e onde vive até hoje.

Um grupo de adolescentes grafiteiros colore uma praça da favela de verde e amarelo para a Copa do Mundo, e Bill conta com gosto que quem há poucos dias andou por ali filmando um documentário foi Skip Gates, o professor negro norte-americano preso por engano nos Estados Unidos, em julho de 2009, ao tentar arrombar a própria casa (e mais tarde recebido por Barack Obama, como gesto de desculpas pelo abuso policial sofrido). Uma semana após a visita de CartaCapital, Lula iria à Cidade de Deus para inaugurar uma unidade de pronto atendimento.

Fui eu que propus o encontro no hábitat de Bill, e ele parece feliz em poder demonstrar como é o seu dia a dia e o da comunidade. O almoço é de comida caseira, no self-service a duas quadras de distância, o mesmo onde já almoçou o vice-presidente da empresa de telecomunicações Nextel, da qual o rapper atualmente é garoto-propaganda. O proprietário do restaurante se esmera no atendimento e conclui, orgulhoso: “Na favela também se come bem”.

A parada seguinte é o Complexo do Alemão, do outro lado da cidade. Bill quer mostrar a sede que a Cufa montou há quatro anos no morro da Pedra do Sapo, uma das favelas que compõem o complexo, perto de onde foi assassinado em 2002 o jornalista Tim Lopes. No caminho, ele adverte que no Alemão o tráfico continua atuante, o estado de espírito é outro. Mas mesmo ali é marcante a presença do Estado, nas obras do PAC, inclusive o teleférico que economizará a população local da íngreme subida, e na presença maciça de funcionários federais de uniformes azuis que batem de porta em porta para conversar sobre as obras com os moradores.

No caminho de volta à Cidade de Deus, o carro para num grande posto de gasolina, e os frentistas todos puxam papo animadamente. Pedem CDs e dicas para conquistar as meninas mais bonitas do pedaço. Como os estudantes, as donas de casa e até os policiais são fãs de um sujeito bem parecido com eles mesmos. Leia abaixo um resumo das quase seis horas de conversa com MV Bill.

CartaCapital: Qual é sua opinião sobre as UPPs?
MV Bill
: É inegável que caiu drasticamente o número de homicídios, disparos por armas de fogo, mortes causadas pela polícia. O crime acabou, não tem mais bandido no local. Esses sinais positivos de mudança podem maquiar princípios de problemas que a gente já identifica nas UPPs. Alguns policiais já se sentem à vontade para fazer uma abordagem mais violenta. É um grande problema deixar que, além da segurança, a polícia cuide do lazer, da educação. Hoje a polícia determina a que hora termina o baile funk, se vai ter baile. A gente pode estar começando um coronelismo. Mas é necessário reconhecer que vários policiais têm demonstrado um respeito nunca visto antes na história de encontros com favelados. É uma mudança de comportamento. Se a gente tem policiais respeitadores que fazem uma revista com habilidade, não há resistência em cooperar. Mas ainda acontece o que aconteceu com o Rodrigo Felha, um dos diretores do filme Cinco Vezes Favela, revistado indo para uma festa de despedida antes de viajar para Cannes, dentro da Cidade de Deus. O policial o deixou com a calça arriada, de cueca, em frente a um centro comercial movimentado. Não é essa a polícia que a gente quer. Numa favela pacificada, a gente espera uma postura policial menos agressiva.

CC: Os traficantes expulsos vão para onde?
MVB:
O crime está migrando. Sai, mas os bandidos não morrem nem são presos.

CC: Alguns são reabilitados nesse processo?
MVB:
Dificilmente. Se a UPP vê o bandido, ela vai dar tiro, prender, matar. A  ressocialização não é o policial que vai fazer. Alguns caras da CDD envolvidos com o crime, sem ser em grandes postos, viraram trabalhadores com a chegada da UPP. É polêmico, mas acho que uma forma de evitar o conflito seria uma anistia, um grande balcão para quem está a fim de largar as armas. O AfroReggae faz um trabalho muito bom dentro das cadeias, encabeçado por um ex-detento, de pegar o cara que está saindo do sistema prisional, sem saber por onde recomeçar, e direcionar ele para um emprego já fechadinho. Não é qualquer empresa que vai abrir ou que tem cota para ex-presos.

CC: Que balanço você faz da recepção de seu novo CD?
MVB
: Uma porrada de gente recebeu, mas foram poucas matérias na mídia. A minha sorte e a sorte de muitos é que a internet quebra com isso de uma forma muito democrática. A internet e a independência me permitiram chegar a muitos lugares, o que me leva a crer que matérias em alguns jornais, quando o disco é de gravadora grande, sejam até compradas. Espontaneamente são poucas. Tem um esqueminha todo montado, ou tinha, de gravar disco, jabá na rádio, música na novela, videoclipe bacana, e a banda estourava. Bandas viciadas nesse esquema hoje não sabem por onde começar a trabalhar de forma alternativa. Alguns amigos DJs não entram numa loja de CDs há mais de oito anos, se eu depender desse maluco estou fodido. Mas, se eu levar para ele num preço acessível, ele compra na minha mão, e é isso que estou fazendo. Faço apresentações para 2 mil pessoas, levo 200 CDs, aviso que custa 5 reais e vendo tudo. Tem disco com espaço na mídia, mas não vende nada. Às vezes, vendo na rua também, estou passando, “Bill, tem CD?”, “tenho”. Quando dou um CD, não estou perdendo dinheiro, mas investindo num novo ouvinte, que vai compartilhar com alguém, copiar, inserir em MP4.

CC: Você aparece em páginas inteiras de jornais, nos anúncios da Nextel, mas os mesmos jornais não avisam que seu disco saiu.
MVB
: É igual à Men’s Health, uma revista para o público masculino. Eles dão dicas específicas para quem tem sardas – pessoal mais claro. Para quem tem problema com luz solar – pessoal mais claro. Mas não dão dica específica para pele preta. Nunca teve uma pessoa preta na capa. Agora estou na contracapa da revista com a propaganda paga pela Nextel. Estou chegando (ri), fui até página da Veja pela Nextel, olha que inusitado. Que eu me lembre, nunca antes tinha aparecido na Veja. A Nextel atende de trilionário até miserável, e de maneira igual. Sou o primeiro afrodescendente a fazer essa campanha. Tive acesso aos primeiros números, houve um grande crescimento em pedidos de linhas com a campanha, e um número significativo é pertencente à classe C. Ou seja, muitos pretos, pessoas de baixa renda, gente de periferia, branco pobre.

CC: Qual é a sua opinião sobre a parceria do Mano Brown com a Nike?
MVB:
Respeito, mas não tenho nenhum apreço pela Nike, nenhum apego, nada. Podiam dialogar muito mais com os consumidores, principalmente na área social. Se de repente a América do Sul está vendendo menos e eles precisam fazer uma ação com ícones da juventude local, aí tentam se aproximar. Ganhei uns 15 pares da marca, me mandaram sem eu pedir, alguns evito até utilizar quando estou na CDD. Uso chinelo barato, na capa do CD estou usando All Star, que, apesar de também ignorar o hip-hop e não dialogar com a gente, tem uma cara mais comum. Por ser barato, não é ostentador, é acessível para todo mundo.
(Policiais da UPP passam devagar numa viatura, olhando para Bill. Ele se põe a contar experiências com a polícia.) Uma vez parou uma viatura, veio um policial com um bloquinho e uma caneta na mão, pensei que ia levar uma multa. Ele pediu um autógrafo para a irmã. Um dia eu estava aqui no mercado, tinha quatro policiais da UPP, um gritou: “MV Bill! É o rap”. O outro começou a fazer beatbox com a boca, dentro do mercado. Eles são soldados muito novos, na maioria de origem muito parecida com a nossa, os mesmos hábitos. Tem de ter um trabalho psicológico para que não haja uma aversão ou até uma raiva quando vê outro cara fazendo o que ele gostaria de estar fazendo. Por não poder, ele de repente vai querer acabar com a brincadeira dos caras. A polícia tem problemas no Brasil inteiro, a de São Paulo vem demonstrando um grau de corrupção e agressividade fora do comum. Muitas atrocidades cometidas pelos policiais são reflexo de uma sociedade que exige esse tipo de comportamento. Tem de moralizar a polícia, mas moralizar antes a sociedade que exige o comportamento agressivo.

CC: Você já foi à cracolândia de São Paulo? O que está acontecendo lá?
MVB:
Estive lá pela primeira vez em 1995, com o Mano Brown. No Rio Grande do Sul, o estado só se envolveu na luta contra o crack- depois que houve um caso de um jovem de classe média que se matou, matou os pais, aí virou comoção estadual. Enquanto era só o fulaninho filho de pedreiro que estava morrendo, isso é problema dos outros. Em São Paulo, há um descaso, um distanciamento, porque quem está morrendo não tem nem onde reclamar, ou a reclamação não ecoa. No Rio, a maioria dos chefes de tráfico não queria botar crack para vender, porque sabia que ia devastar. Houve uma resistência, mas de uns três anos para cá começaram a deixar o crack entrar. O que mais me espanta é que o mesmo crack- que leva tragédia para várias famílias é o que salva outras. O dinheiro do crack, sujo de sangue, é lavado quando a pessoa gasta com material escolar, supermercado, padaria. Enquanto esse dinheiro continuar fazendo essa dupla função, estamos mais próximos da tragédia que da solução.

CC: Você é contra a política partidária?
MVB:
Não sou contra, acho que até é um possível caminho para mim no futuro, não sei de que maneira. Mas fico muito empolgado com os resultados alcançados de forma apartidária, sem precisar me envolver politicamente com ninguém. O mais legal é poder ter parceria, mas não ser chapa-branca.

CC: Em que a Cufa é diferente de um partido, ou de um órgão oficial?
MVB:
Um grande diferencial é o incentivo ao protagonismo, não deixar que a gente vire coadjuvante da nossa própria história. O protagonismo é fazer com que Preto Zezé, que é lá do Ceará, tenha visibilidade na Cufa. A gente não tem medo que outras caras apareçam. Hoje sou um fomentador, tenho um papel de provocar debate, mas não mando porra nenhuma. O bacana da Cufa é a diversidade. Nosso presidente nacional é um menino homossexual- da Bahia, e a vice-presidente é uma mulher da Paraíba. O mais importante é que a gente é uma rede não revanchista. Não queremos nos vingar de ninguém. Não nos isolamos no nosso canto dialogando só com nossos pares. A Cufa sabe a população que ela precisa empoderar, mas sabe que o diálogo com os limites que ultrapassam a favela é importantíssimo.

CC: Como você vê a era Lula?
MVB:
O governo dele tem vários problemas, várias críticas a serem feitas, mas também tenho elogios a atitudes que eu nunca tinha visto antes (imita a voz do presidente) na história deste país. Para mim, como preto morador de favela, têm sido dois mandatos que tiveram mais a contribuir que a perder. Há coisas que precisam ser monitoradas, para não serem fraudadas nem virar assistencialismo, mas é inegável o acesso da classe C e dos jovens da favela a vidas mais dignas.

CC: O que pensa dos três principais candidatos à Presidência?
MVB:
Já estive com Dilma Rousseff em algumas ocasiões, ela demonstrou-se muito preocupada com a questão do crack, nos procurou para falar do assunto. Nunca tive a oportunidade de falar pessoalmente com Marina Silva, mas um pessoal- dela me entregou um material que fala de planos futuros de campanha. Cuidar do ambiente é cuidar das pessoas que vivem dentro dele, então o social está diretamente ligado. José Serra é o que conheço menos. Conheço a gestão dele em São Paulo e gostaria de ouvir seus programas de governo para saber se ele tem algo mais a apresentar ao Brasil do que já apresentou em São Paulo. Pelo menos de mim, das coisas que faço, ele é um pouco mais distante. E quem quer governar o Brasil tem de estar mais envolvido socialmente, mais próximo das pessoas menos favorecidas, que são a maioria do Brasil.

CC: O Brasil tem melhorado em relação ao racismo?
MVB:
Qualquer mudança é significativa, mas a questão é tão complexa que a gente acha que é só um início ainda. Embora a gente viva num país que tem maioria de afrodescendentes, a maior nação negra fora da África, a televisão do Brasil parece que está na Dinamarca. Os resultados mais fortes vão chegar à medida que a gente ocupar espaços. Não quero que o Manoel Carlos tenha compaixão e coloque um elenco de gente preta na novela só porque está com pena. As pessoas ficam forçando, sugerindo que eu seja candidato a alguma coisa, não estou pronto para encarar, mas também não tiro a necessidade de renovação. A gente tem no Senado um quadro não representativo da nossa diversidade, de pensamentos velhos, envelhecidos. Tem um cara do Senado que é meu ídolo, o Magno Malta (PR-ES). Ele tem colocado seu mandato totalmente à disposição da luta contra a pedofilia. A discriminação no Brasil é muito cruel, porque é por tom de pele. Quanto mais escura sua pele, maior a discriminação em cima de você. Negros de tons de pele diferente acabam uns se achando mais importantes ou interessantes que os outros. Gera um conflito entre quem deveria estar unido. É uma ótima forma de manter essa situação.

CC: Foi por perceber isso que você passou a se manifestar a favor do movimento homossexual?
MVB
: Estava em São Paulo, chegou um maluco ao lado da van e disse: “Sou homossexual, sou preto, sou da periferia, gosto de hip-hop, mas acho que eu seria muito discriminado dentro do hip-hop. Queria saber sua opinião”. Falei que não tinha opinião formada, mas ia pensar no assunto. Fiquei pensando quão contraditório era o hip-hop. A gente briga pela integração, pela inclusão, pelos direitos das minorias ou maiorias e escorrega quando fala de gênero ou orientação sexual. Mulher só tem espaço se for na cama ou fazendo backing vocal no fundo do palco. E homossexuais, nem pensar. Hoje acontecem coisas impressionantes na -Cidade de Deus, de héteros conversarem com homossexuais. Isso não acontecia, não podia nem chegar perto, se o cara dirigisse a palavra a um hétero podia ganhar tapa na cara e todo mundo achava certo. Hoje não, hoje existe relação de amizade, de contato. Posso usar a minha voz, a visibilidade que tenho, para mais essa questão, para mostrar que faço parte da luta anti-homofóbica. •

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