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O point dos experientes

por Editor CartaCapital — publicado 19/07/2010 17h06, última modificação 28/07/2010 10h20
Em torno da barraca 29, na praia da Boa Viagem, os “coroas” criam suas agremiações

Em torno da barraca 29, na praia da Boa Viagem, os “coroas” criam suas agremiações

 Por Celso Calheiros, do Recife (PE)

Por sua posição bem oriental no País, os clarões do dia chegam antes no Recife. Assim, a rotina começa cedo para Seu Pereira, um dos mais antigos donos de barracas de coco na avenida Boa Viagem. Às 4 horas, abre as portas da barraca 29, varre o chão e prepara o balcão para os primeiros clientes. As imediações do seu ponto, na metade do calçadão com 7,8 quilômetros de passeio e ciclovia, é o local do encontro de velhos amigos e suas agremiações. O Clube dos Rapazes Inocentes (CRI) é o mais famoso. Dele, se derivou o CRU, dos Rapazes Úteis, e as Meninas da Praia. Todos longevos. Também são assíduos clientes do Seu Pereira os membros do Clube da Fuleiragem, agremiação “gastroetílica”, que tem suas próprias raízes.

O CRI nasceu quando 13 conhecidos resolveram compartilhar as despesas geradas com a prática do vôlei de praia, recorda o empresário aposentado José Ramos de Almeida, o Zezé do Mungunzá, único fundador sobrevivente. Hoje, passadas quatro décadas, o CRI é identificado pelos assíduos jogadores que, antes das 6 da manhã, estão na areia (ou no mar) prontos para arremessar a bola sobre a rede. O clube é formado por fiéis associados que compartilham despesas com o vôlei e com o mungunzá fartamente distribuído todas as sextas-feiras. É famoso pelo grito de carnaval que, dizem as boas línguas, acorda o Galo da Madrugada na véspera do Sábado de Zé Pereira – é o mais conhecido bloco de carnaval de Boa Viagem.

O mungunzá é uma variação culinária do que a população dos estados do Sudeste do País aprecia como canjica e o do CRI vale destaque. É fornecido por Nildo Macena, que há 12 anos trabalha como ambulante servindo seu milho cozido em leite de coco, com sal, açúcar, manteiga, cravo e canela, e coleciona rasgados elogios no intervalo do jogo. São cerca 20 litros que Macena serve às sextas, na praia, para os comportados rapazes em organizada formação.

O CRU não tem mungunzá. Nasceu de um cisma com alguns membros do CRI por motivos variados. Algo como a ordem dos que deveriam entrar no jogo ou o valor da mensalidade ou a idade mínima para participar do clube. Ninguém se lembra ou se importa. O CRU virou o titular de uma quadra na areia mais ao norte, sem cláusula de barreira etária para os participantes. Também criou um bloco carnavalesco que saía na quinta-feira da semana pré-carnavalesca com um refrão que dizia algo como “esse carnaval só vai dar o CRU”. A lembrança da música é motivo de gargalhadas entre os amigos da praia. “Não esqueça o erre, não esqueça o erre!”, brinca Noé Assis, 70 anos.

As Meninas da Praia se encontram todos os dias da semana também nas proximidades da barraca 29. As atividades desse grupo de senhoras vão além da praia. A tesoureira do grupo, Aldecira Torres, 72 anos, conta que as sócias somam 35 e todos os meses promovem uma festinha de aniversário no salão do prédio de uma delas. Periodicamente, programam excursões a destinos variados, como a badalada Porto de Galinhas ou o Porto de Suape. Às vezes, um pulinho a Toritama, município que concentra 15% da produção de jeans do País e possui atraentes ofertas de roupas. As meninas também têm seu espaço no carnaval. “Eu já fui porta-estandarte, mas não posso mais por causa do meu braço”, recorda Aldecira.

A conversa é boa em toda parte, mas o humor é mais picante no Clube da Fuleiragem. Essa sociedade democrática nasceu com o princípio de equiparar todos seus membros ao fuleiro. “Somos todos iguais na fuleiragem”, advogam. Nas contas de Edson Lopes, o Ceará, 60 anos, o grupo é formado por cerca de 300 sócios. “São 25 a 30 assíduos e uns 500 penetras”, conta, sem compromissos com a matemática.

O Clube da Fuleiragem é novo, nasceu em 2008 depois de uma brincadeira na barraca do Seu Pereira, quando um desafio foi lançado. No dia seguinte, Chico, o presidente, chegou com boné e camiseta alusiva à turma. Entre eles, a bebida (cachaça de preferência) começa a ser consumida muito cedo, entre um pedaço de abacaxi e outro de melancia. Comida e bebida são rateadas entre os sócios.

Sábado é dia do encontro festivo. A contribuição financeira é convertida em um prato (“um batalhau, uma rabada, uma galinha à cabidela”) a ser compartilhado entre associados. Não falta o bate-bate, que é como a batida de maracujá é tratada pelos integrantes desse clube masculino. Por algum motivo, talvez precaução, as mulheres mantêm distância respeitosa dos fuleiros. O olhar deles não é tão prudente assim.

CRI, CRU, Meninas e fuleiros, ninguém dispensa um mergulho. A praia de Boa Viagem é conhecida pelos recifes que formam, na maré baixa, piscinas onde a água do mar é represada e fica livre de ondas. A imprensa se faz presente através do gibi aquático editado pelo jornalista Josué de Oliveira Lima, 79 anos. O veterano das redações faz uma seleção das notícias e as recorta dos jornais, revistas, de blogs e plastifica tudo. Com o clipping protegido como uma carteira de identidade, quem quiser o lê dentro do mar.

Os clientes do Seu Pereira agora se preparam para o período em que a barraca 29 será reformada – como está ocorrendo com todas da orla. Não será a primeira vez que o vendedor acompanha as mudanças do calçadão. Ele está entre os mais antigos na praia, do tempo em que só se vendia água de coco. “Minha primeira barraca tinha paredes feitas de troncos de coqueiros e palha de coco no telhado”, recorda. Seu Pereira tem mais tempo de praia do que as barracas. Ele foi salva-vidas quando os protetores dos banhistas eram vinculados à prefeitura. No tempo em que o treinamento era nadar mil metros mar adentro e voltar. Hoje são os próprios salva-vidas, há muito vinculados ao Corpo de Bombeiros, que proíbem os que querem nadar em mar aberto. Os tempos mudaram. Ainda assim, alguns personagens resistem. •

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