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O neto do big boss

por Paolo Manzo — publicado 29/11/2010 11h06, última modificação 02/12/2010 19h35
E de repente descobre-se a surpreendente identidade de um dos homófobos da Avenida Paulista
O neto do big boss

E de repente descobre-se a surpreendente identidade de um dos homófobos da Avenida Paulista. Por Paolo Manzo. Foto: Clayton de Souza/AE

Parecia a princípio apenas um esquálido fato da crônica policial. A agressão de domingo 14 de novembro, contra uns jovens que passeavam nas primeiras horas da madrugada numa das artérias principais de São Paulo, a Avenida Paulista, num primeiro momento incluído no cotidiano boletim diá-rio de uma metrópole violenta. Quando, porém, a polícia começou a investigar em profundidade, a história assumiu dimensão diferente. Parte-se da homofobia e chega-se à Máfia. Com M grande, aquela siciliana da Cosa Nostra e de Gaetano “Tano” Badalamenti. Ou seja, o poderoso chefão entre 1974 e 1976, morto numa penitenciária dos Estados Unidos em 2004, condenado a 45 anos de reclusão dura em consequência da operação da polícia internacional “Pizza Connection”: por meio de centenas de pizzarias em Nova York distribuía a droga que chegava da Sicília, sob o comando de “Don Tano”.

Badalamenti sênior fora também condenado na Itália, em 2002, como mandante, entre outros delitos, do homicídio de Peppino Impastato, um radialista que usava a ironia contra “Don Tano” e incentivava a rebelião de uma geração inteira criada a pão e Máfia.

Impastato tornou-se símbolo e inspirou um filme de Marco Tullio Giordana, I Cento Passi (Os Cem Passos), premiado pela cenarização no Festival de Veneza de 2000 e obra cult entre os filmes que denunciam a colusão entre política e criminalidade. Cem passos como a distância que separa em Cinisi, na periferia de Palermo, onde o jornalista vivia, a casa do boss mafioso daquela do jornalista.

E chegamos à Avenida Paulista e ao episódio de 14 de novembro. Primeira conclusão dos investigadores: tratou-se de um ataque homófobo, as vítimas, todas elas, abaixo dos 23 anos e na maioria homossexuais. Verificou-se, além disso, que dos cinco agressores, quatro são menores. Um tem 19 anos e todos são abastados “filhos de papai”. Mas quem era um desses papais acaba por revelar-se a derradeira e clamorosa descoberta.

Um dos agressores chama-se G. M., filho de um certo Carlos Massetti. E os especialistas em Máfia padecem da primeira suspeita. Massetti é um italiano que vive no Brasil há 16 anos, dizem, mas na rea-lidade o homem frequenta o País pelo menos desde 1983. No ano passado, no dia 23 de maio, Carlos foi detido pela Interpol com pedido de extradição para a Itália no âmbito de uma maxioperação da polícia italiana, a “Mixer-Centopassi”, clara referência ao homicídio de Impastato a mando de Gaetano Badalamenti.

Conforme conclusões dos investigadores italianos, a identidade de Carlos Massetti é de fato falsa, como outra, de Ricardo Cavalcante Vitale, também usada por ele. Seu verdadeiro nome seria, pelo contrário, Leonardo Badalamenti, justamente o filho de “Don Tano”, o “superboss” da Máfia que nos anos 70 gerenciava por conta da organização criminal as relações com o chamado “terceiro nível”, o nível da política italiana. Principalmente com Giulio Andreotti, democrata-cristão, sete vezes presidente do Conselho, como pode-se ler com todas as letras na sentença do processo que o viu réu alguns anos atrás em Palermo. Andreotti não cumpriu pena porque o processo prescreveu.

A acusação em relação a Massetti-Cavalcante Vitale-Badalamenti é de fraude e corrupção. Segundo a direção distrital antimáfia de Palermo, para favorecer a organização da Máfia, convicção apoiada pela Interpol, Badalamenti Jr. teria realizado uma série de operações fraudulentas com “bonds” venezuelanos, causando prejuízos para as filiais da Hong Shanghai Bank, da Lehman Brothers e de um banco britânico, por uma importância total de mais de 1 bilhão de dólares.

O nosso herói acaba na cadeia, mas dela sai logo. Com nova identidade, a de Carlos Massetti, e o STF não consegue demonstrar a velha, apesar de uma semelhança com o pai Tano que é deveras impressionante e uma série de dados incontestáveis, segundo a Interpol. Em agosto de 2010 o Supremo Tribunal Federal, na presidência do ministro Celso de Mello arquiva, porém, o processo depois de haver concedido habeas corpus ao recém-nascido Massetti. “Não se revela processual-mente viável, na via estreita do processo de habeas corpus, a discussão em torno da identidade do paciente em questão, que sustenta não ser ele o súdito estrangeiro que poderia vir a ser reclamado, pela República Italiana, ao governo do Brasil (...) Arquivem-se os presentes autos”, escreve o ministro De Mello. Baseia-se no fato de que o governo italiano não formalizou o pedido de extradição juntando os documentos probatórios da culpa do acusado.

Embora Massetti tivesse várias vezes proclamado a própria inocência, declarando ser, no momento da prisão, “prisioneiro político e vítima de um clamoroso erro judiciário” para o então chefe da Interpol-Brasil, Jorge Pontes (hoje tranferido em Paris) não subsistem dúvidas. Trata-se de Leonardo Badalamenti. “É um típico caso de lavagem de identidade – comentava Pontes um ano atrás –, como já aconteceu com os criminosos nazistas, Massetti conseguiu criar uma nova identidade. Assim um dos mais famosos mafiosos vive tranquilo no Brasil.”

E continua. Bem como o filho que, vejam só, é G. de Gaetano. Aos 16 anos revela perigosas tendências, que não deixam de evocar certas características da cultura mafiosa, baseada na importância da família, e pelo qual a homossexua-lidade é vista com terror. Meglio un figlio mafioso che ricchione(melhor um filho mafioso que homossexual).

A mudança de identidade ao se estabelecer fora da Itália também é um fenômeno cultural, digamos assim. Por uma estranha coincidência no Brasil já se verificou outro caso igual, do mafioso das categorias superiores que adotou em relação ao juiz italiano Giovanni Falcone a mesma estratégia da “lavagem de identidade”, para usar a definição do ex-chefe da Interpol brasileira. O nome verdadeiro é Giuseppe Bizzarro e Falcone o interrogou, na penitenciária de Belo Horizonte em 1984, impassível. Bizzarro negou qualquer acusação e a própria existência da Máfia. E, principalmente, negou até de ser ele mesmo: “Eu me chamo José Carlos Fatore Lanza, não sei de que sou acusado, deve ser um erro de pessoa. Sou um prisioneiro político”, disse com um fortíssimo sotaque do sul da Itália.

Bizzarro fora preso no dia 24 de outubro de 1983, juntamente com Tommaso “Don Masino” Buscetta – o primeiro colaborador de Justiça que descreveu em detalhes a cúpula de Cosa Nostra para Falcone – e com Leonardo Badalamenti, aliás Carlos Massetti, aliás Ricardo Cavalcante Vitale, o filho de Don Tano. Já estava no Brasil. De passagem ou estavelmente? Só que então era ainda Leonardo. Quanto a Bizzarro, simplesmente desapareceu.

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