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O mistério do boró

por Cynara Menezes — publicado 31/03/2011 09h14, última modificação 01/04/2011 15h00
Aonde vai dar o caminho indicado por placas no Distrito Federal?
O mistério do boró

Aonde vai dar o caminho indicado por placas no Distrito Federal? O sem-teto Neguinho vende boró a 5 reais a porção equivalente a um copo de cafezinho. Dona Elza Barroso é grande consumidora. Por Cynara Menzes. Foto: Sergio Amaral

À beira da l4, também conhecida como Avenida das Nações, uma das principais vias expressas da capital federal, a placa de madeira com dizeres pintados à mão chama a atenção dos mais observadores: “Vende-se boró”, com uma seta em direção ao meio do mato. Um pouco adiante, detrás da Esplanada dos Ministérios, bem ao lado dos edifícios anexos ao Senado Federal, nova placa, onde está escrito simplesmente: “Boró”. Desta vez, a seta aponta para um caminho de terra que aparentemente não leva a lugar nenhum.

Que diabos é o boró? Alguém cogita que possa ser algum tipo de droga. Impossível: quem seria louco o suficiente para anunciar a venda de uma substância ilegal em plena rua? Mais: como a polícia poderia desconhecer esse sinônimo e fazer vista grossa para as placas que se multiplicam pela cidade? Uma amiga afasta a sombra da suspeita: “Minha avó é a maior compradora de boró de Brasília”.

Mistério desfeito. Boró é a larva da mosca-varejeira, criada especialmente para servir de isca para os peixes do Lago Paranoá. Tudo indica que a palavra foi trazida para a capital por algum boliviano, porque é assim que é conhecido na terra de Evo Morales o parasita berne, também oriundo da mosca azul. A diferença é que as larvas que servem como isca são alimentadas com restos de frutas, pão, café e arroz. Carne, não. Na internet, também se encontra alguma referência a boró como a larva do coco licuri ou ouricuri, também chamada de gongo, tapuru, coró, morotó e fofó. Há quem os coma fritos, em forma de farofa e até crus.

Já o boró de Brasília só serve para a pesca. A venda do bichinho tornou-se o ganha-pão de algumas famílias de desabrigados de Brasília que vivem nas proximidades do lago. Ocultos entre as árvores, na direção onde apontam as setas, encontram-se vários acampamentos de sem-teto procurados por pescadores na hora de adquirir as iscas. Um copo de cafezinho cheio de boró custa 5 reais e garante uma boa tarde de pescaria. Dizem que é a isca favorita dos peixes do Paranoá, povoado por carás, bagres, carpas, traíras, tilápias e até tucunarés.

Com 40 quilômetros de extensão, o lago é o resultado do represamento do Rio Paranoá na época da construção de Brasília, em 1959. Durante os anos 1980 esteve poluído, mas hoje 95% de suas águas são consideradas próprias para banho. A pesca comercial esteve proibida entre 1966 e 1999, não se sabe exatamente por qual motivo, como herança da Lei de Segurança Nacional da ditadura. Atualmente, está proibida apenas a pesca com rede de superfície, artefatos explosivos e o uso de substâncias químicas.

Pescar na beira do lago é uma diversão barata para várias famílias da capital no fim de semana, sobretudo das classes mais populares. São esses os principais fregueses do boró. Francisco de Assis Silva, o Neguinho, um “borozeiro” conhecido nas proximidades do Lago Norte, conta que cria e vende os bichinhos há mais de 30 anos. Antes dele, um tal “Seu Chico” dominava o comércio de boró na área.

Numa caixa grande, Neguinho coloca frutas e restos de comida. Após 22 dias, as larvas estão prontas, absolutamente asquerosas para nós, mas gordinhas e apetitosas para os peixes. “O pessoal daqui só pesca com boró”, conta Neguinho. “Os peixes adoram. E se deixar a caixa destampada, passarinho também ataca. Bem-te-vi não pode ver boró...”

A aposentada Elza Balbina Barroso, de 80 anos, a vovozinha “viciada” em boró do começo desta história, pesca no Lago Paranoá há 48 anos, desde que veio morar em Brasília com o marido. Sempre com a tal larvinha, que enfia, de duas em duas, no anzol. Não é história de pescador: sentada no píer, ela balança a varinha e em cinco minutos um peixe morde a isca. É um cará miudinho, que a pescadora resolve soltar de volta. “Tem gente que usa minhocuçu, mas eu tenho nojo”, diz, enquanto espeta a larva molenga e saracoteante.

O minhocuçu é uma minhoca que chega a ter 60 centímetros de comprimento e é a isca favorita do surubim. Nos pesqueiros do  interior de São Paulo, também se usa muito o bigato ou bichinho-da-laranja, considerado um acepipe pelas tilápias, que também apreciam o bicho-do-pão ou tenébrio. Em 2009, foi fisgado no Lago Paranoá o maior peixe já capturado por lá, uma carpa prateada de 29 quilos, uma das espécies que foram utilizadas no projeto de despoluição, há mais de 15 anos.

Dona Elza conta que, usando o boró como isca, chegou a pescar um cará “desse tamanho” – abre os braços para demonstrar. Diante da reportagem, pegou outro peixinho menor ainda do que o primeiro, que também soltou. Ela diz que quando vê um jovem nervoso, sente vontade de falar: vai pescar. “Isso aqui é uma terapia”, ensina. “A gente não pensa em nada, só em puxar o peixe. A cabeça fica vazia, uma beleza.” Em tanto tempo como pescadora, sempre usou vara de bambu. Nunca aprendeu a pescar de molinete, muito menos a nadar. O mais engraçado é que dona Elza não suporta peixe. “Gosto de pegar o peixe, mas não de comer. Dou tudo para os vizinhos.”

A cerca de mil quilômetros da praia mais próxima, curiosamente o Distrito Federal é onde mais se consome peixe no País: 13 quilos por habitante por ano, o dobro da média nacional. Estima-se que 60 famílias vivam na capital da comercialização de pescado retirado do Paranoá. Um dos melhores lugares para pescar em todo o lago é a Península dos Ministros, onde residem os titulares das principais pastas do governo. Mas não se tem notícia de que algum deles tenha aparecido às margens do lago munido de caniço e anzol – nem mesmo o ministro da Pesca, que atualmente, aliás, é uma mulher, a catarinense Ideli Salvatti.

Começa a chover no píer do Lago Norte, em construção desde que o governador José Roberto Arruda ainda não tinha sido enredado pelas denúncias de corrupção, mas que já é um dos points mais disputados pelos pescadores da capital. Dona Elza resolve doar o resto do boró a um rapaz que vai continuar a tentar encher o samburá pelo resto da tarde. Ao receber o copo das mãos da vovó pescadora, os olhos do moço brilham: “Opa. Boró é só o ouro”.

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