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Crônica / Matheus Pichonelli

O mesmo amor, a mesma esquina

por Matheus Pichonelli publicado 09/07/2014 09h56, última modificação 10/07/2014 14h37
Se me reencontrasse aos 15 anos, quando perdi a Copa de 98, diria que com o tempo as rejeições arrefecem, a saudade aquieta. Só a derrota dói igual
Paulo Pinto/ Fotos Públicas
Brasil Alemanha

Torcedores choram a derrota do Brasil contra a Alemanha no Parque do Povo

Eu tinha acabado de chegar de viagem. Foi o tempo de trocar de camisa, botar os chinelos, e descer a ladeira, de bicicleta, em direção ao clube. Na esquina, deixávamos as bicicletas na casa de nosso amigo, Carlos Fernando, vizinho da quadra onde nos criamos. Em dia de jogo, as bicicletas se enfileiravam até o infinito pelo quintal. Ficavam sob a vigília do Barão, um boxer mal encarado que adorava morder meus tornozelos.

Lembrando hoje, penso que o abrigo para nossas bicicletas era apenas um pretexto: queríamos mesmo era entrar na casa, abrir o pote de biscoitos, saber o que a mãe dele preparava para o almoço, sentar e conversar. Só depois íamos ao clube, onde aprendíamos a duras penas a conviver como iguais entre as diferenças, todas catalisadas pelo futebol da quadra.

Naquele dia, um domingo, cheguei de viagem e fui direto para a casa dele. Mas, diferentemente do que acontecia todas as tardes de todos os dias de todos os anos até então, não descemos para a quadra. Ficamos na sala de tevê, abarrotada, para assistir à final da Copa de 98. Eu tinha 15 anos, algumas esperanças e muitas crenças, entre elas a de que havia uma predisposição genética bem distribuída entre nós, os brasileiros, que nos tornava imbatíveis dentro da quadra ou do campo. Eu mesmo, àquela altura, não havia abandonado de todo o sonho de me tornar, quem sabe um dia, jogador. Tinha um ídolo, ele vestia a camisa 9 da seleção, e confiava nele como uma criança que dorme no colo do pai e tem a certeza de que acordará, a salvo, na cama sob o edredom. Aos 15 anos não podia ser carregado pelo pai, mas ainda me era permitido ter ídolos.

Naquele ano, porém, um tanto por culpa do futebol, eu começava a desconfiar de certas premissas, uma delas a de que não era imortal. Comecei a desconfiar quando, após a cobrança de escanteio, o Zidane subiu mais que a zaga brasileira e cabeceou para fazer 1 a 0 para a França. Depois, em lance similar, o mesmo Zidane fez o segundo. Petit encerrou a piaba, e eu no meu silêncio sentia algo profundo desmoronar: a convulsão de Ronaldo, então Ronaldinho, o esforço, o improviso, o plano readequado, a incapacidade de reagir. A reviravolta de um jogo que parecia tão nosso parecia expor de modo impreciso a fragilidade da vida. Bastava ter evitado aquele escanteio, e talvez a história fosse outra. Mas não. Quando o destino entorta, ele abre uma curva, e fica difícil desentortar. Era o prenúncio de um tempo estranho: as espinhas começavam a aparecer, as rejeições afetivas se tornavam contínuas, a proximidade da vida adulta dava os primeiros sinais.

Pouco depois, ainda naquele ano, morreu minha avó, debilitada havia dois anos por um derrame. E eu passei os meses seguintes trancado num quarto à cata de fitas K7 antigas que traduzissem ou aquietassem o que levava no peito, sem ainda qualquer possibilidade de expressão. Imaginava, aos 15 anos, ter a ciência exata do que era o fundo do poço. Sabia de nada, inocente.

Penso naqueles dias e em meus amigos quando fecho os olhos e ouço uma música antiga dos irmãos Lô e Marcio Borges e Milton Nascimento. A música diz algo como “neste clube a gente sozinha se vê, pela última vez, à espera do dia, naquela calçada, fugindo pra outro lugar”. E me lembro do corredor de bicicletas enfileiradas na casa do meu amigo, com quem me encontrei dias atrás.

-A última bicicleta estava em casa até a semana passada. Como ninguém apareceu para buscar, levamos para um sítio.

Grande ironia, pensei, tentando recordar o quanto sobrou de nós naquela esquina, quando ouvíamos músicas para fugir de um presente incerto. Hoje ouvimos música para fugir do futuro consolidado, aquele futuro que tínhamos nas mãos e não sabíamos. Ouvimos hoje para voltar àquela casa na esquina do clube, como na música composta a poucos quilômetros do Mineirão, o epicentro da maior derrota da história da seleção. A maior derrota da história das nossas vidas, ao menos dentro de campo – sofremos mais, e sofreremos muitas outras fora dele.

Na terça-feira, 8 de julho de 2014, à medida que o placar se agigantava a favor dos alemães, sentia o celular vibrar no bolso, carregado de mensagens de gente que, como eu, tentava entender o que acontecia. Apenas um me telefonou, o Mário, que estava ao meu lado naquela sala de tevê há 16 anos enquanto o Brasil era trucidado pela França.

-Que bosta, hein?

-Pois é, que bosta.

-Tô aqui assistindo e lembrei de você.

Já fui lembrado por motivos mais nobres, pensei, e pensei também no tempo em que mal terminavam os jogos e meio mundo desandava a me telefonar para saber se eu estava bem – mesmo nas vitórias.

Quando a derrota se consolidou, me apeguei a todos os recursos da racionalidade, esta que tem dado o tom de nossas escolhas desde a modernidade, menos quando falamos em futebol. Me perguntei por que doíam tanto aqueles golpes, um a um. No primeiro fiquei calado; no segundo, me levantei; no terceiro gritei; no quarto me prometi um porre; no quinto tive medo da ressaca e parei de beber. Do sexto e do sétimo golpe não me lembro porque estava anestesiado e não estava mais em casa, ao lado dos nossos amigos, das novas pessoas que nós engendramos em nós, e de nós, como diz outra música. Estava naquela esquina perto do clube. Tinha só 15 anos, sabia do futuro que tinha nas mãos e podia contar a mim mesmo: as espinhas um dia somem, as rejeições arrefecem, a saudade da vó aquieta, mas as derrotas, ah, as derrotas não têm jeito, vão doer doídas e do mesmo jeito aos 15, aos 20, aos 30 e aos 90 anos. Não nos acostumamos a elas, por mais que nos tragam à razão toda vez que se manifestam: “eles são milionários”; “não sofra por quem não sabe que você existe”; “é só futebol”; “a vida continua”.

Talvez por isso sofremos tanto: porque no fundo detestamos estes argumentos e não queremos nos dobrar a eles. Não queremos nos desfazer da nossa cota de absurdos guardada pelo futebol. No fundo queremos herois, aqueles que aos 15 anos nos disseram não existir. E sofremos por eles, que não nos conhecem, mas de quem somos tão íntimos desde os pôsteres, desde os álbuns de figurinhas, desde a propaganda da tevê, desde as páginas de jornais. No fundo queremos alguém para dizer: “em você eu confio”. E queremos que joguem por nós enquanto nós, na mesma e velha calçada, fugimos de outro lugar.

Por isso sofremos. Porque queremos que ao menos no futebol sejamos bons, nobres, merecedores, sobretudo diante das circunstâncias: eles, os jogadores, são um pouco de nós, um país ainda pobre e emotivo, que busca a superação na adversidade e se reinventa; porque temos raça, temos paixão e porque somos, desde Canudos, sobretudo homens, e sobretudo fortes.

Acreditar nisso é acreditar que todo o resto é possível. E não acreditar nisso é não ter nada a dizer a não ser admitir que não temos nada além de medo. Nem sequer a paixão. Esta virou de lado e quebrou um paradigma: quem entrou em campo cheio de paixão foram os alemães. A diferença é que eles a têm sob controle, e se nos cravaram golpe a golpe com as mãos distantes do peito era porque era deles, e não da nossa herança lusitana, a boa dosagem de lirismo de quem conhece a distância entre intenção e gesto: enquanto estavam ocupados em nos torturar, esganar, trucidar, fechavam os olhos e sinceramente choravam, como diriam, um a um, ao fim do jogo, a lamentar o destino dos anfitriões por quem torceram nas oitavas, contra o Chile.

É isso, e não a derrota, que custamos a digerir: não cumprimos nosso ideal nem nos tornamos um império, nem na alma nem no futebol. Porque não somos o país do futebol. Temos mais títulos em Mundiais, mas eles já não dizem nada além disso: somos apenas uma seleção com um grande passado pela frente. Por algum motivo a fonte secou. Adriano, Ronaldinho, Ganso, Pato: todos ficaram pelo caminho, eles e seus futuros brilhantes, que poderiam ter se reunidos ontem no Mineirão, mas se perderam e nos obrigaram a dar espaço aos funcionários-padrão, a quem depositamos fé por parecerem confiáveis, esforçados, honrados, emotivos e até apaixonados, embora sem brilho. E de repente bastava o David Luiz sorrir para a câmera para sentir o tamanho da nossa carência: “olha que legal, olha que gente como a gente, olha como ele faz careta, olha como ele ama esse time, olha como ele nos ama, olha como o amamos”. E olha como a garra que ele levou a campo não nos salvou.

Pois até aqueles sorrisos foram metralhados pelos alemães que, sem querer, libertaram Barbosa de 64 anos de cadafalso: juntos, criaram um trauma ainda maior, e o diluíram em partes iguais, sem rosto e sem nomes, sem vilões ou culpados além das generalizações de sempre: o erro foi dos dirigentes, da comissão técnica, dos fãs sebastianistas do treinador, da peça que faltou, dos nomes não escalados, da falta de reformulação. Todas as razões óbvias, enfim, que vêm à tona ao fim de uma piaba, e que não levam em conta o fatalismo. A seleção alemã é melhor, se preparou melhor, possui uma geração melhor, enquanto nós ainda buscamos uma identidade, um padrão, um rosto para chamar de nosso desde a Copa de 82, quando vencer a qualquer custo virou obsessão.

Às vezes esse rosto é a vontade extra, mas nem sempre ela é suficiente: era preciso também um pouco de frieza e controle para não perder a linha, para o sorriso não virar choro, o choro não virar desespero e o desespero, ranger de dentes. Foi o que aconteceu em 98, e foi o que voltou a acontecer em 2014, primeiro como tragédia, depois como farsa, de novo a partir de um escanteio, um peteleco que removeu um graveto e desestabilizou a ordem da barragem, que só agora sabemos frágil e incapaz de conter a corrente: o mundo mudou e nós, não.

Aos 15 anos, me consolei dizendo que a cacetada contra a França era erro do acaso. Não era: se houvesse outros dez jogos, com ou sem Ronaldinho, perderíamos os dez. Porque não somos, como custei a crer, o país do futebol, em que a vitória é a rota e a derrota, um desvio de rota. Os 7 a 1 contra a Alemanha não deixaram dúvida, apesar da fala de Felipão, de que o jogo foi apenas o encontro casual entre o pior Brasil contra a melhor Alemanha. Não foi. Foi o encontro de duas perspectivas: a de um presente talhado e a de um passado místico. Erramos todos (eu, pelo menos) pensando que este último fosse capaz de ganhar jogo. Pois se houvesse mais dez jogos contra os alemães, perderíamos os dez, e teríamos sorte se o placar repetisse os mesmos 7 a 1. Não há consolo fora esta constatação, a não ser uma esperança: a de que, dessa vez, não demoremos tanto tempo para compreender. E que o dia 8 de julho de 2014 um dia termine.