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Sociedade

Maria Rita Kehl

O jeitinho brasileiro de se lidar com contradições

por Clara Roman — publicado 03/11/2011 10h13, última modificação 03/11/2011 10h17
O Brasil em termos de diminuição de desigualdade deu um passo enorme. Esse contentamento generalizado com a economia esvaziou o aspecto político. O movimento anti-corrupção tornou-se um movimento moral

Maria Rita Kehl, sobre o Brasil como país em desenvolvimento, com a economia fortalecida e a diminuição da desigualdade:

Acho esse cenário muito complexo [Brasil como país em desenvolvimento].  Eu acho que o Brasil em termos de diminuição de desigualdade deu um passo enorme. Como era um dos países de maior desigualdade do mundo, continua atrás. Ele continua dando esse passo.

Talvez os movimentos de juventude aqui não tenham a mesma força que em outros países porque os jovens daqui têm perspectivas. É muito estarrecedor pensar que o jovem brasileiro hoje tem mais perspectiva que o jovem norte-americano, no trabalho, mais confiança no futuro do país, na economia. Com o ProUni, com os programas de geração de renda, com as injeções de dinheiro na economia para o consumo das famílias e não pra quem é bilionário.

Por outro lado, e acho que isso vem do governo Lula, do jeitinho brasileiro do governo Lula de lidar com contradições. Esse contentamento generalizado com a economia esvaziou o aspecto político. Por exemplo, o movimento anti-corrupção poderia ser um movimento de esquerda que luta contra práticas patriarcais atrasadíssimas, estados mais atrasados, meno modernizados. Poderia estar lutando para denunciar deputados que votam projetos, que pedem clareza no processo político. Ou ele pode ser um movimento moral do tipo “Queremos de volta os bons anos Y”, seja lá qual forem.

Dilma, Lula e a corrupção

 

Eu não sei se a corrupção está aumentando ou se depois de 30 anos do fim da ditadura militar, a imprensa está mais madura e tudo vêm à tona, pelo menos em Brasília, São Paulo e Rio. E a Dilma tem um estilo muito diferente de encarar isso que o Lula e acho isso uma peculiaridade dela. O Lula, baseado no carisma dele, na popularidade dele, no fato de tanta coisa estar dando certo, ia varrendo tudo para debaixo do tapete. Nenhum escândalo teve consequencia. Só o Mensalão, porque aí não tinha jeito. O Zé Dirceu participou. Já a Dilma vai tirando as pessoas. O Lula criou um sistema de ministério, o ‘porteira fechada’, que dá um ministério para cada partido. E aí o governo fica amarrado com as práticas daquele partido. Isso é de um comodismo para manter a base aliada, falta de disposição política, de brigar com práticas atrasadas. “Não vamos deixar isso encher o saco”. Tem a ver com um estilo do Lula, que foi bom para muitas coisas, mas para política prejudicou. Acho que a Dilma, não com tudo que poderia, está mostrando serviço.

A Reforma Política para combater a corrupção

‘Isso é bobagem, isso é secundário, sempre foi assim’. Vários pensamentos que eu chamaria de fatalistas são frequentes na população. ‘Política é assim mesmo, sem isso não se faz política”. Agora, veja: você dá um partido para um ministério. O primeiro ministro é corrupto. E se descobre que tem esquema dentro do partido. Tira um partido e põe outro. E o o ministério continua controlado pelo mesmo partido. Mostra uma disposição de punir o culpado que já foi denunciado.

Mas não mostra uma disposição de que mudar as causas concretas da corrupção. Escrevi um artigo para CartaCapital sobre a Dilma em que digo que, com aliados como esse [base de Dilma, composta por PMDB, PCdoB,entre outros], ninguém precisa de inimigos. Então precisaria mudar, claro, pela própria Reforma Política. Se qualquer partido de esquerda entra no poder, o PSOL, por exemplo, ou cai em três meses porque não aprova nada no Congresso ou entra na maracutaia, em conchavos, concessões, negociações. E aí você troca seis por meia-dúzia o tempo todo. Agora, o Congresso vai aprovar uma reforma política? Não. Sabe-se lá quantos por cento dos senadores e deputados se beneficiam com a política do jeito que está.  Aí sim, aí o movimento contra-corrupção conseguisse focar aí, pusesse bilhões na rua. Mas ele está sem foco, está um movimento moral, nariz de palhaço, numa perspectiva neoliberal – no meu dinheiro, no meu bolso. É claro que está saindo do nosso bolso, mas saiu do nosso bolso também para pagar o Bolsa Família e muita gente reclamou nas eleições de 2010 ‘Meu dinheiro vai pagar para vagabundo ficar sem trabalhar’.  Como aqui em São Paulo, eu via em alguns ambientes ‘A gente está pagando IPTU mais caro para melhorar a Vila Brasilândia e não meu bairro’ Isso gente que mora nos Jardins, que é o bairro mais bem cuidado de São Paulo.

Kassab não é um prefeito ruim, ele é mau. Malvado. Ele fecha albergue, ele persegue artistas de rua. Ele faz tudo que é mesquinho, que é malvado, contra os indefesos.