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O humor do coronel

por Rosane Pavam publicado 06/10/2011 13h00, última modificação 07/10/2011 11h30
Comentário ofensivo revela arcaísmo de Rafinha Bastos e sua dificuldade em fazer rir

Rafinha bastos alcançou a unanimidade. Depois de proferir na bancada de Custe o Que Custar, dia 19, uma sequência de palavras sobre a gravidez da cantora Wanessa Camargo, “Eu comeria ela e o bebê, não tô nem aí”, todos já sabem que um dos mais destacados integrantes do programa televisivo não é um comediante. Ele exercitaria, em lugar disso, a grosseria simples ou, por muita consideração, um humor bunga-bunga, inspirado no temperamento dos sultões. Talvez, ainda, para inseri-lo na história brasileira, agiria como um latifundiário diante do martírio sexual das escravas negras. E como alguém riria disso, a não ser os próprios coronéis e seus simpatizantes?

O filósofo Henri Bergson deu ainda no século XIX a mais duradoura lição sobre o riso. Bergson dizia que a risada ocorre com efeito restaurador. Ri-se, segundo ele, de quem é inferior a nós, para sanar um equívoco social. Por exemplo, uma mulher que não enxergue a idade avançada, vestindo-se e maquiando-se exageradamente, mereceria a risada, que corrigiria seu comportamento. Wanessa, cantora de sucesso, filha jovem e bonita de um compositor popular vindo de família pobre, e o futuro filho dela, pelo contrário, não seriam exemplos a merecer a correção, especialmente de Rafinha, que o público não reconhece superior a ela ou ao bebê em alguma medida.

“O objetivo da piada não é degradar o ser humano, mas lembrar que ele já é degradado”, ensinou o escritor George Orwell. Ou, como afirmou o humorista Chico Anysio a CartaCapital no ano passado: “O humor deve visar a crítica, não a graça. Ele vai ser engraçado onde puder”. A seguir o que dizem esses autores, Rafinha feriu todas as regras do funcionamento humorístico. Não que esse boxeador verbal seja o único a quem se deva apontar a imprudência, já que, ao dizer tal frase, ele se viu provocado pelo comandante da bancada do programa, Marcelo Tas. Fora este a levar o assunto – a beleza da cantora grávida – à baila de seus comentadores subordinados. O que esperava quando levantou a bola para que Rafinha nela batesse? E, especialmente, por que não o advertiu em público logo que a frase foi proferida? Sobre o episódio, ele declarou à revista Veja São Paulo: “Não gostei, isso não é piada, não se encaixa na categoria humor. É uma deselegância, uma agressão gratuita. Ele foi infeliz. Acho que o CQC precisa superar a adolescência, passar dessa fase de rebeldia sem causa”.*

*Leia a íntegra da matéria na edição 667 de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 7

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