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Imperador

O grande desafio

por Socrates — publicado 02/02/2008 15h02, última modificação 16/09/2010 15h33
Adriano agora terá de enfrentar longas viagens de ônibus, gramados nem sempre bem cuidados e até estádios parcialmente vazios

Adriano agora terá de enfrentar longas viagens de ônibus, gramados nem sempre bem cuidados e até estádios parcialmente vazios
O que faria você se recebesse de presente uma passagem de primeira classe para o lugar que bem entendesse? Aceitaria? Creio que quase todos responderiam que sim. Mas é importante ter em conta que esse tipo de presente pode provocar grandes dores de cabeça no futuro. É que o que é bom vicia. Se não tens condições de comprá-la com teus próprios recursos, é bom que penses bem antes de aceitar. 

Como você se readaptaria a viajar na classe econômica, todo espremido, sem lugar para colocar as pernas, vizinho de uma pessoa inquieta e falante e aguentando, eventualmente, o mau humor das comissárias? É, não seria nada fácil. Depois daquela mordomia toda! Pois isso acontece em tudo que fazemos. Um presidente da República ou um ministro de Estado, por exemplo, passa anos e anos sendo paparicado o tempo todo. Dezenas de auxiliares não o deixam passar nenhuma dificuldade. Tem carros à disposição, aviões para viajar quando quiser, cozinheiros de primeira etc. Não deve andar nem com carteira. Dinheiro passa a ser supérfluo. Aonde vai, a porta está sempre aberta. É uma mordomia só. Os problemas aparecem quando ele deixa o cargo e volta a ser um cidadão quase comum. Deve dar uma ressaca daquelas. E a saudade do Palácio? Deve ser insuportável. Principalmente para aqueles que gostariam ou se sentem reis. Não é à toa que tem gente que se mata para não perder os privilégios. 

Quando vamos a um restaurante gostamos de ser atendidos com atenção particular, de ter sempre um garçom preocupado com o nosso bem-estar, de apreciar um bom prato e um vinho de uma safra especial. Mas temos consciência de que esses são eventos especiais e não nos tornamos dependentes deles. Se isso não for verdade, estaremos em maus lençóis. Todos nós conhecemos algumas figuras que não vivem se não estiverem fazendo parte das fofocas semanais ou se não forem convidados para festas de fachada para gerar fotos para revistas. A própria disseminação de programas de televisão cujo único motivo é bisbilhotar a vida dos outros é um bom parâmetro da realidade atual. Participar deles passou a ser um sonho para muita gente. Atrás da fama, de novas oportunidades, da grana em jogo ou de qualquer outro motivo. É o símbolo atual. 

O problema é o que vem depois, quando tudo acaba, quando dá meia-noite e a Cinderela se vê descalça e maltrapilha. Ao contrário do conto de fadas, no entanto, geralmente a coisa termina mal. Muito mal, aliás, com raríssimas exceções. No futebol, por culpa da notoriedade natural do meio, as condições são ainda mais perversas para quem não sabe digerir as centenas de estímulos diários que nos tentam até o extremo de nossas capacidades. Quase tudo dependente do paternalismo endêmico que assola a estrutura futebolística. É bem parecido com o paternalismo dos políticos em geral, que nem bem sabem como fazer uma reserva aérea ou uma compra banal, pois há sempre alguém a fazer por eles. 

Voltando à história do bilhete de primeira classe, imagine o que é jogar uma final de campeonato ou uma partida de Copa do Mundo e, logo depois, um campeonato vagabundo, num campo horrível e sem público. Não é fácil manter o profissionalismo nessas condições e, mesmo que tantos insistam em dizer que é igual a qualquer outro, esse é o pior jogo para se jogar. Não dá a mínima vontade de participar. Esse é o grande desafio a ser enfrentado pelo atacante Adriano, recém-chegado ao São Paulo. Depois de ter sido o grande artífice da conquista da penúltima Copa América pela seleção brasileira, de ter disputado o último mundial como titular e de ter sido por anos um dos principais atletas de um dos maiores clubes da Itália, ele volta a jogar no Brasil. Ele, que jogou muitos clássicos em um dos palcos mais cobiçados do planeta, agora terá de enfrentar longas viagens de ônibus, gramados nem sempre bem cuidados, zagueiros muito mais violentos e, eventualmente, até estádios parcialmente vazios. Isso sem falar das limitadas capacidades de alguns companheiros de clube. 

Não sei como enfrentará a nova condição, que nem de longe se aproxima daquilo que ele usufruía em Milão. Será necessário um grande esforço para recomeçar a carreira, abalada por vários motivos, o que não é tão simples mesmo para os indivíduos bem preparados. Torço para que ele se reencontre, pois é um jovem de talento dentro da realidade do futebol atual e será um desperdício se não souber encarar o desafio e retomar o seu destino. Terá de ser modesto e simples, se quiser vencer esta batalha.