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A vaca vai ao Citibank Hall

por Matheus Pichonelli publicado 13/10/2011 19h24, última modificação 06/06/2015 18h15
Para fazer seu 1º leilão de fêmeas e prenhezes Nelore, Zezé Di Camargo improvisa fazenda no palco onde fez seu 1º show em SP. Por Matheus Pichonelli e Rodrigo Martins
Zezé di Camargo bois nelore

Zezé di Camargo posa entre os bois nelore

Sapatos de salto agulha cravam o chão de serragem na tenda branca da área externa do Citibank Hall, casa de shows da zona sul paulistana que já recebeu nomes como Roberto Carlos, Tom Jobim e BB King. As saias, quase todas curtíssimas, rodopiam à luz dos flashes que pipocam das máquinas fotográficas em direção às feições bovinas que mal as observam. À entrada, Roberto Ângelo dos Santos, de 43 anos e responsável pelos lotes, fica em silêncio, desconfiado. Tanto trabalho para ambientar as estrelas no camarim improvisado e em minutos a confusão está formada: atrás de Zezé Di Camargo, um rastro de fãs e repórteres invade a tenda causando alvoroço com seus sapatos e flashes.

A preocupação é compreensível: cada um dos 28 lotes instalados no camarim é um diamante vivo. Um diamante que, como um artista qualquer, anda, dorme, descansa e se irrita, se não for mimado da forma correta. Um dos diamantes é Bucareste, uma fêmea Nelore de quatro anos que, naquela noite, seria vendida por 400 mil reais, em suaves 20 parcelas. O animal não estava totalmente à venda, registre-se. O que estava em jogo era 50% da sua futura prole. “O Zezé não aceita perdê-la. No máximo, admitiria a existência de um terceiro sócio, 33% para cada”, anunciou o leiloeiro, pouco antes de bater o martelo frente ao maior lance.

Goiana de nascimento, indiana de sangue e romena no nome, ela cumpriria, naquela noite, um ritual aos moldes dos casamentos arranjados da velha Índia, origem de sua raça: com uma corda, seria puxada até um picadeiro improvisado e receberia a oferta do melhor lance por seus dotes – entre eles o fato de ser a melhor filha do touro Jambo, sua beleza racial impecável, sua feminilidade e, claro, sua capacidade reprodutora, de acordo com o catálogo distribuído pelo criador, Zezé Di Camargo, aos convidados.

Se pudesse ler, Bucareste saberia que o seu dia já começara sublime naquela terça-feira 11. Seu horóscopo apontava para ela e outros animais do signo de Áries uma “data importantíssima” devido à lua cheia, que marcaria uma “virada decisiva nas suas atenções”. “Agora começa a temporada de cuidar de seus interesses, sem perder mais tempo. Ouse, sinta, dê alguns passos inovadores”, escrevia a Barbara Abramo na Folha de S.Paulo daquele dia.

Antes dos “passos inovadores”, que a levariam para o palco com a ajuda de um peão e uma corda, houve tempo ainda para a última visita do criador, que sentou ao seu lado e fez pose para as últimas fotos. Não sem demonstrar preocupação com a cria. "Calma, gente! Ela está assustada". Entre o alvoroço causado pela chegada do cantor sertanejo, Bucareste permanecia sentada, aparentemente alheia ao grande dia. Dia que começou às 3h30 da manhã, quando desembarcou na avenida Jamaris, em Moema, num dos cinco caminhões encarregados de transportar os animais do parque de exposições Imigrantes até a casa de show. A “data importantíssima” de que falava o horóscopo vem sendo preparada há mais de um ano, segundo Roberto Ângelo dos Santos.

Responsável pela logística do leilão, atividade à qual se dedica há 21 anos, Santos garante que os lotes (é como se referem a cada um dos nelores) estão acostumados com a rotina de exposições e viagens pelo Brasil. É a parte ruim de terem sido escolhidos para servir aos proprietários nas passarelas, e não à mesa. Dos 28 lotes, 13 pertencem a Zezé, que se dedica à agropecuária desde 1993, época em que a música “É o Amor” estourou nas rádios e virou trilha sonora obrigatória de casamentos, aniversários de 15 anos, novela, filme, propaganda de feijão, de móveis e eletroeletrônicos. O nome da propriedade, de 1.500 hectares no Vale do Araguaia, em Goiás, e comprada com o dinheiro da música, não poderia ser outro: “É o Amor”. Conta hoje com 1.000 cabeças de gado nobre.

Naquela época, conta Zezé, ele nem tinha ideia de como funcionava o mundo do agronegócio, que pode levar a um faturamento de 2,1 milhões com uma única nelore. “Para quem está de fora, isso parece uma coisa surreal”, disse o cantor pouco antes do seu primeiro leilão. Apesar do calor, ele apareceu ao evento de jaqueta escura, de couro, sobre uma camisa polo rosa.

Em vez de receber os convidados na fazenda em Goiás, onde vive a criação, decidiu manter a escrita: fazer a estreia no mesmo local do primeiro show, quando a casa ainda se chamava “Palace”, e também do primeiro lançamento de DVD. Superstição? “Não, o lugar é estratégico. Como fica perto do shopping, consigo agradar os maridos e as mulheres”.

Faltou combinar com os animais – e com os responsáveis pela logística. À exceção das calças jeans, camisas polo, sapatos e cinto de couros, os empregados em quase tudo lembravam os personagens de Fitzcarraldo, filme do alemão Werner Herzog que, num delírio amazônico, atravessou (nas telas e na vida real), com cordas, braços e roldanas, um barco inteiro em terra firme até o outro lado de uma ilha.

Diferentemente do barco de Fitzcarraldo, os nelores transportados tinham seguro em caso de acidente. Além disso, no Citibank Hall, o trabalho era o inverso: transportar a fazenda para o concreto. Serragem, cocheira, ração, ducha. Tudo estava à espera das modelos antes mesmo do desfile. E não podia ser qualquer alimento nem qualquer ducha. À mesa, só silagem de milho, em porções concentradas. Para o banho, nada de sabão em pó, só shampoo especial. “Se não a pelagem fica toda cor de rosa”, explica Santos.

De fato. Para Bucareste e as amigas, desfilar com a pele cor de rosa não seria o jeito certo para encerrar a data.

Quando entram no palco, o público arregala os olhos. O narrador, um misto de Carlos Lupi com Silas Malafaia, repete adjetivos como uma metralhadora, numa dicção que faria inveja ao lendário radialista José Silveira. “Essa é a galinha dos ovos de ouro”; “É uma estrela de primeira grandeza”; “Ela é muito bem pigmentada”, diz, com um olho na vaca e outro nos lances – que, de uma forma que só os iniciados entendem, se multiplicam pelas mesas antes do arremate.

Em som estridente, acompanhado de música Techno e vinhetas rápidas de “É o Amor” – mesclaras com a introdução de “We Are the Champions”, do Queen, e a música-tema de “Super-Homem”, cada lance para 20 parcelas no nelore é comemorado como um golpe de lutadores da UFC na arena de serragem.

Enquanto isso, Zezé circula. Sorri, abraça os amigos, posa para fotos, recebe os convidados, a quem ligou um por um para reforçar o convite às vésperas do evento. Convite feito por meio de um livro, quadrado de quarenta centímetros de capa dura, papel de seda, fotos e história de cada nelore, além de um disco enviado à parte com 20 sucessos.

Na plateia estavam 800 convidados, que dividiam espaço com personalidades como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o meia santista Elano, o apresentador César Filho, a medalhista olímpica Maurren Maggi e o empresário Ivan Zurita – o nome mais citado pelos narradores. Pudera. Figura que destoava entre os colegas de outras mesas - que pareciam ter transportado todo o Texas para Moema - Zurita, cabelos brancos, jeito discreto e camisa clara, foi quem mais garantiu lucro ao evento. Ao todo, investiu 800 mil reais no leilão. Foi dele o maior lance, de 440 mil, por meia nelore TE (que lhe garante a "transferência de embrião"), que pertencia a dois fazendeiros que entraram no leilão com Zezé.

A venda de só parte da vaca é comum no leilão. Isso porque nem todos os investidores gostam de dividir a posse de um animal desse tipo. Normalmente, o comprador da metade da vaca tem a escolha de optar por cuidar do Nelore ou deixá-lo aos cuidados do antigo criador. As despesas são divididas, assim como os lucros dos cobiçados embriões do bovino. De terno azul e gestos acelerados, um pecuarista de Tatuí (SP) confidenciou, no fumódromo improvisado ao lado da cocheira, que esperava por um lote específico, programado para o fim do leilão. “No começo, o pessoal puxa o preço para cima. São os amigos, os conhecidos do Zezé que querem fazer uma média e pagam mais caro por consideração. Agora os preços começam a entrar nos eixos”, comenta, antes da última tragada de Marlboro. “Preciso ir que está chegando a minha vez”.

Antes do final da festa, coroada com um pocket show de Zezé ao lado do irmão, Luciano, os organizadores já circulavam com uma folha contendo os números da festa: 4,928 milhões de reais movimentados, dos cerca de 3 milhões que eram esperados. O show entrou nas primeiras horas da quarta-feira 12, dia em que a Lua entrava no signo da nelore Bucareste e, apesar da “apreensão e temor do futuro” – sempre segundo Barbara Abramo – era recomendável “tratar de assuntos pessoais e cuidar da saúde com carinho e atenção”. Desta vez, a responsabilidade seria dividida entre Zezé e o novo dono.

*Com reportagem de Rodrigo Martins

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