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O fundo do lago

por Emiliano José — publicado 06/08/2008 18h28, última modificação 01/09/2010 18h29
Os fatos, às vezes, pela profusão de interpretações, deixam de ser fatos em sentido duro. E passam a confundir.

Os fatos, às vezes, pela profusão de interpretações, deixam de ser fatos em sentido duro. E passam a confundir. Até porque a mídia, que é quem elabora a nossa compreensão do mundo, ou pretende fazê-lo, está longe de ter compromisso com os fatos. O que havia algum tempo era uma espécie de jargão obrigatório do jornalismo, e que de há muito deixou de sê-lo. Ao menos para a maioria dos nossos meios de comunicação.

Posso e devo destacar as exceções, e é claro que estou me referindo aos episódios recentes que envolveram o banqueiro Daniel Dantas, e as duas mais significativas são o Terra Magazine, sob a batuta de um dos mais brilhantes repórteres brasileiros, Bob Fernandes, e CartaCapital, sob a direção do grande Mino Carta. Bob, como se sabe, foi também durante muito tempo o redator-chefe de CartaCapital. Nesses dois veículos foi possível chegar perto dos fatos.

Não quero, nesse texto, discutir os fatos em si. Os muitos fatos e versões deverão ser interpretados pelos leitores, expectadores e ouvintes de nossa mídia. E vejam como é curioso: parece que faz uma eternidade que esses fatos tão recentes, envolvendo Daniel Dantas, ocorreram. A mídia esfria ou esquenta os fatos, a depender de seus interesses, de seu específico olhar. Creio que o nosso povo tem aprendido bastante a fazer a leitura da mídia, ao contrário do que ela própria pensa. Não tivesse, e Lula não teria sido eleito para o segundo mandato.

A mídia brasileira, exceções à parte, com seu impressionante partidarismo, dificilmente voltará a ter qualquer atitude jornalística, sequer aquela de seguir os manuais de procedimentos guardados em suas gavetas. Ela é refém de interesses inconfessáveis e que só, aqui e ali, vêm à tona, como ocorreu no caso do banqueiro, que eu também não vou me reportar.

O que pretendo é afirmar que há um processo positivo em curso no Brasil. Por mais que se queira incentivar a impunidade, por mais que a mídia sempre encontre meios oblíquos para desviar o foco das questões centrais, creio que há uma caminhada que pode nos levar positivamente a uma situação onde a lei valha para todos. Claro que estamos falando de um processo não concluído, mas é inegável que têm ocorrido coisas no Brasil dantes nunca vistas. Esse mérito, independentemente da análise desse ou daquele caso, o governo Lula tem tido. Inclusive o de tornar muito mais transparente a chamada coisa pública, especialmente a partir da Controladoria Geral da União.

Não acho que seja um processo fácil. Ele ocorre no diapasão da vida política brasileira. A mudança não é tão rápida como desejaríamos. Nunca foi. As elites, nossas classes dominantes sabem se defender. Com a ajuda interessada de nossa mídia. A gritaria contra a prisão de membros da elite nunca encontra correspondência quando pobres, negros, jovens ou velhos são presos, algemados, maltratados, assassinados. Brancos e ricos não podem ser presos, quanto mais algemados, a mídia insiste é nisso. Ela sempre tem lado, e não varia.

E nossa Justiça, mais ainda nos tribunais superiores, não é tão republicana assim, para dizer o mínimo. Os advogados de Daniel Dantas fizeram a confissão de que na parte de cima do Judiciário está tudo dominado.

Mas, estamos caminhando. Até o fato de o banqueiro ter dito que iria “detonar tudo” antes de ser libertado pelo habeas-corpus salvador é indicativo de uma nova situação. Por caminhos transversos, está sendo anunciado que há muita gente envolvida no caso, e agora fica difícil jogar a sujeira para debaixo do tapete. Pelo menos jogar toda a sujeira.

Gostaríamos, quem sabe, de estar assistindo a uma Operação Mãos Limpas, desencadeada na Itália no início da década de 90. Ainda não estamos. Creio, no entanto, que não há mais como voltar a situações anteriores, onde tudo se ajeitava, onde inexistiam prisões de poderosos, onde a impunidade era quase absoluta. Onde a Justiça servia para absolver grandes e condenar pequenos.
Claro que, como a Justiça é cara, como tem mecanismos variados de protelações, como está vinculada, em muitos casos, a influências externas, ainda acontece isso, mas não como antes. Um juiz como Fausto de Sanctis já não constitui uma exceção. Há magistrados sérios espalhados por todo o País.

Lembrei-me de uma observação de José Luiz Del Royo, e fui atrás dela. Está no livro Itália – Operação Mãos Limpas, da Ícone Editora. Ele lembra que a Itália conta com uma quantidade incontável de santos católicos. E fala de Santa Brígida, que nasceu na Suécia, mas afirmou sua santidade em terras italianas.
Estarrecida, horrorizada, lá pelos idos do século XIV, com a corrupção generalizada entre os governantes, refugiou-se num convento em Roma, e de lá fustigava os políticos desonestos. Dela é uma frase famosa – “As esmolas não valem nada. O que é preciso é restituir o dinheiro injustamente acumulado”. Del Royo propõe adotar Santa Brígida como protetora do Brasil. “Quem sabe se os milagres que ela começou a realizar pela Itália, cheguem também até nós!”.

Os que têm fé, neste momento, provavelmente já sentiram a proteção de Santa Brígida. Claro, não se trata de um milagre completo. No caso brasileiro, vem a conta-gotas. Até milagre, conosco, é assim. A primeira fase, da identificação de tantas maracutaias, tem sido desenvolvida, especialmente pela atuação republicana da Polícia Federal. A segunda, a de restituição do dinheiro, não tem se concretizado de forma rigorosa. São passos que estão por vir. O que é certo, volto a insistir, é que dificilmente esse processo deixará de seguir adiante. Até porque a sociedade brasileira está mais atenta, cobra mais, e não permitirá que isso ocorra.
Pensei noutro autor. Ferreira de Castro, com seu notável A curva da estrada. Este, quem quiser encontrar, só em sebo. O meu é edição de 1960, Difusão Européia do Livro. É Soriano, o protagonista, divagando, logo nas primeiras páginas.

“Um lago abre-se quando um corpo cai sobre ele; a água ondula num instante e volta a fechar-se – volta à sua paz. Parece que tudo findou. Parece que o lago esteve sempre assim e que nele não ocorreu coisa alguma. As aves que passarem nesse momento verão a superfície sem uma ruga, adormecida sob a proteção da redoma celeste. Mas o cadáver que se encontra lá em baixo começa a corromper-se pouco depois da paz ter voltado à flor da água. E, de quando em quando, enviará para cima as bolhas dos seus gases, que perturbarão a tranqüilidade da superfície. O cadáver corrompe-se no fundo do lago como um produto sódico que se dissolve no fundo dum copo; e as suas emanações gasosas rompem verticalmente através da água, como o fumo rompe das chaminés dos navios para o céu. Um morto só está definitivamente morto quando se corrompeu todo. E enquanto dura a corrupção, a calma do lago é apenas aparente”.

Creio que ainda há muito que descobrir no fundo do lago, e que não há mais jeito de as calmarias induzidas pela mídia enganarem mais. O Brasil deve continuar a luta pela correta utilização de seus recursos para melhorar a vida do povo. E para dar cada vez mais dignidade à política.